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10:25 p.m. - 2005-08-07
Livros: 33 contos escolhidos e Rita Ritinha Ritona, de Dalton Trevisan
O retorno do vampiro
Ele não dá entrevistas, não se deixa fotografar, não vai a
feiras lierárias. Mantém-se misterioso e enigmático como muitos de seus
personagens. Aos 80 anos recém-completados, Dalton Trevisan brinda
os leitores com um livro inédito, Rita Ritinha Ritona. De quebra,
seleciona um pouco do melhor de sua obra para a coletânea 33 Contos
Escolhidos. Fabricio Muller analisa os lançamentos do escritor
da Curitiba obscura e povoada pelos tipos que nunca ganharão a luz dos
holofotes. |
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Carreira literária de Dalton é revista por
seleção de contos feita pelo próprio autor |
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Dalton Trevisan Desde sua estréia em Novelas
Nada Exemplares, de 1959, um dos mais importantes escritores do país –
o curitibano Dalton Trevisan – povoa suas histórias com o lado obscuro de
sua cidade natal. A vida das prostitutas, dos boêmios, das mulheres
abandonadas e dos enjeitados é o tema principal de seus contos quase
sempre curtos, poucas vezes passando de dez páginas. Segundo ele, para ter
liberdade de movimento entre as pessoas que servirão de matéria-prima para
suas histórias, Trevisan leva sua vida completamente afastado da mídia.
Não dá entrevistas, nunca vai a feiras literárias, não se deixa
fotografar.
Lançada recentemente pela Editora Record, a compilação
33 Contos Escolhidos (272 páginas) é uma excelente introdução à
obra deste autor importantíssimo. Dispostas em ordem cronológica e
escolhidas pelo próprio Dalton, as histórias do livro mostram uma Curitiba
bastante diferente daquela da propaganda oficial. A capital do Paraná, na
visão do escritor, é a cidade das prostitutas do Passeio Público, dos
maridos adúlteros que voltam para casa bêbados de madrugada, dos casais
que se odeiam, dos jovens viciados em crack.
Sob pena de
cometer alguma injustiça, fica até difícil escolher os melhores contos em
uma coletânea de tão alto nível literário. De todo o modo, entre os pontos
altos indiscutíveis pode-se apontar o arrependimento de Nelsinho, o famoso
"Vampiro de Curitiba" [na verdade, apenas um marido adúltero e
tarado] em “A Noite da Paixão”; a fantástica noite de aventuras dos
boêmios em “Esta Noite Nunca Mais”; a ao mesmo tempo pungente e
angustiante conversa de amigos de “O Quinto Cavalheiro do Apocalipse”; a
triste história do aborto de “O Menino de Natal”; e a irônica e ácida
história de uma professora feminista que se apaixona por um aluno brucutu
em “Capitu Sou Eu”.
Se, por um lado, a concisão é uma
característica comum de todos os 33 “contos escolhidos”, por outro, as
mudanças no estilo do autor à medida em que o tempo foi passando são
evidentes. Os contos iniciais – os mais antigos – são literariamente mais
elaborados apresentando, com freqüência, frases poéticas de efeito
dramático ou irônico [alguns exemplos: "O amor é uma corruíra no jardim
– de repente ela canta e muda toda a paisagem", em “A Faca no Coração”; "Ó
prazeres no leito de tão pouca dura", em “A Doce Inimiga”; "Direto ao
banheiro, que água lavaria a imundície da alma?", em “O Maior Tarado da
Cidade”]. Já os mais recentes possuem estrutura mais simples e
linguajar mais direto.
Outra característica interessante da
evolução de Dalton é na temática. Em seus primeiros contos a Curitiba é
praticamente uma cidade do interior, com suas polaquinhas e seus boêmios
que deixam suas pobres mulheres sozinhas em casa. Já na produção mais
recente aparecem personagens de uma nova cidade: moças modernas e
independentes, dependentes de crack, evangélicos...
E é
neste estilo, quase jornalístico e mostrando as mazelas da vida moderna,
que se pode enquadrar a grande maioria das histórias de Rita Ritinha
Ritona (Editora Record, 125 páginas), o novo lançamento de Dalton
Trevisan.
Alguns dos contos – como “O Gringo” e principalmente
“Maria, Sua Criada”, que conta a história de uma imigrante nordestina
batalhadora – são inesperadamente belos e doces. Muito interessantes
também são o conto que dá título ao livro, no qual uma moça independente
literalmente se anula por causa do noivo conservador; o erótico “O Mestre
e a Aluna”, que mostra o relacionamento sexual intenso e controverso de um
professor com sua pupila; “Filho Ingrato”, onde Dalton Trevisan, com
oitenta anos recém-completados, insinua que os velhos nem sempre são mais
dignos de respeito que os mais novos; e “Adeus, Vampiro”, com Nelsinho, o
"Vampiro de Curitiba", se apresentando totalmente decadente – aqui o autor
revive o estilo literário do início de sua carreira.
Rita
Ritinha Ritona também tem dois poemas: os chocantes e melancólicos “Balada
das Mocinhas do Passeio” e “Amintas 749”. Já outros contos, entretanto,
são secos e frios: histórias tristes e sem esperança de estupros, viciados
ou presidiários, que mais parecem reportagens policiais do que contos de
um grande escritor. Também deslocado no livro é “Duas Normalistas”.
Tirando a pornografia, nada sobra nele.
No todo, Rita Ritinha
Ritona é um lançamento menor dentro da vasta obra de Dalton Trevisan.
O que, obviamente, não quer dizer que ele seja ruim Muito pelo
contrário... |
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