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12:04 a.m. - 2005-06-23
Livro: Neuromancer, de William Gibson
Não há futuro para
você
O futuro é sombrio e
assustador. Grandes corporações, grandes cidades e grandes organizações
mafiosas/terroristas atingem padrão de gigantismo inimaginável. Não existe
ética, a competição é acirrada e desleal, os seres humanos estão mais
preocupados com o avanço da Inteligência Artificial. A fusão entre
informática e mundo real é tão aprofundada que o mundo físico acaba sendo
um lugar sujo, abandonado e decadente. Este é o panorama de
Neuromancer, que acaba de ganhar nova edição brasileira.
Quem fala mais sobre o clássico cyberpunk de William Gibson é
Fabrício Muller |
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Capa da nova edição brasileira de
Neuromancer |
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Case é uma espécie de super-hacker do
futuro, especializado em penetrar em sistemas corporativos para espalhar
vírus e obter informações sigilosas. No mundo em que ele habita, criado
por William Gibson em seu Neuromancer (Editora Aleph, 305 páginas)
a tecnologia consegue transformações espantosas na biologia do ser humano
– como, por exemplo, implantes variados [como o de chips no
cérebro e de punhais embaixo das unhas], olhos computadorizados,
mudanças no caminho de canais lacrimais [no caso de uma das personagens
do livro, estes são desviados para a boca], drogas sintéticas
alucinógenas sofisticadíssimas... A tecnologia do futuro bolada pelo autor
possibilita até mesmo ressuscitar algumas pessoas. Um dos acontecimentos
mais importantes em Neuromancer, inclusive, só pôde acontecer
graças ao avanço da medicina: após tentar enganar os patrões, é implantada
uma toxina no corpo de Case para que este morra dentro de um tempo
determinado. Esse fato, aliás, já dá uma boa mostra de que o futuro
mostrado no livro está longe de ser um mar de rosas.
Realmente,
não é à toa que Neuromancer, lançado originalmente em 1984 é o
primeiro [e, segundo muitos, o melhor] dos livros de uma corrente
da ficção científica chamada cyberpunk. Gibson criou um futuro
assustador, no qual as grandes corporações, as grandes cidades [muitas
delas situadas na órbita terrestre], as organizações mafiosas ou
terroristas [o fanatismo, inclusive, está longe de ser abolido no
livro] atingem um padrão de gigantismo inimaginável nos dias de hoje.
É um mundo praticamente sem ética, de competição acirrada e desleal; onde
os seres humanos estão constantemente preocupados com possíveis avanços da
Inteligência Artificial. Além disso, a fusão entre informática e vida real
é tão aprofundada que, muitas vezes, esta fica em segundo plano: o mundo
físico em Neuromancer é freqüentemente sujo, abandonado, decadente.
E é neste cenário que Case é contratado para [melhor seria
dizer “obrigado a”] penetrar em gigantescos sistemas corporativos
juntamente com sua colega Molly. Eles nunca sabem direito quem os está
comandando e passam o livro todo praticamente nas mãos daqueles que têm o
poder sobre a vida e a morte do hacker. Contar mais sobre o enredo
é desnecessário – além de estragar a surpresa.
Neuromancer
– cuja presente tradução, a cargo do jornalista Alex Antunes, é a segunda
publicada em português – é um livro de inegável valor histórico e de
extraordinária inventividade. Mas sua leitura está muito distante de ser
fácil: termos pouco usuais no vocabulário do leitor leigo, como
simstin, deck e ICE pipocam no livro a todo tempo – e
com raras explicações. Pior ainda é a freqüente inserção de personagens –
humanos ou não [muitas vezes com nomes estranhos, como Zionita e Linha
Plana] – sem qualquer apresentação. Além disso, o cínico Case está
longe de impressionar como personagem literário. Ele reage aos
acontecimentos, mas não faz muito mais do que isto.
Mesmo com
estes detalhes, esse é um livro de leitura mais do que recomendada pela
impressionante e detalhada descrição de um futuro sombrio e assustador.
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