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12:03 a.m. - 2005-06-23
Livro: Vida de gato, de Clarah Averbuck
Seis vidas
Morando em São Paulo, Camila se vê às voltas com problemas de
dinheiro e as constantes ameaças de despejo por falta de pagamento de
aluguel. Ela também se preocupa com Antônio, o grande amor de sua vida que
surgiu após o não dito a vários homens. Mas ele a rejeita. Camila sofre,
corre atrás, humilha-se. Este o mote de Vida de Gato, segundo
romance de Clarah Averbuck. Fabrício Muller fala sobre a
auto-indulgência da protagonista, criada como uma espécie de alter-ego da
escritora e blogueira. |
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Clarah Averbuck mantém o tom confessional
e os exageros de Camilano novo livro |
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É inegável que Clarah Averbuck escreve de maneira
rápida, fluida e, freqüentemente, interessante – no extinto Cardosonline
ou em blog, ler um texto seu quase sempre prende a atenção, seja
pelo tom confessional, seja pelo lado mais chocante de seus escritos.
Nestes, ela é normalmente a personagem principal e discorre sem qualquer
pudor sobre o uso [muitas vezes abusivo] de drogas e bebida, suas
paranóias, a agitada vida sexual, seus problemas com falta de dinheiro e
desencontros amorosos. Seus escritos – cuja inspiração principal,
confessadamente, são os escritores Charles Bukowski, John Fante e Paulo
Leminski – acabaram se transformando em um fenômeno literário da internet,
o que a acabou levando para a literatura impressa. Vida de Gato
(Editora Planeta, 118 páginas) já é seu segundo romance publicado – o
primeiro fora Máquina de Pinball; também saiu uma coletânea de
textos extraídos de seu blog, chamada Das Coisas Esquecidas Atrás da
Estante.
Vida de Gato é, de novo, escrito em primeira
pessoa pela personagem Camila, alter-ego da escritora. Ela, morando em São
Paulo, vê-se às voltas com problemas de dinheiro, sendo constantemente
ameaçada de despejo do apartamento onde mora [e onde se sente bem]
por falta de pagamento do aluguel. Esta, porém, não é a principal
preocupação de Camila. Acostumada a rejeitar vários homens, ela encontra
em Antônio – que, segundo ela mesma, escreve melhor que ela própria – o
grande amor de sua vida. Mas ele a rejeita e vai atrás de “garotas
medíocres”. Camila sofre, corre atrás dele, humilha-se. No final, como se
fosse um gato, ela – que tinha “morrido” de tanto amar – renasce para as
suas seis vidas restantes.
A grande característica de Vida de
Gato é a excessiva auto-indulgência da autora. Na maioria das vezes,
dá a impressão que jamais passa pela cabeça de Camila a possibilidade
estar errada. Ela não pode pagar aluguel porque é escritora, e
“escritores nunca pagam em dia”. Mesmo quando tem dinheiro, ela não
paga [e depois é a locatária que “não entendia nada”...].
Quando o médico lhe proíbe a bebida alcoólica, sua resposta é “O senhor
me desculpe, mas não posso ficar sem beber. Preciso disso para pensar,
doutor. Não, preciso disso para parar de pensar. (...) É o
seguinte: ou o senhor me arruma uma droga que não me mate ou eu continuo
tomando bolas e morro. Sim, é problema meu, lógico. Mas o senhor não está
aí, tentando dar soluções? Eu já disse o que acho. Ah, vá o senhor tomar
no rabo.”
Ela se acha também mais vivida e experiente que boa
parte da humanidade: “A dor salva do nada. Só ela salva. Os mais velhos
acham que é exagero, que nada sei da vida. Mal sabem eles que vivi mais
que as minhas avós juntas”. Camila acha que Antônio lhe deve
satisfações: “Por que você desapareceu deste jeito? Nem uma porra de um
email, telefonema, nada! Você tem noção do estado em que fiquei?”. A
namorada de Antônio, claro, “é querida e fofa e com cara de burra”.
Quando tudo dá errado na sua vida, Camila tem um rasgo de bom
senso. Quando finalmente tem de sair do apartamento, a moça da imobiliária
lhe pede desculpas pelo incômodo. E é quando Camila pensa consigo mesma:
“Ora, se alguém tinha que se desculpar ali, era eu”. Antes tarde do
que nunca, acabará pensando algum leitor mais fatigado.
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