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10:26 p.m. - 2005-08-07
Livros: Trainspotting, de Irvine Welsh

Estava à tôa na vida

Pessoas desocupadas que se dividem entre o álcool, o vício em heroína e pequenos acontecimentos cotidianos. Esta é a galeria de protagonistas de Trainspotting, best-seller que se transformou em filme de grande sucesso sob a direção de Danny Boyle. Agora a obra do escocês Irvine Welsh ganha edição nacional, com tradução competente assinada pelos também “alternativos” Daniel Galera e Daniel Pellizzari. Fabricio Muller fala sobre as diferenças entre livro e longa-metragem.
Cena da versão de Trainspotting para o cinema

Os [bons] tradutores de Trainspotting (Editora Rocco, 351 páginas), Daniel Galera & Daniel Pellizzari, informam, no posfácio, que o título deste romance de Irvine Welsh poderia, literalmente, ser traduzido como "conferindo os trens". Referência: "um passatempo relativamente comum entre os jovens britânicos: passar os dias conferindo se determinados trens passam por uma estação em um horário específico, de acordo com suas tabelas”. Continuam os Daniéis: “em termos mais amplos, o termo trainspotting é usado para qualquer atividade sem sentido prático que implique uma total perda de tempo". Realmente, é difícil imaginar uma atividade tão inútil – e demorada – quanto conferir horários de trens.

Trainspotting foi publicado em 1993 e acabou servindo de base para um filme homônimo de grande sucesso, lançado três anos depois e dirigido por Danny Boyle. O livro conta a história de desocupados que moram em Edimburgo, Escócia. O personagem de maior destaque é Rents, o que tem o maior nível cultural entre todos [tendo, até, iniciado a faculdade], e que sofre com as idas e voltas de seu vício em heroína – o leitor nem é poupado de cruas descrições do seu estado físico quando de crises de abstinência. Spud é outro viciado em heroína, que quase sempre fracassa em relacionamentos com o sexo oposto e sobrevive enganando a Previdência Social e fazendo pequenos roubos – além disso, ele é o mais afável dos personagens do livro. Sick Boy tem grande talento para conquistar mulheres e largou repentinamente o vício quando uma criança, supostamente seu filho, faleceu por falta de cuidados da mãe e dele próprio, ambos chapados de... heroína. Begbie é um psicopata extremamente violento que faz pequenos golpes para sobreviver e, mesmo sem usar heroína, bebe álcool em enormes quantidades – como praticamente todos em Trainspotting, aliás. Mesmo sendo estes quatro as mais importantes personagens do romance, muitas outras aparecem no livro – quase todas desocupadas também.

O livro de Welsh descreve vários pequenos acontecimentos na vida destas pessoas fracassadas – um enterro, uma bebedeira, uma briga, a ida a um jogo de futebol. Basicamente, Trainspotting não tem um tema principal, mas é uma longa sucessão de fatos na vida destes "pé-rapados" sem perspectiva e com medo da aids – o livro foi escrito na época em que nenhum tratamento tinha eficácia contra a doença. E isto não o torna desinteressante, muito pelo contrário.

O livro é dividido em muitos capítulos curtos e a cada novo capítulo o narrador muda: pode ser qualquer das personagens ou mesmo uma narração impessoal em terceira pessoa. E, conforme a bagagem cultural de quem está contando a história, o nível da linguagem varia para cima ou para baixo. Além disso, conforme os tradutores informam no posfácio da edição brasileira, Welsh utiliza inclusive muitas gírias específicas da Escócia, o que acabou dificultando a tradução. No início o leitor pode se atrapalhar com a técnica utilizada, mas logo fica fácil descobrir quem está contando qual história.

Trainspotting é um livro denso, muito bem escrito e com uma excelente caracterização das personagens. E, embora Irvine Welsh não condene explicitamente os desocupados que povoam seu romance, não se percebe grande simpatia do autor por eles. Outro aspecto a ser ressaltado é que o livro tem muito mais nuances que o filme no qual ele foi baseado. Então as personagens "más" não parecem ser assim são tão horríveis como na película de Danny Boyle. E, principalmente, as "boas" não são tão boas assim.

 

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