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8:47 p.m. - 2005-06-22
Livros: Matrix e a filosofia e Simpsons e a filosofia, compilado por William Irwin
Sob outros ângulos

Famosas séries do cinema e da televisão, Matrix e Os Simpsons têm algo mais em comum do que a popularidade e a capacidade de arregimentar legiões de fãs: elas levantam as mesmas questões filosóficas que grandes obras da literatura. É o que propõe uma nova coleção lançada pela Editora Madras. Matrix – Bem-Vindo ao Deserto do Real e Os Simpsons e a Filosofia analisam a ficção científica de Neo e o humor corrosivo da família de Springfield sob diversas óticas, como a metafísica, a religiosa, a marxista, a niilista e a existencialista. Quem conta mais é Fabrício Muller.
 
Cena do primeiro filme da trilogia Matrix
Warner

A Editora Madras está lançando no mercado editorial uma série de títulos que comentam obras da cultura popular sob o prisma da... filosofia! Conforme escrito na introdução do livro dedicado ao filme Matrix [Matrix – Bem-Vindo ao Deserto do Real, coletânea de William Irwin, 300 páginas] “ninguém faria objeção se recorrêssemos às obras de Dante e Shakespeare para levantar questões filosóficas. Matrix não pertence à lista dos clássicos ocidentais; no entanto, o filme levanta as mesmas questões filosóficas que as grandes obras da literatura. Se a filosofia só fosse encontrada nos textos de filósofos e só tivesse relevância nas vidas dos professores, seria a disciplina enfadonha e estéril que muita gente pensa, erroneamente. Mas a filosofia existe em toda a parte, é sempre relevante e pode iluminar a vida de todo mundo; como Matrix, ela está ‘em todo lugar’”.

Partindo desta idéia inicial, o livro Matrix – Bem-Vindo ao Deserto do Real [como os demais livros da coleção da Madras, aliás] é uma coletânea de artigos filosóficos, escritos por diversos autores. Eles analisam o famoso filme de ficção científica sob vários aspectos – entre eles o metafísico, o religioso, o marxista, o niilista, o existencialista e o ficcional.

Quem assistiu à trilogia Matrix sabe que acontece com o mundo depois que as máquinas vencem os humanos em uma guerra terrível. Estes últimos, depois disso, têm uma existência virtual: seus corpos vivem estáticos dentro de um líquido semelhante ao amniótico, servindo como fornecedores de energia para o grande computador central – a Matrix. Seus cérebros estão conectados a este mesmo computador, que dá a eles a sensação de uma vida normal... que não existe, porém, fora dos chips da Matrix.

Duas teorias da filosofia clássica são citadas por diversos autores na coletânea: a Primeira Meditação de Descartes – que analisa o que ocorreria se um grande demônio iludisse os seres humanos o tempo todo – e a Teoria da Caverna de Platão – que, entre outras coisas, analisa o comportamento de seres humanos que, vivendo a vida toda em uma caverna, só conseguem olhar a sombra dos objetos e não os objetos em si. As duas teorias, realmente, são muito próximas da história da Matrix – ao que tudo indica, foram utilizadas, inclusive, como uma das bases para o roteiro do filme.

Há análises interessantes presentes no livro. São a comparação entre Neo – o “escolhido” na trilogia para retirar os humanos de sua servidão pelas máquinas – com Buda e Cristo; a análise, sob diversos aspectos e em diversos artigos, da escolha do personagem Cypher – que resolve voltar à ilusão da Matrix e não ficar na feia realidade fora dela; e a escolha de Neo sob o ponto de vista da moral ética de Kant. Matrix é visto, até mesmo, sob o ponto de vista feminista – bastante desfavorável ao longa, aliás.

Springfield marxista
Se Matrix – Bem-Vindo ao Deserto do Real é um prato cheio para as muitas pessoas que adoram filosofar em cima do filme, Os Simpsons e a Filosofia [coletânea de A.J. Skoble, M.T. Coard e William Irwin, 290 páginas], da mesma coleção da Editora Madras e no mesmo formato de artigos independentes, tem um tema um pouco menos árido – a famosa série americana de animação.

As partes mais interessantes do livro são aquelas que analisam cada um dos personagens do seriado – mesmo os secundários – sob o ponto de vista ético, levando em conta teorias de filósofos como Aristóteles e Nietzsche. E evidentemente, como no livro sobre Matrix, este dos Simpsons contém diversas análises de episódios – por exemplo, sob os pontos de vista marxista ou de teoria da comunicação das massas.

Apesar dos dois livros apresentarem diversas passagens áridas, não há a menor dúvida que o lançamento desta coleção é uma bola dentro da Editora Madras. Afinal de contas, ninguém pode mesmo negar que “a filosofia está em todo lugar”.

 

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