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8:40 p.m. - 2005-06-22
Livro: Meu nome não é Johnny, de Guilherme Fiúza
Dois mundos
Rapaz da Zona Sul carioca, bem nascido e bastante enturmado,
João Guilherme Estrella acaba se envolvendo com o tráfico e começa a
vender droga para sustentar seu próprio vício. Transformado em um grande
atacadista de cocaína boliviana, ele enfrenta problemas com a polícia e a
lei, passando por muitos problemas na prisão e no manicômio judiciário.
Intrigante história urbana da sociedade carioca é o mote de Meu Nome
Não é Johnny, excelente livro escrito por Guilherme Fiúza. Por
Fabrício Muller. |
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Guilherme e João Guilherme, autor e
personagem de um excelente livro sobre o mundo das drogas na sociedade
carioca |
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Todo o mundo já deve ter ouvido aquela teoria de
que os “verdadeiros” grandes traficantes do Rio de Janeiro moram
confortavelmente em apartamentos na Zona Sul carioca, não nos morros.
Quando se lê o subtítulo de Meu Nome Não é Johnny – A Viagem Real de um
Filho da Burguesia à Elite do Tráfico, de Guilherme Fiuza (Editora
Record, 336 páginas), pode-se pensar que estamos diante de um caso destes
– ou seja, o de um traficante realmente grande com educação
burguesa. Sinto decepcionar os partidários desta teoria da conspiração,
mas a história contada neste excelente livro é um pouco diferente.
Meu Nome Não é Johnny conta a história de João Guilherme
Estrella, rapaz bem nascido que gosta de tocar músicas em seu violão e que
cedo começou a se envolver no meio artístico. A partir da convivência com
a “turma” vêm as primeiras experiências com drogas. Primeiro a maconha,
depois o LSD e então a cocaína – que acaba viciando-o. Como necessita de
cada vez maiores quantidades para consumo próprio, ele começa a vender pó
(ainda em pequena escala) para arranjar dinheiro. Isto o faz entrar em
contato com alguns traficantes e a coisa vai aumentando. Estrella arruma
esquemas para traficar quantidades cada vez maiores diretamente da
Bolívia: a cocaína que ele conseguia lá – apelidada de “Nelore Puro” – era
a mais pura do mercado de drogas no Rio da época (final dos anos 80/início
dos 90).
Juntando o grande conhecimento da sociedade carioca que
tem João Guilherme Estrella (ele sempre fora um sujeito extremamente
sociável e simpático) com a qualidade insuperável de seu pó, é óbvio que o
resultado só pode ser um. O rapaz da Zona Sul transforma-se em um grande
atacadista de drogas, chegando a fazer viagens para Amsterdam para fazer
grandes vendas do “Nelore Puro” na Europa). E, claro, neste tempo todo ele
continua ingerindo quantidades fenomenais de cocaína.
Mas se
Estrella já passa a ser um grande traficante em termos de quantidade, em
termos de violência ele não pode ser comparado aos chefões do morro.
Impulsivo, pouco se importando com as conseqüências de seus atos, não só
ele não tem segurança pessoal como sequer anda armado. Logo a Lei está
atrás dele. Na primeira vez consegue se safar da polícia através de
suborno. Na outra isto não é mais possível. É preso, recebendo uma
condenação leve, em um grande momento da juíza que o condenou – pois ela,
acertadamente, acreditava no caráter de João Guilherme Estrella.
Mas nem por isto o sofrimento que o protagonista passa, tanto na
cadeia quanto no manicômio judiciário, são pequenos. Todos estes maus
momentos acabam ajudando o rapaz da Zona Sul a se redimir. Atualmente, ele
trabalha como produtor musical, não trafica mais e está recuperado do
vício da cocaína.
Meu Nome Não é Johnny (o título é baseado
na notícia do Jornal do Brasil; quando da prisão do traficante, o diário
carioca escreveu que seu apelido era Johnny – o que nunca fora verdade) é
uma obra extremamente bem escrita, em uma linguagem simples, direta e
envolvente. É o tipo do livro difícil de parar de ler. Outra qualidade é
que, em nenhum momento, o autor Guilherme Fiuza parece querer dar uma
lição de moral aos leitores.
Fiuza nem precisa disto, na verdade.
A história fala por si. |
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