|
11:57 p.m. - 2005-06-22
Resenha de livro: Cinco Marias, de Carpinejar
Marias, marias
Melancólico. Intimista. Esquisito. Sobretudo, belíssimo.
Cinco Marias, o mais recente livro do gaúcho Capinejar é uma
espécie de “diário coletivo” construído a partir de uma fictícia nota de
jornal. Sem títulos ou qualquer ordem cronológica, os poemas compõem um
estranho morto, que pode ser o marido e pai das tais “marias” ou ainda a
biblioteca da casa. Como pista, uma compilação de textos sem a assinatura
d quem os escreveu é encontrada na residência. Fabrício Muller
escreve sobre a obra de seu cultuado xará. |
| |
 |
Carpinejar pegou o título emprestado de
uma brincadeira infantil tradicional |
 |
Considerado pela crítica especializadas um dos
melhores poetas brasileiros da atualidade, o gaúcho Fabrício Carpinejar há
algum tempo vem percorrendo o país para divulgar seu mais recente título,
o livro de poesias Cinco Marias (Bertrand Brasil, 123 páginas).
A obra parte de uma nota de jornal completamente fictícia. Um tal
de Diário do Sul, em sua edição de 31 de março de 2045, narra que em São
Leopoldo, no Rio Grande do Sul, uma mulher enterra o marido, morto de
morte natural, no quintal de sua residência com a ajuda das quatro filhas
[perfazendo, portanto, as cinco Marias do título]. Todas elas
afirmam que não era um ser humano que fora colocado embaixo da terra, mas
sim a biblioteca da casa. Em suas investigações, a polícia encontra um
diário na residência delas no qual, aleatoriamente, mãe e filhas colocavam
novos textos sem assinar. Segundo a nota do tal Diário do Sul, “o delegado
(...) considera estranha a prática de um diário coletivo, o que dificulta
a identificação da verdadeira autora”.
Cinco Marias, o
livro, é este “diário coletivo”. Nele, os poemas não possuem título ou
qualquer espécie de ordem cronológica. Alguns têm relação direta com o
enterro do homem da casa, que elas pensavam ser a biblioteca [“-Mãe, o
que estamos fazendo?/ Vamos enterrar a biblioteca”; “Em lençóis,
carregamos pilhas/ de papéis e encadernações/ Um livro não lido pesava
como um morto./ Arrastamos a mortalha pela sinuosidade da escada/ as
curvas da casa, o pano turvo das folhas.”; “Em duplas, atiramos os livros/
lentamente. As covas se desmanchavam para receber outra forma de
lama.”]. Outros falam com desprezo do morto [“O pai escondeu a
voragem, os indícios,/ o delito. Em segredo,/ havia internado a mãe em sua
clínica./ Não informou os parentes e os amigos. Desejou enterrá-la viva./
Atestou que era louca”; “Meu pai carecia/ de medida ao vinho./ Segurava o
cálice pelas bordas./ Seu suor comprimia/ álcool em minha testa./ Eu
afastava seu beijo,/ aquele beijo.// Não importava a safra,/ poderia ser a
melhor,/ ela azedava em sua vela.”] ou da dificuldade de comunicação
com o mundo masculino como um todo [“Os homens nunca vão
entender”].
A maioria dos poemas de Cinco Marias,
porém, trata de temas sem relação direta com o enterro ou com o homem
enterrado no quintal da casa – e na grande maioria deles não há qualquer
indicação de qual das “cinco Marias” está escrevendo. Eles falam do
cotidiano feminino, de sensações, de neuroses. Alguns têm uma beleza
impressionante e inesperada [“Os mortos envelhecem/ na eternidade./ Não
os invejo./ Tenho dentes para morder.// Diante do prado,/ ardo imensa”;
“Podamos a planta do corpo, da residência./ Reformamos o quarto da
empregada/ em escritório, a dependência em terraço,/ o corredor em sala de
estar./ Não superamos os limites, mudamos as fronteiras de lugar.”; “Estou
de mãos dadas/ com a lonjura./ O portão como um filho/ agarrado nas
pernas./ Deus me deu asas/ para ficar/ parada”; “Desistam de planejar o
desfecho / Não morremos com nobreza./ Toda morte é um vexame./ Não
nascerei de novo,/ a morte é que se renova.”]. O tom, freqüentemente,
é desolado [“Eu preferia ter perdido tudo/ para não ficar reparando/ as
pequenas perdas”] ou de violência represada [“As confidências
ofendem./ O casal esgota cedo a estranheza./ Busca se destruir
perfeitamente./ A traição é uma intimidade/ mais estável que o
casamento.”; “Deveria ter brigado mais,/ respondido às agressões,/
sangrado mais,/ esperneado e puxado os cabelos,/ gritado palavrões e
socado o ar./ No acúmulo da poeira,/ as gavetas trincaram.”]. Há
também momentos estranhamente otimistas [“Ao andar contigo,/ eu ria à
toa,/ a música já tinha/ a nossa respiração./ Como uma cordilheira,/ a
tempestade sobrevoava/ a esponja do verde,/ sem derramar relâmpagos./ Ao
andar contigo,/ eu me invejava”] ou de harmonia simples com a natureza
[“Quem não se delicia/ com o tremor da chuva?/ Quem não se abandona/ ao
vapor veloz da terra?// Não condenar ou absolver,/ utilizar a vida/
somente.”].
A sensação que fica para o leitor ao terminar a
leitura de Cinco Marias é que este é um livro intimista,
melancólico, esquisito e com freqüentes passagens inesperadas. Mas, o que
é mais importante, é um livro belíssimo. Literalmente, de tirar o fôlego.
|
previous - next
|