|
12:08 a.m. - 2005-06-23
Livro: 25 mulheres que estão fazendo a literatura brasileira, compilado por Luiz Ruffato
Todas as mulheres
O que esperar de uma coletânea que reúne autores de
diferentes estilos e lugares e que têm em comum apenas o fato de serem
brasileiras, do sexo feminino e contemporâneas. 25 Mulheres que
Estão Fazendo a Nova Literatura é irregular, embora traga três
contos espetaculares e outros trabalhos um tanto interessantes.
Fabrício Muller aponta os altos e baixos do compêndio organizado
por Luiz Ruffato. |
| |
 |
Tatiana Salem Levy, Adriana Lisboa e
Leticia Wierzchowski assinam os melhores momentos do
livro |
 |
Não se espera, é evidente, qualidade uniforme de
uma coletânea de contos de diferentes escritoras que têm, em comum, apenas
o fato de serem do sexo feminino, brasileiras e contemporâneas. A própria
orelha da capa de 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura
Brasileira, organizada por Luiz Ruffato (Editora Record, 352 páginas),
aponta a irregularidade como uma característica marcante desta coletânea.
Algumas autoras do livro saíram praticamente direto de blogs da
internet para as páginas impressas do livro enquanto que outras, por outro
lado, têm origem mais erudita [algumas, inclusive, com diversos livros
publicados]. Isto, entretanto, acabou não impedindo que textos
despretensiosos alcançassem resultados melhores que outros mais
"literários" e vice-versa. Outro detalhe interessante é a grande
quantidade de contos em que o protagonista não é mulher, o que prova que
grande parte das escritoras presentes no livro querem apenas simplesmente
fazer literatura, fugindo do restritivo rótulo literatura feminina.
Julio Cortázar, utilizando a linguagem do boxe, dizia que se no
romance a vitória deveria ser por pontos, no conto a vitória deveria ser
por nocaute. Utilizando esta famosa figura de linguagem, pode-se dizer
que, dentre os 25 contos presentes no livro, três acabaram resultando em
nocaute arrasador no primeiro assalto: “Desalento”, aterradora história de
Tatiana Salem Levy; as pequenas e poéticas histórias com pouca conexão
entre si de “Caligrafias”, de Adriana Lisboa; e o linguajar extremamente
poético de “O Morro da Chuva e da Burma”, de Leticia Wierzchowski, que
conta a história de uma menina que vive em uma praia semideserta.
Apesar de poucos textos serem realmente extraordinários, é grande
a quantidade de contos muito bons. Em “Flor Roxa”, de Claudia Tajes,
mulher que se apaixona por um ótimo escritor com pouco caráter conclui que
"pior que acreditar em Papai Noel é acreditar em Barbara Cartland".
“D.T.”, de Tércia Montenegro, é uma aterradora história de pai bêbado que
mata a filha. Em “Uma Alegria”, Claudia Lage conta uma tocante história
sobre a descoberta do sexo na velhice. “Um Elefante”, de Állex Leilla, é
uma patética história sobre um amor obsessivo e impossível. Em “Gertrudes
e Seu Homem”, Augusta Faro conta a história de um casal estranhíssimo.
“Considerações Sobre o Tempo”, de Adriana Lunardi, e “Glória”, de Guiomar
de Grammont, têm finais surpreendentes. “A Um Passo”, de Rosa Amanda
Strausz, conta uma estranha história de uma pessoa desmemoriada. Tem o
raivoso “Mãe, o Cacete”, de Ivana Arruda Leite. E, finalmente, “Bondade”,
de Simone Campos [que parece ter saído de um blog] e
“Drinque com Azeitona Dentro”, de Índigo, são despretensiosos porém
profundos.
Para que se comprove a irregularidade de 25
Mulheres... é, claro, necessário citar alguns textos mais fracos – ou,
continuando a analogia de Cortázar, as derrotas no ringue. Os
vanguardistas “Pão Físico”, de Fernanda Benevides de Carvalho, e “Silver
Tape”, de Mara Coradello, são praticamente ilegíveis. “Um Oco e um Vazio”,
de Cíntia Moscovich, é bobo. “Nós, os Excêntricos Idiotas”, de Ana Paula
Maia, tem um viés pretensioso e, pior, preconceituoso contra pessoas
pobres. Por fim, em “Por Acaso” Nilza Rezende conta a história de uma
mulher que não encontra saída para o relacionamento [e o leitor não vê
saída para o conto]. |
previous - next
|