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12:29 a.m. - 2005-06-23
Livros: O Zahir, de Paulo Coelho e A Fantástica Volta ao Mundo, de Zeca Camargo
Frustrações literárias

De um lado, Paulo Coelho utiliza vários elementos autobiográficos para construir o protagonista de seu novo livro, O Zahir. Do outro, Zeca Camargo passa o papel as aventuras vividas em uma série do fantástico na qual ele deu a volta ao mundo. Contudo, ambas as obras decepcionam. O Zahir não deixa espaço para a imaginação do leitor e leva-se a sério demais. A Fantástica Volta Ao Mundo... também leva-se a sério demais, além de ter estilo constrangedor e a profundidade de reportagem de revista de celebridades. Fabrício Muller aponta os erros dos autores.
Zeca Camargo viajou por diversos países e Paulo Coelho foi buscar em Borges a inspiração para o nome de seu novo livro

Não é muito justo analisar os livros de Paulo Coelho, como o mais recente O Zahir (Editora Rocco, 321 páginas) pelo conteúdo espiritual, já que isto diz respeito às convicções mais íntimas de cada passoa. E, também, como o escritor vende milhões de exemplares mundo afora, é evidente que grande parte daqueles que lêem seus livros sentem algum tipo de conforto com eles, o que deve ser respeitado. Isto posto, resta analisar O Zahir pelo lado literário.

O livro tem um óbvio viés autobiográfico, já que é escrito em primeira pessoa pelo personagem principal, um escritor – exatamente como Paulo Coelho – que fez letras de músicas de sucesso no início da carreira – exatamente como Paulo Coelho – e que, após um bom tempo sem rumo profissional, faz um livro sobre suas experiências no Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha – exatamente como Paulo Coelho. Este livro acaba fazendo sucesso em todo o mundo, sucesso este que só aumenta à medida em que ele publica mais livros – exatamente como Paulo Coelho. Este escritor – e aqui o livro nada tem de autobiográfico – é abandonado pela mulher, Esther. Recuperá-la se torna, para ele, uma obsessão total, um Zahir [o título do livro remete à tradição islâmica e a um conto homônimo do argentino Jorge Luis Borges]. Nesta busca, ele entra em contato com um personagem estranho, Mikhail [o livro sabiamente não define se este, com suas visões, é um místico ou um epilético], ex-amante de Esther. Ambos acabam indo procurá-la no Casaquistão.

O problema principal de O Zahir é que ele é um livro praticamente sem entrelinhas. Ele simplesmente não deixa espaço para a imaginação do leitor – qualquer um que tenha assistido a No Tempo das Diligências, filme de John Ford, ou lido o romance Retrato de Uma Senhora, de Henry James, sabe do que eu estou falando. O livro do Paulo Coelho é assim. Explica tudo o tempo todo, é confuso, truncado, leva-se a sério demais. Há alguns bons momentos de intensidade dramática [como quando o amante de Esther está na fila de autógrafos do escritor, ex-marido dela, ou o bem realizado final] e algumas curtas e belas histórias de fundo moral inseridas aqui e ali [Paulo Coelho é bom nisso, como comprova o seu bom livro Maktub] não fazem senão ressaltar a falta de qualidade literária do restante.

Por tudo isso ler O Zahir é irritante. Profundamente irritante.

Falando em livro irritante, A Fantástica Volta ao Mundo - Registros e Bastidores de Viagem, do jornalista Zeca Camargo (Editora Globo, 407 páginas), é surpreendentemente ruim. Explico: assisti a boa parte da série que deu origem ao livro, a qual passava no Fantástico e mostrava, a cada semana, o repórter visitando um local da Terra escolhido pela audiência – em dezessete semanas Zeca Camargo acabou dando a volta ao mundo. Na TV a série era ágil, interessante, se concentrava em locais pitorescos de cada região visitada. Bonita de ver, mas com a profundidade de uma reportagem da revista Caras. Como, afinal de contas, o sujeito pode se aprofundar muito sobre a cultura de um local ficando apenas poucos dias neste?

Mas Zeca Camargo, sabe-se lá o porquê, parece achar que a série que ele fez foi profundamente filosófica e importante ou algo do gênero. Como não há muito o que se aprofundar no assunto, a conclusão principal dele sobre a viagem é que, “no fundo, todas as pessoas são iguais” [ele esperava encontrar o quê? Marcianos?]

Pior do que levar a sério demais sua série superficial é o constrangedor estilo literário de Zeca. Ele faz perguntas para o leitor e as responde, coloca exclamações a todo instante, faz comentários bobos, não tem o menor senso de ridículo. Em outras palavras, ele é coloquial muito além da conta para um repórter que sempre se mostra competente na TV.

Sinceramente, é uma pena. Nem para cultura inútil A Fantástica Volta ao Mundo – Registros e Bastidores de Viagem serve.

 

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