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12:31 a.m. - 2005-06-23
Livros: Laranja Mecânica, de Anthony Burgess e Catatau, de Paulo Leminski
Novas línguas
No início da década de 60, o britânico Anthony Burgess
antevia um futuro desolador e violento, no qual jovens se dividem entre a
veneração pela música erudita de Beethoven e a violência gratuita e
desenfreada provocada pelas ruas. Tais atos são pontuados por muitas
gírias nasdat, que provocam estranheza aos ouvidos e possuem
expressões de origem russa. Anos depois, Paulo Leminski propõe uma
fantasia histórica da vinda do filósofo Descartes ao Brasil em
Catatau. Marcam esse livro de difícil leitura experimentos
lingüísticos e um certo irracionalismo do autor curitibano. Fabrício
Muller analisa os dois clássicos literários que recentemente ganharam
novas edições nacionais e se assemelham na proposta de fugir do linguajar
convencional. |
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O jovem Alex na versão de Laranja
Mecânica feita por Stanley Kubrick para o cinema |
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- Então, o que é que vai ser, hein?
Éramos eu, ou seja, Alex, e meus três druguis, ou seja,
Pete, Georgie e Tosko, Tosco porque ele era muito tosco, e estávamos no
Lactobar Korova botando nossas rassudoks pra funcionar (...) O
Lactobar Korova era um mesto de leite-com, e possa ser, Ó,
meus irmãos, que tenhais esquecido como eram esses mestos, pois as
coisas mudam tão skorre hoje em dia (...)
É assim que
começa o clássico do escritor inglês Anthony Burgess, Laranja
Mecânica, publicado recentemente no Brasil pela Editora Aleph [200
páginas], com excelente tradução de Fábio Fernandes. A sensação de
estranheza é evidente. Um grande número de palavras como mesto,
rassudoks e leite-com aparecem de supetão, e em praticamente
todas as frases. Tudo faz parte de uma gíria criada pelo autor, chamada
nasdat.
O objetivo original na criação deste linguajar era
este mesmo: dar ao leitor uma enorme sensação de estranheza - Burgess nem
queria que estas palavras esquisitas fossem "traduzidas", mas já nas
primeiras edições apareceram glossários explicativos [a presente edição
não foge a esta regra; no prólogo, Fábio Fernandes explica seu método de
tradução].
Laranja Mecânica conta a história de Alex,
líder de uma pequena gangue juvenil. Ao mesmo tempo em que cultiva hábitos
ultraviolentos – agressões, roubos, estupros –, é fã e profundo conhecedor
de música clássica, principalmente Beethoven. O livro, contado pelo
protagonista em primeira pessoa, divide-se em três partes bem distintas. A
primeira é uma chocante série de descrições de atitudes violentíssimas do
personagem principal e sua gangue. A segunda conta a história de sua
prisão e do assustador método de lavagem cerebral – que começava a ser
testado justamente em Alex – que a justiça criou para desencorajar
facínoras de praticar seus crimes. Na última, ele é solto, depois de
grande pressão da oposição contra o governo no "caso Alex", e volta à sua
vida de ultraviolência. O último capítulo do livro, entretanto, mostra o
personagem principal já levando uma vida mais tranqüila, sem crimes.
Apesar de situado em um futuro impreciso, Laranja Mecânica
reflete uma série de preocupações do autor relacionadas à época em que ele
foi escrito, no início da década de 60. As gangues mostradas no livro têm
relação direta com a delinqüência juvenil de então – era época das brigas
entre mods e rockers. E o método de lavagem cerebral testado
em Alex é reflexo da preocupação de Burgess com o totalitarismo da União
Soviética – não por acaso, o nasdat possui diversas expressões de
origem russa.
Um pouco por causa dessas questões temporais, quem
sabe, o livro não envelheceu muito bem. A história parece meio sem sentido
em muitos trechos, e grande parte do impacto que ele deve ter tido se
perdeu de 1961 para cá. Mas pior do que tudo é o final "feliz", onde Alex
quer mudar de vida, mas sem que o leitor saiba o porquê, já que ele não
parece se arrepender de nada. Bem fez Stanley Kubrick em retirar este
final da sua [genial] versão cinematográfica de Laranja
Mecânica. Não é à toa que o filme é quase sempre considerado superior
ao livro que lhe deu origem.
***
Se a invenção de
uma gíria é um dos aspectos essenciais da obra clássica de Anthony
Burgess, em Catatau, de Paulo Leminski [430 páginas], o
experimentalismo vai bem mais adiante. O livro, considerado a obra máxima
do escritor curitibano, é uma verdadeira tour de force lingüística,
na qual o autor inventa um sem número de palavras, além de utilizar até a
exaustão arcaísmos e termos vindos de outras línguas – notadamente o
latim.
Baseado em uma fantasia histórica que supõe que o filósofo
Descartes,codificador do racionalismo, viera para Recife junto com a
expedição holandesa de Maurício de Nassau, Catatau é de leitura
extremamente difícil – para dizer o mínimo. A impressão que fica é a de
que não há nenhuma frase "usual" em todo o livro. Graças não só aos
experimentos lingüísticos de Leminski como também a um certo
irracionalismo que permeia toda a obra, já que Catatau é contado em
primeira pessoa por Cartésio [nome "de fantasia" para Descartes] e
seus pensamentos/idéias/declarações são freqüentemente desencontrados.
Por tudo isto, sugere-se que a leitura tenha início lá pela página
270 desta edição para lá de caprichada da Travessa dos Editores. Dali até
o final são apresentados diversos textos de diversos autores explicando
Catatau, além de valiosas informações biográficas e de cunho
lingüístico/histórico. Depois disso, o leitor certamente se sentirá mais
seguro para tentar vencer o desafio que é ler o título mais ambicioso do
curitibano Paulo Leminski. |
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