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12:00 a.m. - 2005-06-23
Livro: Cassino Hotel, de André Takeda
Catarse musical
Mel X é uma jovem cantora pop, de futuro aparentemente
promissor e background financeiro sólido vindo do pai, um cantor de
música sertaneja de sucesso. Ela mantém um tórrido romance às escondidas
com o guitarrista de sua banda, o recém-chegado aos trinta anos João
Pedro. Pressionado pelo “sogro”, ele foge para o litoral gaúcho e começa a
se afundar cada vez mais nos conflitos com os fantasmas do passado.
Fabrício Muller escreve sobre Cassino Hotel, novo
livro do escritor André Takeda. |
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Mel X, recém-saída da adolescência e
cantora pop com pai vinda do sertanejo |
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João Pedro é um guitarrista que fez muito sucesso,
nos anos 80, com a banda gaúcha Gol. Depois da dissolução do grupo, passou
a sobreviver como músico acompanhante de vários cantores de quem antes
"falara mal em festas promovidas por socialites que faziam de tudo para
passar de modernas". Quando Cassino Hotel, o segundo romance de
André Takeda (Editora Rocco, 196 páginas), começa, ele é o guitarrista do
conjunto de Mel X – nome artístico da cantora pop Melissa, uma menina
recém-saída da adolescência, filha de um cantor sertanejo de sucesso
(alguém aí pensou em Sandy ou Wanessa Camargo?). O complicador de tudo vem
agora: João Pedro mantem um tórrido caso de amor com Mel X e o pai dela
não gosta nada da história (alguém aí pensou nos pais de Sandy ou Wanessa
Camargo?), principalmente devido ao passado de excessos do guitarrista.
Pressionado pelo pai da cantora para que abandone o romance com
Melissa, João Pedro toma uma decisão radical. Foge de São Paulo, onde
participaria de um show dali a alguns dias, para a praia do Cassino, no
litoral gaúcho – "o mais feio de toda a costa brasileira". E é lá, no
Cassino Hotel, que João Pedro, com enormes dificuldades pessoais, começa a
enfrentar os problemas do passado. Isto por que no hotel estão hospedados
Letícia, a namorada que abandonara quando ela não quis se mudar para São
Paulo com ele; seu ex-melhor amigo Mateus, agora casado com a mesma
Letícia; e, principalmente, o seu pai, com quem o guitarrista havia
perdido totalmente o contato – a família nunca se recuperara totalmente da
perda de Cibele, irmã de João Pedro, quando ambos ainda eram crianças.
Escrito em primeira pessoa, o livro é uma espécie de catarse para
João Pedro – que, sintomaticamente, faz aniversário de trinta anos na
ocasião. Voltando a ter contato com pessoas fundamentais do seu passado, o
guitarrista é obrigado a enfrentar o fato de que sempre preferira escapar
dos problemas a enfrentá-los: por isso a fuga nas drogas e no álcool, os
quais [antes da parada definitiva, aos 27 anos] quase tinham
acabado com sua vida. Passando por avanços e retrocessos, coragens e
covardias, os diferentes estados de espírito de João Pedro são
apresentados para o leitor. Mas, apesar de tanta tensão e insegurança, o
livro termina esperançoso.
Cassino Hotel é uma obra
intensa, profundamente emocional e bem escrita- você a lê praticamente de
um fôlego. Alguns trechos nos quais Takeda fala com o leitor [por
exemplo, quando ele diz lá pelas tantas: "Você é capaz de ler? Você é
capaz de decifrar? Você é capaz de me aceitar? Sem preconceitos, por
favor"] parecem perfeitamente dispensáveis. E parte do Apêndice
2, onde ele escreve que o romance "não seria possível" sem a ajuda de
vários grupos de música pop, está muito mais para texto de de blog
do que para texto impresso – parto do óbvio pressuposto que o livro seria,
sim, possível sem a ajuda das bandas citadas. Entratento, isso em nada
atrapalha o verdadeiro prazer que temos ao ler Cassino Hotel.
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