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12:27 a.m. - 2005-06-23
DVD: Morrissey, Who Put the M in Manchester (com Abonico Smith)
Parabéns pra você

Depois de passar mais de dez anos sem se apresentar em sua cidade-Natal, Morrissey desembarcou em Manchester para uma noite histórica no M.E.N. Arena. O show, que foi uma das últimas performances do guitarrista Alain Whyte com a banda de apoio, foi gravado pelo selo Attack e agora vira DVD. Who Put The ‘M’ In Manchester chega às lojas no início de abril trazendo um cantor muito feliz e com um gostinho especial de vingança. Fabrício Muller e Abonico R. Smith explicam.
 
Moz em ação em Manchester no dia do seu aniversário

Aproveitando o enorme sucesso do álbum You Are The Quarry – resenhado aqui pelo Bacana – o selo Attack, representado no Brasil pela Sony-BMG, lança no mercado no dia 4 de abril o DVD Who Put The ‘M’ In Manchester e o CD Live At Earls Court, gravado nos últimos cinco shows com lotação esgotada em dezembro de 2004 [nas cidades de Londres, Glasgow, Birmingham, Brighton e Dublin]. Os dois lançamentos têm sets diferentes e o novo disco ao vivo de Moz vai apresentar versões de músicas nunca antes executadas ao vivo pelo cantor.

Who Put The ‘M’ In Manchester foi gravado na cidade natal de Morrissey e bem na data de seu aniversário [22 de maio]. Ele já não se apresentava por lá havia mais de dez anos e sua volta triunfal em um enorme e lotado M.E.N. Arena não pode deixar de ter tido um gostinho especial de vingança para o artista. Muitas vezes ele fora vilipendiado em seu país – e em sua cidade natal – por acusações que iam da perda do talento ao racismo puro e simples.

E o DVD realmente apresenta um Morrissey feliz e bastante – mas um pouco cínico, até provocativo. Quem achar que eu estou inventando uma “vingança” inexistente deve comparar este vídeo com Live In Dallas, gravado em 1991, e com Introducing Morrissey, da turnê de Vauxhall And I, em 1995. No primeiro, o cantor estava radiante, se divertindo muito além do que se poderia esperar na turnê de um disco tão sombrio quanto Kill Uncle. No outro, ele estava tão concentrado e sério que parecia em transe. A diferença é flagrante – e olha que nem vou comentar o show dele que assisti em Curitiba, quando Moz parecia enormemente feliz, mas sem nem um pingo de agressividade. A felicidade é tanta que no fundo do palco brilha um enorme letreiro luminoso com o nome do cantor, no melhor estilo instaurado por Elvis Presley.

Tecnicamente, Who Put The ‘M’ In Manchester é perfeito. O som é limpo e nítido; e a banda de apoio ganhou muito com a entrada de Roger Manning, tecladista-que-também-toca-outros-instrumentos-como-trumpete-e-bongô. Também não se pode deixar de mencionar que o DVD ainda conta com a presença do guitarrista Alain Whyte, que pouco depois desta noite em Manchester afastara-se da turnê, por motivos de saúde, dando lugar a Jesse Tobias [que tocou com o Red Hot Chili Peppers no início dos anos 90].

Detalhe interessante, em se tratando de Morrissey, é que muitos fãs tentaram subir no palco. Entretanto, ao contrário dos shows mostrados nos outros vídeos citados acima, nenhum conseguiu realizar seu objetivo no M.E.N. Arena. A segurança, bem montada, só permitiu que alguns mais exaltados dessem apertos de mão no cantor. Este, aliás, continua fazendo os movimentos aparentemente descoordenados de sempre, mas de maneira mais contida.

Ele também fala bastante com a platéia. Ironiza quando o ginásio grita seu nome em uníssono após “Let Me Kiss You” [“Quem? Eu?”, aponta para si próprio, com cara de cínico]. Lá pelas tantas, inclusive, Morrissey se diz uma pessoa “privilegiada” por voltar ao topo das paradas na Grã-Bretanha.

O set do show de Manchester foi baseado nos melhores momentos de You Are The Quarry. “The First Of The Gang To Die” e “Irish Blood English Heart”, ambos colocados estrategicamente no início para incendiar os fãs, ganham mais peso do que as versões de estúdio. Músicas como “The World Is Full Of Crashing Bores”, “How Can Anybody Possibly Know How I Feel” mais os b-sides “Don’t Make Fun Of Daddy’s Voice” e “No One Can Hold a Candle To You” provam que a capacidade hitmaker de Moz é tanta que muita faixa acaba nem sendo lançada como single. “I Have Forgiven Jesus” e “Let Me Kiss You” [com o pequenino fraseado de piano trocado pelo uso de um melancólico trumpete] não deixam de emocionar. “I’m Not Sorry” surpreende. Vem mais percussiva, acústica, groovy e intimista – com Whyte sentado e tocando slide e a participação especial de Rhys Williams no solo de flauta transversal.

Poucos hits do início da carreira solo têm vez no repertório. São apenas cinco: “Hairdresser On Fire”, “Jack The Ripper”, “Such a Little Thing Makes Such a Big Difference”, “I Know It’s Gonna Happen Someday” e “Everyday Is Like Sunday” [a música, que passou muitos anos sem ser incluída nos sets dos shows, aparece aqui antecedida por uma introdução de “Subway Train”, de seus ídolos New York Dolls]. Metade da parte nostálgica é, curiosamente, reservada aos tempos de Smiths. As músicas de sua ex-banda ressurgem em peso – outras cinco, um número muito alto para um show padrão de Moz antes desta turnê. São elas “A Rush And a Push And The Land Is Ours”, “Rubber Ring”, “The Headmaster Ritual”,”Shoplifters Of The World Unite” e “There’s a Light That Never Goes Out”.

O fim, com “Shoplifters...”, já serviria para deixar qualquer um emocionado. Mas cantor e banda saem do palco para no encore justamente presentear o fã com aquela que foi recentemente eleita como a melhor música dos Smiths de todos os tempos. A despedida despedaça os corações. No longo trecho instrumental do fim de “There’s A Light...” o fade é trocado pela saída silenciosa de cada músico. Moz larga o microfone. É seguido pelos guitarristas Alain e Boz Boorer, o baixista Gary Day e o baterista Deano Butterworth. Manning é o último, o que torna o riff do teclado muito triste, quando tocado solitariamente. Então, a festa se transforma em soluço e as luzes se apagam.

 

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