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11:59 p.m. - 2005-06-22
Livro: On the road, de Jack Kerouak
De costa a costa
Bíblia da geração beat é reeaditada no Brasil, em
edição de bolso da L&PM. Com tradução revista e corrigida pelo mesmo
Eduardo Bueno, o clássico escrito por Jack Kerouac mergulha fundo na
loucura de dois amigos que, juntos ou separados, cruzam os Estados Unidos
no final dos anos 40 e início dos 50. Fabrício Muller releu On
The Road – Pé Na Estrada e descobriu algumas “novidades” na obra que
há várias décadas vem influenciando grandes nomes do cinema e da música
pop. |
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Keroauc: detalhismo e
verborragia |
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On The Road – Pé Na Estrada, de Jack Kerouac
(L&PM Pocket, 386 páginas) é considerado a “bíblia” da geração
beat, famoso movimento de caráter artístico e social dos anos
50. Mais do que isto, ele foi de uma importância fundamental para
todas as correntes libertárias que se desenvolveram nas décadas seguintes,
como os hippies dos anos 60 Para que se tenha uma idéia, a
introdução da presente edição – a cargo do próprio tradutor, Eduardo Bueno
– informa que Bob Dylan, Chrissie Hynde [vocalista dos Pretenders, que
atualmente mora no Brasil] e o cineasta Hector Babenco fugiram de casa
após ler On The Road; Jim Morrison fundou o Doors após ler On
The Road; já nos anos 90, o livro levou Beck a tornar-se cantor,
fundindo rap, folk e poesia beat; três importantes
fãs do livro, os diretores Francis Ford Coppola e Gus Van Sant e o ator
Johnny Depp, reuniram-se para fazer uma versão cinematográfica – nunca
concretizada – do clássico de Jack Kerouac.
A obra, lançada em
1957 nos Estados Unidos, só veio a ter uma tradução brasileira em 1984,
pela Brasiliense – antes disso havia sido lançada uma outra, portuguesa. O
tradutor daquela edição era o jornalista e escritor Bueno. Hoje
reconhecido nacionalmente por seus títulos de “revisão” da História do
Brasil, ele revisou e corrigiu Pé Na Estrada para o recente
lançamento da coleção L&PM Pocket – que também disponibilizou
novamente no mercado, em dois volumes, o genial Mate-Me Por Favor,
história do punk contada por muita gente que viveu e protagonizou o
movimento.
Apesar de ter um grande número de personagens, alguns
deles reais inclusive, On The Road conta basicamente a história de
Sal Paradise, o narrador, e seu grande amigo Dean Moriarti, no final dos
anos 40 e início dos 50. Os dois fazem diversas viagens [de carona, de
ônibus ou de carro], juntos ou separados, entre as costas leste e
oeste dos Estados Unidos – tendo também uma passagem pelo México. Eles
nunca têm objetivos de longo prazo. É freqüente se estabelecerem em um
lugar, arranjarem algum dinheiro e colocarem o pé na estrada de novo.
O excesso é a principal característica das viagens de Sal Paradise
e Dean Moriarti. Eles se embebedam quase todos os dias, arranjam muitas
mulheres, usam drogas com freqüência, dirigem em velocidades
inacreditáveis quando conseguem um carro, vão a todo o tipo de festas. Se
Paradise parece manter um pouco de sanidade no meio de tanta loucura, o
mesmo não se pode dizer de Dean Moriarti, que decididamente não bate bem.
O companheiro do narrador do livro rouba carros com freqüência; por
qualquer motivo fútil deixa para trás amigos, mulheres e filhos para ir em
busca de outras pessoas [podendo ou não voltar mais tarde]; é
agitado além da conta [por exemplo, chega a ficar saltitando por horas
em uma reunião social ou marca encontros com diversas pessoas em diversos
lugares diferentes em uma mesma madrugada] e tem atitudes sem sentido,
como ficar noites inteiras tendo conversas estranhíssimas com um de seus
amigos.
Se não há dúvidas a respeito da importância sociológica de
On The Road, pode-se dizer que o livro continua valendo como obra
literária? Confesso que tinha sinceras dúvidas a respeito. Não consegui
chegar até o fim do livro de Jack Kerouac na década de 80, naquela famosa
edição da Brasiliense – que me pareceu confuso, se perdendo em detalhes
sem importância, com personagens sem rumo e sem sentido. Relendo-o agora,
vinte anos mais tarde, acabei mudando radicalmente de opinião: na verdade,
o narrador Sal Paradise vê o mundo com os olhos espantados e maravilhados
de uma criança.
O detalhismo e a verborragia nada mais são do que
a tentativa de Jack Kerouac de mostrar aos leitores toda a sua alegria de
experimentar, de viajar, de conhecer o mundo, de viver. Pouco importa,
afinal de contas, se as suas aventuras têm algum sentido lógico, algum
objetivo.O que importa é o prazer que temos em ler este verdadeiro
clássico da literatura universal que é On The Road.
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