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7:14 p.m. - 2005-06-22
Tradução de entrevistas: Morrissey - 3a. parte
"Isto ainda vai acabar em assassinato"

Brigas judiciais com ex-companheiros de Smiths, Johnny Marr, a negativa da procura por um romance e a aversão a entrevistas foram assuntos discutidos na edição de junho da revista britânica Mojo. O Bacana publica a terceira parte das principais entrevistas concedidas pelo mancuniano por ocasião do lançamento do álbum You Are The Quarry, o primeiro disco de inéditas depois de um intervalo de sete anos. E na próxima edição ainda tem mais...
 
Morrissey:
Reprodução

Mojo

Morrissey está doente. Segundo suas próprias estimativas, ele está doente com o som da própria voz. Em uma suíte do Hotel Dorchester em Londres, ele pede desculpas à Mojo pelo que a revista está prestes a receber.
Eu te previno que eu estou no estágio de zumbi. Eu simplesmente sento aqui, meus lábios estão se mexendo, posso ouvir o som das palavras vindo de algum lugar e então eu percebo que quem as está formando sou eu. Gostaria de ser capaz de ficar atrás de mim ou do meu próprio lado e então gritar comigo mesmo! A coisa chata é que isto acontece porque você acabou de sofrer para fazer um álbum do qual você está terrivelmente orgulhoso, e então as pessoas assumem que você tem respostas para tudo e que você pode explicar tudo com uma “fluência fantástica”.
Eu tenho sido solicitado, digamos, a falar excessivamente e, infelizmente, para mim entrevistas acabam sempre virando intensas auto-análises, extremamente pessoais – o que realmente me esgota. Eu prezo intensamente, na verdade, a minha privacidade. O que significa que fazer verdadeiros malabarismos em entrevistas reveladoras é muito, muito difícil para mim. Por que, para ser honesto, eu preferia não dizer nada. Eu acharia melhor deixar a música falar por si mesma e que ela fizesse o que fosse possível. Mas eu tentei isto tantas vezes e nada aconteceu. Tudo acaba desaparecendo. Mas a gravadora, agora, quer que eu faça mais coisas ainda, e simplesmente não sei se posso. Quer dizer, não sou a Britney.

Então por que você está aqui? Por que está fazendo isto?
Isto é cem por cento um chamado, na verdade. Porque, infelizmente, eu não existo em nenhuma outra parte.

[Comentários do jornalista:] Para ele, a importância de ser Morrissey é assegurar que ninguém sabe realmente quem ele é ou o que ele faz (e com quem). O que é, lógico, uma das razões de seu persistente fascínio. No início dos Smiths, ele contou que "Eu não sou o homem que você pensa que eu sou". E, vinte anos depois, o objetivo de despistar atrás destas palavras continua verdadeiro.
Não há ninguém neste planeta que ache que eu seja OK. As pessoas são extremamente a favor ou extremamente contra. Eu não sou o tipo de pessoa que passa desapercebida.

Por que você tem tantos inimigos?
Eu acho que é porque eu sou uma pessoa forte, que não liga para o que os outros dizem. E eu não peço ajuda. Por isso as pessoas não têm piedade de mim.
[O juiz Weeks] Fez um julgamento incorreto, dando direito ao [ex-baterista dos Smiths, Mike] Joyce de receber 1,25 milhão de libras, assegurando que ele tinha 25% dos direitos. Mas não decidiu como Joyce receberia este dinheiro. E, em conseqüência de Joyce nunca ter tido um contrato, nenhuma das partes vai lhe dar dinheiro porque ele nunca esteve sob a proteção de um contrato. Então, a cada vez que eu venho tocar na Inglaterra, Joyce tenta emitir ordens judiciais para me tirar dinheiro. Ele vai continuar isso pelo resto da vida, uma peste para todo o mundo que está na minha cola. Isto o define agora, é o que é a sua vida. Isto lhe permite continuar e ser parte da minha história. Ele se tornou uma farsa completa e só há uma vítima nesta história, que sou eu.

Como você chegou a esta conclusão? Só por que o juiz não gostou de você? Ele disse muito a respeito.
Ele disse aquele tanto, que foi o suficiente [nota: o juiz chamou Morrissey de “isolado, truculento e auto-suficiente”, conforme o Bacana mostrou aqui]. Isto é, um juiz tem direito de não gostar de mim, mas um juiz não tem direito de ignorar os fatos e ignorar o que é óbvio. O juiz não deve partir para o julgamento pessoal. Por que eu posso muito bem ser uma pessoa antipática, mas isto não significa que eu não seja confiável na corte. Obviamente o juiz estava se vingando de todas as coisas que eu sempre disse sobre Thatcher ou sobre a Rainha ou caça às raposas. Porque o juiz é obviamente um lorde e sempre, é lógico, há um lado privado neste tipo de coisa.

Você ainda fala com Johnny Marr?
Nós conversamos no último verão um pouco. Em termos realmente amistosos. Mas é muito, muito difícil por causa do problema judicial, que é um monstro enorme que segue adiante e que é muito detalhado. Mas o legado dos Smiths é pavoroso. Quer dizer, eu acho que é o pior legado de qualquer grupo na história da música. A história toda é tão negra e complicada que estou convencido que ela só vai terminar em... assassinato. E você está falando com o cadáver em potencial (risos)! Estou falando sério. Chegou neste estágio. Quer dizer, quem é que disse Viva Hate?

Você sentiu algum preconceito na Inglaterra por suas origens irlandesas?
Não particularmente. Na escola eu era chamado de Paddy (alcunha dada aos irlandeses), o que não era considerada uma forma amistosa de chamar os outros. Eu não entendo o porquê, já que é uma bela palavra e uma boa coisa para ser. Mas é claro que os ingleses riem de todos e ridicularizam todos. O que é bem divertido às vezes. Mas você, sendo escocês, recebeu alguma carga de racismo aqui?

Só o trivial.
Então não sentiu mesmo o racismo? Nada que machucasse, portanto...

Eu não fui atacado fisicamente. Mas se eu fosse um negro escocês eu não teria tido tanta sorte.
Sim. Mmmmm...

Muito do nacionalismo escocês é devido à política do ressentimento.
Contra a Inglaterra?

Sim. Nos anos 70 se percebeu que certos recursos estavam sendo sugados – o que foi literalmente a verdade no caso do óleo. Você poderia, tão logicamente quanto, desprezar as multinacionais americanas por causa disso.
O que nós fazemos... Mas a Inglaterra também tem sido brutalizada, e é brutalizada.

Então por que as pessoas continuam levando a sério o nacionalismo, se ele é tão problemático? Por que as pessoas querem se sentir orgulhosas, o que quer que a nacionalidade signifique?
Porque é o lugar onde você nasceu, onde vive e onde continua a viver. Onde você construiu sua vida. E é inconveniente sentir vergonha disso. Quer dizer, todos nós gostamos de nos sentir em um lugar razoavelmente decente. E todos nós gostamos de sentir orgulho, se pudermos. Mas então, infelizmente, há a monarquia. Mas talvez não por muito tempo.

Sempre o otimista.
Sempre o sonhador (risos).
Embora eu goste de voltar para a Inglaterra, andar nas ruas e encontrar as pessoas, não imagino um tempo no qual eu volte em definitivo para a Inglaterra numa boa. Eu deixo a decisão para o destino. Eu sempre vou seguir o destino, seja lá o que ele me traga. Há uma frase – tenho 92% de certeza que foi dita pelo escritor Thomas Mann – que diz que você nunca pode voltar para casa. Cada segundo da vida diz respeito ao tempo e à atmosfera presentes. E você acha que o passado é o lugar para o qual você pode retornar, mas não é. Mesmo assim, eles dizem – não é mesmo? – que nunca é tarde demais para se ter uma infância feliz. Mas eu acho que você pode ter isto sem voltar para lugar nenhum. Você pode ter sua infância em outro lugar. Nunca é tarde demais para arrumar todos aqueles pesadelos em sua mente.

Sobre o que é tudo isto, Morrissey? O que faz você seguir adiante?
Bem, eu possivelmente não sou diferente de ninguém (ele ri e depois suspira)! Eu gostaria de não ter rido quando disse aquilo. Mas a vida, esta vida estranha, é simplesmente algo que você tem de atravessar de seu modo para ir a outro lugar. É simplesmente algo que você tem que se deixar levar. E nós simplesmente esperamos que em algum lugar alguma coisa realmente excitante ocorra conosco. A maioria das pessoas procura um romance e isto é o que realmente mantém as pessoas seguindo adiante.

E você não está procurando um romance?
Mmmm.... Err... Bem, não é a coisa que me mantém seguindo adiante, a esperança de ter um. Não. Não sou tão bobo. E eu sinto romance em objetos inanimados (risos)! Como carpetes, lâmpadas...

Você finalmente quer ser amado?
Bem, eu gostaria que gostassem de mim, tanto quanto. Mas eu vou ficar com o amor, se isto for tudo o que me ofertarem. Você tem algum conselho para me dar?

Be yourself, free yourself (“Seja você mesmo, se liberte" – trecho da letra da música “All The Lazy Dykes, do mais recente disco de Morrissey, You Are The Quarry)
(Dá uma risadinha) Eu vou dar uma chance a isto.

Tradução de Fabrício Muller
 

 

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