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12:17 a.m. - 2005-06-23
Livros: Hunter Thompson (com Cristiano Viteck)
Pai do jornalismo
gonzo
Hunter S. Thmpson
criou o gonzo, estilo de reportagem no qual o autor do texto se transforma
no personagem principal da notícia. Contudo, a loucura e a
imprevisibilidade do americano foi tanta que até na hora de sua última
história ele pegou todo mundo de surpresa: enquanto conversava ao telefone
com a esposa, ele, que sobrevivera a overdoses no passado, disparou um
tiro contra sua cabeça. Cristiano Viteck conta a história do
escritor que marcou a contracultura americana. Fabrício Muller
analisa os livros de Thompson que recentemente ganharam edição
brasileira. |
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Hunter S Thompson contou a história com um
olhar bastante particular |
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Uma bala disparada contra a própria cabeça. Deve
ter feito barulho à beça. Foi esta a forma que o norte-americano Hunter S.
Thompson, o pai do jornalismo gonzo [“estilo de reportagem baseada na
idéia de William Kaulkner de que a melhor ficção é muito mais verdadeira
que qualquer tipo de jornalismo”], escolheu para dar fim à sua vida
maluca no último dia 20 de fevereiro, aos 67 anos. O jornalista, que ficou
famoso com suas reportagens ácidas e caóticas regadas a álcool e doses
cavalares de drogas, estava em sua casa em Woody Creek, no estado
norte-americano do Colorado. Falava com a esposa ao telefone quando
disparou o tiro. Nos últimos anos, Thompson – que era aficionado por armas
e fez campanha contra a reeleição de W. Bush – trabalhava como
comentarista esportivo para a ESPN.
Nascido em 1937, Thompson
estudou jornalismo na Universidade Columbia, em Nova York. Era fã do
escritor Ernest Hemingway, que em 1961 também se matou com um tiro de
fuzil. Garoto-problema, ele teve de se alistar na Força Aérea
norte-americana para escapar de uma temporada na cadeia. Avesso às normas
rígidas do Exército, onde já atuava como jornalista, no início da década
de 60 ele tornou-se repórter free-lancer e passou uma temporada na
América do Sul, período em que escreveu reportagens principalmente sobre a
Colômbia, Peru e Brasil – onde fixou residência no Rio de Janeiro de 1963,
ficando até poucos meses antes do golpe de 1964. Durante o tempo em que
viveu na Cidade Maravilhosa, Hunter S. Thompson sentiu no ar o clima de
opressão que o Exército já exercia sobre os brasileiros antes mesmo de
tomarem o poder, conforme apontou em reportagem sobre um atentado que as
Forças Armadas promoveram contra uma boate, matando e ferindo vários
civis.
Pé na estrada Até então, o jornalista cobria
algumas pautas incomuns, porém nada extraordinárias. A fama começou a
surgir de verdade em 1966, após a publicação de uma grande reportagem
sobre os Hell’s Angels, gangue de motoqueiros que na época aterrorizava os
Estados Unidos e era sinônimo de orgias, drogas e violência. Doido como
ele só, Thompson fez amizade com os motoqueiros, com quem conviveu na
estrada por cerca de um ano. A reportagem tornou-se o seu primeiro livro:
Hell’s Angels – Medo e Delírio Sobre Duas Rodas, que ganhou edição
nacional no ano passado pela Editora Conrad [leia a resenha
abaixo], quase 40 anos após a sua publicação original.
Apesar
de ter características do new journalism – como a inclusão do
repórter enquanto personagem dos fatos sobre os quais escreve, com um
texto bastante influenciado pela literatura –, o livro Hell’s
Angels... praticamente segue os padrões de uma reportagem
convencional, se comparado com o que Hunter escreveria a partir da segunda
metade da década de 60. Foi nessa época que ele entrou de cabeça no
universo encantado imaginado por Timothy Leary [o guru da ideologia
lisérgica], abusando não apenas dos doces psicodélicos mas de qualquer
elemento químico que desse um nó no cérebro e transformasse a realidade
objetiva em viagens coloridas, degradantes e perigosas. Essas experiêncas
depois eram deliciosamente repassadas ao papel, para o medo dos
conservadores e para o delírio dos malucos da época.
Coquetel
alucinógeno O reconhecimento e a fama de porra-louca incorrigível
chegou mesmo em 1972, com a publicação do livro Fear and Lothing in Las
Vegas, lançado por aqui em 1984 pela Editora Brasiliense sob o título
de Las Vegas na Cabeça e hoje fora de catálogo. Acompanhado do
advogado Oscar Acosta, Thompson transformou o que seria uma matéria comum
sobre uma tradicional corrida de motos de Las Vegas [a Mint 400] em
um registro fantástico e jamais inigualável no qual descortinou a
fragilidade do american way of life.
O que deveria ser uma
simples matéria de 250 palavras transformou-se em um marco da
contracultura, publicado inicialmente pela Rolling Stone – “a única
revista dos Estados Unidos na qual eu poderia ter publicado o livro”,
declarou Thompson. Medo e Delírio em Las Vegas, inclusive, acabou
sendo adaptado para o cinema em 1998, com Johnny Deep no papel principal e
Benício del Toro como Acosta. É óbvio que Medo e Delírio... é
resultado do uso compulsivo de todos os tipos de drogas imagináveis
durante vários dias seguidos. “Só uma porra de um lunático escreveria um
negócio como esse e alegaria ser tudo verdade”, declarou o autor a
respeito de sua obra-prima.
Já o auge da produção estritamente
jornalística de Thompson – ou seja, aqueles textos publicados
originalmente em revistas e jornais – está registrado no livro A Grande
Caçada aos Tubarões, publicado nos Estados Unidos em 1979 e que no
final de 2004 ganhou uma inédita edição brasileira [leia a resenha
abaixo]. A obra é uma coletânea de reportagens selecionadas pelo
próprio autor. O início da decadência do presidente Richard Nixon, a
inesperada chegada de Thompson a um vilarejo dominado por traficantes na
Colômbia, relatos sobre sua iniciação ao LSD, uma entrevista quase
fracassada com o boxeador Muhammad Ali, as viagens chapadas percorrendo os
Estados Unidos em um conversível a 180 km/h, o pânico de cruzar fronteiras
com o cérebro e a bagagem entupida de drogas são alguns dos assuntos
presentes na obra.
À espera de um revival Como
acontece com os homens que viveram à frente do seu tempo, a morte de
Hunter S. Thompson deve precipitar um grande interesse pelas obras e vida
do autor. Uma espécie de revival de um momento maior que na verdade
nem chegou a acontecer.
O pai do jornalismo gonzo não deixou
descendentes na profissão. Muitos tentaram, mas ninguém chegou nem perto.
Faltaram-lhes a mesma coragem, a disposição para o consumo de doses
industriais de substâncias ilícitas, a capacidade de extrair do caos algo
de consistência que não ficasse apenas em pura viagem ou conversa-mole de
um junkie qualquer. Acima de tudo, faltou o estilo para fazer de si
mesmo o que há de principal na notícia.
Foi isso que Thompson fez
em toda a sua vida. Transformou a si mesmo, o jornalista, no foco
principal de suas matérias. Nos últimos anos, muitos afirmavam que ele
havia se tornado escravo do seu passado. Para esses, deu a resposta.
A morte de Mr. Gonzo não poderia jamais ser comum. É claro que
tinha que fazer barulho. É óbvio que tinha de ser chocante, definitivo e a
seu modo. Personagem principal das pautas que cobria, Hunter S. Thompson
também foi protagonista da sua última história. Deu um nó no Cara lá de
cima e decidiu qual a hora de colocar um ponto final em tudo. Gonzo até na
hora de morrer... [CV]
***
Olhar
aguçado
Recentemente a Editora Conrad colocou no mercado
nacional dois livros de Hunter Thompson: Hell’s Angels – Medo e Delírio
Sobre Duas Rodas (279 páginas), sua estréia literária, publicada
originalmente em 1966; e A Grande Caçada ao Tubarões (327 páginas),
coletânea de artigos e reportagens lançada em 1979.
Para escrever
Hell’s Angels... Thompson passou um ano vivendo com o famoso grupo
de motoqueiros baderneiros e fora-da-lei. A descrição que o jornalista faz
deles é fria e objetiva. Por mais que não haja dúvida de que ele se sente
fascinado pelos Hell’s Angels [creio que boa parte das pessoas
“normais” sente o mesmo fascínio pelos motoqueiros, misturado com uma boa
dose de repulsa], eles são mostrados como realmente eram naquele
período: encrenqueiros, irresponsáveis, brigões e, principalmente – o que
não deixa de ser decepcionante para quem quer que tenha alguma ilusão
romântica a respeito dos “Anjos do Inferno” – perdedores. Losers.
Gente ignorante, sem qualificação e sem condições de subir no mercado de
trabalho, que normalmente fazia bicos para sobreviver entre uma fase de
vagabundagem e outra nos tempos da Contracultura.
Hunter S.
Thompson é detalhista na descrição dos motoqueiros fora-da-lei. Os parcos
hábitos de higiene, a vida sexual [e as diversas histórias de
estupro], suas origens [que remontam à Segunda Guerra Mundial],
as motos, o modo de se vestir, nada escapa ao olhar aguçado do jornalista.
E, mesmo nos longos trechos em que o relato é feito em primeira pessoa, o
objetivo evidente é sempre dar novas e importantes informações a respeito
da vida e os hábitos dos Hell’s Angels e não falar de si próprio. Até
quando comenta a surra que levou de um pequeno grupo de motoqueiros – o
que acabou resultando no fim das relações entre o jornalista e os
fora-da-lei –, Thompson parece apenas querer ilustrar dramaticamente a
periculosidade deles e não posar de vítima.
Já A Grande Caçada
aos Tubarões mostra, em muitos dos seus ensaios e reportagens – que
comentam diversos aspectos das agitadas décadas de 60 e 70 [mesmo a
América do Sul e o Brasil particularmente, onde ele viveu, são
contemplados] – o lado beberrão e alucinado de Thompson que acabou
ficando famoso. Por exemplo, a reportagem “O Kentucky Derby é Decadente e
Degenerado” mostra o jornalista e um companheiro, o ilustrador inglês
Ralph Steadman, bebendo desbragadamente em um fim-de-semana no qual seria
disputada uma famosa corrida de cavalos no Kentucky. Outro exemplo é “Medo
e Delírio em Watergate: o Senhor Nixon Descontou seu Cheque”. Nesta o
jornalista escreve sobre sobre o escândalo que derrubou o presidente
americano de maneira agitada e caótica. Mas o Hunter S. Thompson frio e
objetivo do livro Hell’s Angels... também aparece em reportagens
excelentes como “O Hashbury é a Capital dos Hippies, que analisa o início
da explosão hippie em São Francisco, e “Marlon Brando e a Pescaria
de Protesto Indígena”.
Os dois livros são altamente recomendados,
tanto pelo valor jornalístico quanto literário. Além de escrever sempre de
maneira brilhante [mesmo quando Thompson repete a palavra “eu” diversas
vezes na mesma página] tem-se a certeza que o objetivo ali não é falar
dele mesmo, mas dar ao leitor uma idéia mais aprofundada da situação
analisada. Lição que muito jornalista ou blogueiro brasileiro que se diz
influenciado por Thompson não entendeu ou não quis entender. [FM]
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