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11:51 p.m. - 2005-06-22
Livro: Bem-vindo ao clube, de Jonathan Coe
Durante a turbulência
O fim do rock progressivo de longas e pretensiosas canções e
o início do punk com suas músicas de três acordes e três minutos. A
decadência da era trabalhista, que leva o país a uma grande crise
econômica e proporcionará em breve a grande derrota dos sindicatos para o
conservadorismo representado por Margaret Thatcher. É nesta confusa
Inglaterra dos anos 70 que se situa Bem-vindo ao Clube, uma
das melhores obras da recente literatura pop britânica. Fabrício
Muller destrincha o livro de Jonathan Coe. |
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Narrativas diferentes e coerência em todos
os personagens são os destaques do livro de Coe |
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Não é exagero dizer que a década de 70 na
Inglaterra é o personagem principal de Bem-vindo ao Clube, de
Jonathan Coe (Editora Record, 496 páginas). Contando as histórias de
alguns estudantes – e alguns de seus pais – vivendo na cidade de
Birmingham entre os anos de 1973 e 1979, o autor traça um bem-sucedido
painel de uma época.
A Inglaterra mostrada por Coe é um país que
vive o fim de uma era, a trabalhista. Os sindicatos, poderosíssimos na
década anterior, começavam a perder sua influência – prenúncio da derrota
inapelável que viriam a sofrer na era Thatcher. A decadência do
trabalhismo, que levou a Inglaterra a uma forte decadência econômica, é
mostrado principalmente nos problemas vividos pelo sindicato do personagem
Bill Anderton. Enquanto isso o conservadorismo é representado, entre
outros, pelas idéias do insuportável Paul, irmão mais novo do personagem
principal do livro, Ben Trotter – este um rapaz tímido, sensível e bom
aluno.
O fim da era do rock progressivo, de longas e pretensiosas
canções, e o início do punk, com seus três acordes em músicas de
três minutos, não são esquecidos em Bem-vindo ao Clube.
Principalmente em uma passagem particularmente dramática: uma longa e
estranha suíte do personagem Phillip tem execução simplesmente recusada
pela sua banda. Motivo: o baterista e baixista, depois de pouco tempo
tocando aquela música progressiva, começaram a tocar insanamente um tema
punk – no primeiro e único ensaio do grupo.
Os temas
polêmicos dos movimentos pela independência da Irlanda do Norte e do País
de Gales também são mostrados por Jonathan Coe. Enquanto a irmã de Ben
fica perturbada mentalmente após ver seu noivo ser assassinado brutalmente
por uma bomba do IRA [Exército Republicano Irlandês, organização
terrorista e política que luta pelo fim do domínio britânico na Irlanda do
Norte], o próprio Ben é obrigado a ouvir um longo e violento discurso
contra os ingleses feito pelo tio de sua namorada – partidário da
independência do País de Gales.
Mas Bem-vindo ao Clube não
seria tão bom se procurasse se concentrar apenas em mostrar um retrato da
Inglaterra dos anos 70. A verdade é que o livro de Jonathan Coe consegue
prender a atenção do leitor da primeira à última página também por
diversas outras qualidades. O autor não se perde com o grande número de
personagens apresentados: Praticamente todos – principais e secundários –
são interessantes e coerentes; a aparição deles raramente parece forçada.
Coe também apresenta algumas técnicas diferentes de narração durante o
desenrolar da obra [por exemplo: em primeira e terceira pessoas;
narrativas jornalística e epistolar], mas sempre de forma
justificável, além de não dificultar demais o trabalho do leitor.
A verdade é que Bem-vindo ao Clube é um excelente livro,
muito bem escrito, mas com um viés um pouco melancólico. Dá a impressão,
às vezes, que Jonathan Coe parece saudoso da velha Inglaterra. Estou
ansioso, aliás, para ver se esta impressão se confirma em O Círculo
Fechado, lançado recentemente no exterior).Afinal, a continuação de
Bem-vindo ao Clube situa os mesmos personagens no final da década
de 90. |
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