|
7:17 p.m. - 2005-06-22
Disco: Low, de David Bowie
Coleção
David Bowie Low (1977) |
| |
 |
Low marca ruptura completa com os
trabalhos feitos por Bowie até o período de isolamento em
Berlim |
 |
Os discos Low, Heroes e Lodger
foram produzidos em Berlim pela parceria do cantor David Bowie com o
grande músico e produtor Brian Eno (entre muitas outras coisas, integrante
fixo da primeira formação de Roxy Music e criador de álbuns sensacionais
em sua carreira solo, como Another Green World e Before and
After Science). Destes três álbuns da chamada "fase alemã" de Bowie
(que foi de 1977 a 1979), o primeiro deles, Low, costumeiramente é
considerado o melhor. Não é para menos: combinando música pop, tecnologia
eletrônica e alguma influência da música erudita de vanguarda, o disco é
brilhante em quase todos os aspectos.
O vinil de Low foi
pensado em termos de dois lados bem distintos: o A é mais pop; o B, mais
experimental. Mas nem tudo é tão simples como parece. No lado pop, graças
às técnicas de gravação utilizadas, a voz e os instrumentos parecem
robotizados, quadrados, esquisitos. As músicas têm uma atmosfera estranha,
sintetizada e meio depressiva – e que acabou influenciando profundamente o
pós-punk de bandas como Joy Division, Cure, Sisters Of Mercy e Bauhaus.
Ele começa com “Speed Of Life”, uma instrumental com um tema tão
simples quanto marcante – graças a pequenos sons eletrônicos aqui e ali,
já se começa a perceber que este não é um disco comum. Depois vem
“Breaking Glass”, que é interessante e tem uma letra estranha: "Querida,
eu tenho quebrado vidros em seu quarto de novo/ Escute/ Não olhe o
carpete, eu fiz algo horrível ali". A próxima, “What In The World”, não
envelheceu muito bem mas o mesmo não se pode dizer da seguinte, “Sound And
Vision”. A letra é etérea e bastante sugestiva ("Vagando na minha solidão,
sobre minha cabeça/ Você não se espanta às vezes/ A respeito de som e
visão?"), a melodia simples, grudenta e dançante. Com as técnicas de
gravação já descritas, esta canção se transformou em um dos maiores
sucessos da carreira de David Bowie – a ponto de, em 1987, ter sido
chamada de Sound + Vision uma grande turnê de revisão da carreira
do cantor, acompanhada do relançamento de toda a sua discografia anterior.
“Always Crashing The Same Car”, a quarta, é interessante, mas um pouco
monótona. Fechando o lado pop vem outra grande canção, “Be My Wife”. Aqui
o tema é inesquecível e marcante, a letra simples e direta ("Às vezes você
se sente tão sozinho/ Às vezes você está perdido/ Eu morei no mundo todo/
Eu deixei cada lugar").
O lado B, experimental, começa com “A New
Career In A New Town”, uma música instrumental com efeitos eletrônicos e
um tema bem simples. O título, ("Uma Nova Carreira em uma Nova Cidade"),
prepara o ouvinte para o que se ouvirá a partir dali: em seu primeiro
disco em Berlim, Bowie começa a criar algo totalmente diferente do que
tinha feito até então. A mudança para valer começa na próxima música,
provavelmente a melhor do disco. Longa, lenta e quase que totalmente
eletrônica e instrumental (há pequenos trechos cantados, mas numa
linguagem incompreensível), “Warsawa” tem belíssimas linhas que vêm e vão,
em efeitos para lá de arrepiantes. A seguinte, “Art Decade”, mantém-se no
mesmo espírito da anterior, para a alegria (e o espanto, por que não?) do
ouvinte. Depois vem “Weeping Wall”, agitada, obsessiva e minimalista, uma
obra-prima diferente da parceria Bowie/Eno. Outra faixa lenta e longa
fecha o disco com chave de ouro. Com uma sucessão de climas e temas
extraordinários, “Subterraneans” é quase do mesmo nível de “Warsawa”.
Em resumo, Low tem um lado A pop que viria a influenciar
decisivamente a música da década seguinte e um lado B experimental que
está entre as coisas mais sofisticadas e belas já feitas por um músico
popular – ao lado de, por exemplo, Before and After Science, disco
solo de Brian Eno, e 100th Window, do Massive Attack. Convenhamos,
não é pouco. Fabrício Muller
Ficha
Técnica
Título: Low Artista: David
Bowie Lançamento: Início de 1977 Gravadora:
Virgin Produção: Tony Visconti Faixas: “Speed Of
Life”, “Breaking Glass”, “What In The World”, “Sound And Vision”, “Always
Crashing In the Same Car”, “Be My Wife”, “A New Career In A New Town”,
“Warsawa”, “Art Decade”, “Weeping Wall”,
“Subterraneans” Curiosidades: Pouco antes de ir morar em Berlim,
Bowie, paranóico por causa do excesso do consumo de cocaína, fez a
saudação nazista para uma multidão em Londres. A controvérsia causada por
este ato absurdo acabou influenciando na sua ida para Alemanha. *** Na
Alemanha, Bowie não só trabalhou com Brian Eno como também passou a morar
com ele. *** 1977 foi um ano agitado para o cantor. Além de Low,
Bowie lançou o disco Heroes; produziu os álbuns The Idiot e
Lust For Life, ambos de Iggy Pop; participou anonimamente como
tecladista na turnê do ex-vocalista dos Stooges; e ainda trabalhou como
ator no filme Just A Gigolo e como narrador no desenho animado
Pedro e o Lobo. *** Low dividiu a crítica na época de seu
lançamento, o que acabou não impedindo sua extraordinária influência na
música pop. *** O primeiro nome do Joy Division era Warsaw, em homenagem à
faixa “Warsawa”. |
previous - next
|