|
3:45 p.m. - 2005-06-22
Coleção: Korn
 |
Korn é um dos títulos mais
influentes e agressivos da história recente do rock |
 |
Se na história do heavy metal o ano de 1970
será sempre lembrado pelo lançamento do primeiro disco do Black Sabbath,
1994 vai ficar registrado como o ano do álbum de estréia do Korn. Os
paralelos entre eles – além de terem sido batizados apenas com os nomes de
suas respectivas bandas – é evidente: ambos são sombrios e agressivos,
representando uma espécie de ruptura com quase tudo o que veio antes,
tanto em termos de temática como, principalmente, de sonoridade.
Além disso, a influência dos dois é decisiva e inquestionável, mas
com uma diferença: se por um lado o Black Sabbath só passou a ser
massivamente influente mesmo quase duas décadas depois de seu primeiro
disco (com o advento do grunge), Korn, o disco, em pouco
tempo passou a ser considerado o marco inicial no movimento que
revitalizou decisivamente o heavy metal, o muitas vezes
incompreendido e subestimado (porém extremamente popular) nü metal.
O Korn nasceu em 1993 em uma cidadezinha da Califórnia chamada
Bakersfield. Veio da dissolução de duas bandas: ArtSex e LAPD. Jonathan
Davis, o vocalista, alcoólatra e depressivo, entre outros empregos chegou
a trabalhar como assistente de legista em um necrotério – e esta
experiência provavelmente influiu na sua visão mórbida de mundo.
Korn é um disco raivoso, violento, amargurado, vingativo.
Em praticamente todas as letras o vocalista despeja suas frustrações e
raivas com uma enorme sinceridade. Os objetos de seu ódio são as drogas
que deixaram-no "cego" na adolescência (“Blind”), alguém que tinha sido
amado (“Need To”), um skinhead (“Clown”), os que o chamaram de
homossexual na juventude (“Faget”), alguém que não o quis e que agora o
quer (“Divine”), o auto-engano (“Lies”). Em “Helmet In The Bush”, Davis
pede desesperadamente a Deus para poder dormir. A letra mais
impressionante é a de “Daddy”, na qual ele descreve os abusos sexuais que
sofrera na infância (ao contrário do que diz a letra, na vida real foi um
vizinho – e não os pais – o abusador; estes, porém, não acreditaram nele).
"Você estuprou/ Eu me sinto sujo/ Machuca/ Como uma criança/ Amarrado/ ‘É
um bom garoto’/ E fode/ Seu próprio filho/ Eu grito/ Ninguém me escuta/
Machuca/ Não muito/ Meu Deus/ Viu você olhar/ Mamãe, por quê?/ Seu próprio
filho".
A guitarra e o baixo são afinados abaixo do tom usual,
resultando em uma sonoridade extremamente sombria e violenta (eu mesmo
achei a banda terrivelmente agressiva e desagradável quando a conheci, com
aquelas notas graves todas). Some-se a isto o punch invejável da
banda, que faz um perfeito contraponto com o vocal e as letras de Jonathan
Davis (cuja maneira de cantar também impressiona, por causa da freqüente
variação de estados de espírito, indo do sussurrado até o grito
desesperado). Outra característica do Korn – embora não tão importante
quanto em outras bandas de nü metal que vieram depois – é o canto
em forma de rap que aparece aqui e ali.
Os destaques do disco são
“Clown” e “Lies”, ambas com hipnóticos continuum de baixo, guitarra
e bateria nos refrões; “Divine”, rápida e agressiva; “Faget”, com seu
impressionante tema de contrabaixo; “Shoots And Ladders”, que começa
magistralmente com gaita de fole (tocada por Jonathan Davis); a hipnótica
“Helmet In The Bush”; e, finalmente, a violentíssima “Daddy”, que inicia
com uma espécie de canto gregoriano.
O visual também era original.
Ao contrário da enorme maioria das bandas de heavy metal, desde o
início o Korn sempre usou roupas esportivas e coloridas, como se fosse uma
banda de rap. Além disso, instrumentos diferentes como a gaita de fole e
até mesmo os dreadlocks de Jonathan Davis eram inusitados para
"metaleiros".
Pronto: afinação baixa, letras desesperadas, um
pouco de rap e hip hop, visual mais descontraído que o comum no heavy
metal, abertura para novas sonoridades... Todas as principais
características do nü metal já estavam presentes no primeiro álbum
do subestimado estilo. Na verdade, Korn, o disco, é uma verdadeira
obra-prima. Fabrício Muller
Ficha técnica
Título: Korn Artista: Korn Data de
lançamento: 11 de outubro de 1994 Gravadora: Immortal/ Epic
(Estados Unidos); Sony (Brasil) Produção: Ross
Robinson Faixas: "Blind", "Ball Tongue", "Need To", "Clown",
"Divine", "Faget", "Shoots And Ladders", "Predictable", "Fake", "Lies",
"Helmet In The Bush" e "Daddy" Curiosidades: A música "Shoots
And Ladders" concorreu em 1997, três anos após o seu lançamento, ao Grammy
de melhor performance de heavy metal. O disco começa com o
vocalista Jonathan Davis perguntando: "Are you ready?" ("vocês estão
prontos?"). Dada a pancadaria que vem a seguir, pode-se dizer que a
pergunta é mais do que bem colocada. Korn não fez grande sucesso de
início, mas após dois anos de turnê com Ozzy Osbourne, Marilyn Manson e
Megadeth 700 mil cópias foram vendidas e o álbum acabou construindo uma
grande e leal base de fãs. A capa mostra uma menina e a sombra de um
adulto chegando, em uma sugestão evidente e tenebrosa de abuso sexual
infantil (tema recorrente em outras capas, clipes e letras da banda).
|
| |
previous - next
|