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7:22 p.m. - 2005-06-22
Tradução de entrevistas: Morrissey - 4a. parte
"É tudo verdade"
Usar a música pop como algo memorável e inteligente sempre
foi um dos maiores objetivos de Morrissey. Em entrevista recente
concedida ao semanário New Musical Express, o mancuniano revelou isso e
muito mais, como o grau de ironia em suas letras, o que pensa sobre
hypes de imprensa e o significado de David Bowie para o então
adolescente Stephen Patrick. O Bacana publica a quarta parte das
principais entrevistas concedidas pelo cantor por ocasião do lançamento do
álbum You Are The Quarry. Além de trechos da NME, você pode ler
também uma conversa promovida pela Index com os fundadores da cultuada
gravadora DFA. |
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Morrissey: |
| "Morrissey: eu sou inseguro
demais" |
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NME [Entrevista publicada em edição
lançada antes da edição 2004 de Glastonbury, realizada no último fim de
semana de junho]
Você está ansioso para se apresentar no
festival de Glastonbury? Esta é a primeira vez que eu me aventuro
nessa coisa de festival. Nós tocamos em um festival nos confins distantes
da Suíça e foi pavoroso, e tocamos em outro em algum lugar por aí. Então
isto tende a ser um desastre completo.
Então você nunca tocou
em Glastonbury? Há 21 anos. Tomara que o fornecimento tenha mudado,
mas você nunca sabe.
Quais são as suas memórias
disso? Pedi para ir ao banheiro e me mostraram um buraco no chão.
Eu pensei, "isto não é para mim".
Você vai chegar cedo e ficar
o fim-de-semana lá? Sim, eu vou direto para a grama e então... Vou
me rastejar até uma barraca.
Michael Stipe diz que quando toca
em Glastonbury ele anda pelo local no meio do público sem camisa e ninguém
o reconhece. Sim, o público o reconhece mas, como ele está sem
camisa, ninguém quer chegar perto. Isto foi uma piada.
Você
deveria tentar isso. Michael é extremamente simpático. De camisa.
Não, é algo que eu deveria tentar. Mesmo! Eu sou inseguro demais.
Index [Morrissey foi entrevistado para a
Index por James Murphy e Tim Goldsworthy, co-fundadores da jovem e
crescentemente aclamada gravadora DFA.]
James: Você ia a
muitos shows quando criança? Eu comecei a ir a shows sozinho e
muito cedo. Eu amava e ainda amo Velvet Underground. Eu vi Lou Reed em
turnê antes de seu primeiro álbum quando eu tinha 12 anos.
James: T.Rex e Roxy Music eram realmente anárquicos, mas sua
música eram tão bonitas. As bandas preferidas de minha mãe são
Johnny Mathis e Roxy Music. Isto fala muito sobre eles. E eu vi Bowie em
1972, na turnê de Starman.
James: 1972 foi mesmo um ano
para você! Realmente foi. Eu vi as coisas certas no tempo certo.
Mas não há estrelas pop hoje como Bowie era então. Você precisa lembrar a
idade dele: tinha só 23 anos. Marc Bolan também. Eu não acho que exista
ninguém como ele.
James: Eu não sei se entendi perfeitamente
suas letras quando eu era jovem. Em que grau suas músicas são governadas
pela ironia? Bem, eu acho que o humor faz parte, mas em toda a
minha vida eu acreditei que eu sou uma pessoa real. Quando algumas pessoas
chegam no palco, elas deixam de ser aquilo que elas são nas suas vidas.
Mas, realmente, não há artifícios em mim! É tudo verdade.
Tim:
Talvez seja por isso que você consegue escrever músicas pop com tanto
conteúdo e profundidade. Bem, eu quero usar a música pop para dizer
alguma coisa inteligente e memorável. Isto era muito pouco comum quando eu
comecei. Músicos que se consideravam intelectuais não esperavam ser
populares, então eles faziam músicas que não poderiam tocar no rádio.
James: Foi uma surpresa quando você se percebeu massivamente
relevante? Bem, os Smiths nunca tocaram no rádio durante o dia.
James: Mesmo assim... Sim, suponho que fôssemos, sim.
James: Você estava nos programas de John Peel e de Janice Long.
É isto a que eu estava me referindo. Claro, eram outros tempos. As
estações de rádio estavam tocando estes ultrapop caros, enquanto nós
tínhamos um som um pouco áspero. Eu acho que os programadores tinham uma
idéia bem estabelecida do que soava profissional e do que soava amador. E
os Smiths soavam amadores.
James: E o que pensavam dos Smiths
no começo da carreira? Nós éramos considerados detestáveis,
esnobes, rudes, estúpidos, depressivos e sarcásticos.
James:
Você acha que vocês eram mal-interpretados. De jeito nenhum...
(risos)
Tim: O que você procura em um produtor? É
importante ser apto a falar abertamente sem medir as palavras. E eu não
sou o tipo de pessoa que fica vagueando em estúdios e jams. (...) É
importante para o produtor entender que eu não sou um cantor técnico. Mas
não sou fastidioso, não perco um tempo muito grande fazendo takes
atrás de takes.
James: E você continua fazendo discos
que outras pessoas querem ouvir. Por algum acidente ou sorte,
muitas pessoas gostam da minha música. Muitas pessoas querem falar sobre
isto e falar comigo. Mas eu nunca, nem remotamente, tentei cortejar a
imprensa.
James: Alguma vez já pensou que deveria fazer
isso? Não, moralmente eu não poderia fazer isto
James:
Mas o hype cria artistas que vendem milhões e milhões de
cópias. Eles estão atingindo as pessoas não-pensantes, que só vão
comprar CDs que são familiares a eles. E o que elas estão comprando é o
retrato que elas se lembram de ter visto. Quando eu vejo um gigantesco
vendedor de discos quando estou dirigindo no Sunset Boulevard, eu
instantaneamente me afasto.
James: Você ainda vive em Los
Angeles? Eu ouvi que você se mudou para lá no início dos anos
90. Sim. Eu sei o que você vai dizer mesmo antes de você dizê-lo. E
você está absolutamente certo.
James: Que lá é um lugar
esquisito? Sim. As pessoas sempre dizem que é um lugar muito
peculiar, e eu concordo. Mas tem boas qualidades. Tem muito glamour
visualmente, o que sempre é convidativo. Em LA você pode escolher quais
elementos da vida da cidade você quer tomar parte, enquanto que em Nova
York você não tem escolha, realmente. Eu fujo de praticamente tudo. Eu
acho que a idéia toda de celebridade é terrivelmente embaraçosa.
James: Mas Los Angeles é um lugar enormemente embaraçoso, onde
ser celebridade vale mais do que tudo. É terrível. As opiniões das
celebridades sobre todos os assuntos são levadas em conta, mesmo quando
elas não têm qualquer ponto de vista a respeito.
Tradução:
Fabrício Muller |
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