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3:08 p.m. - 2005-06-22
Rap: discos clássicos da gravadora Death Row
Paraíso gangsta
O que têm em comum Dr Dre, Snoop Doggy Dogg e
2Pac Shakur? Os três nomes não somente deixaram marcas profundas na
história do hip hop na década de 90. Eles também foram os maiores nomes do
elenco da Death Row Records, que está sendo relançada no Brasil com
pacote especial da Trama. Fabrício Muller analisa alguns dos
títulos clássicos da gravadora conhecida por letras que glorificavam a
violência, a maconha e o machismo e cujo dono é um perigoso gângster que
está hoje atrás das grades. |
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Snoop Doggy Dogg, o equivalente
rapper ao bluesman Lightnin' Hopkins e ao sambista Zeca
Pagodinho |
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Na verdade, não é politicamente correto falar bem
da Death Row Records. O dono dela, Suge Knight, é um daqueles gângsteres
de filme e está na cadeia. Além dos delitos que o levaram à prisão, ele é
suspeito, inclusive, de encomendar a morte do rapper Notorious BIG. Alguns
de seus maiores astros, como Snoop Doggy Dogg e o próprio 2pac, foram
acusados por diversos delitos antes e mesmo depois do sucesso. As letras
de grande parte das músicas lançadas pela gravadora glorificavam a
violência, o machismo e o uso da maconha.
Mas é impossível falar a
sério da música popular dos anos 90 sem citar a Death Row Records por
causa da qualidade de seus melhores lançamentos – além das suas enormes
vendagens. Portanto, a notícia mais do que bem vinda é a Trama estar
recolocando no mercado brasileiro os mais importantes títulos da
gravadora.
Começando pelo melhor. The Chronic (1992), de
Dr. Dre, é considerado um dos melhores discos de rap de todos os tempos
(e, na minha modesta opinião, é um dos melhores discos de todos os
tempos). Já seria imortal se apenas tivesse trazido para o showbiz o
grande rapper dos anos 90, Snoop Doggy Dogg, com sua voz suingada e
anasalada. Mas The Chronic é mais que isto.
Grande fã do
funk de George Clinton, Dre criou um disco de um balanço simplesmente
irresistível e criatividade espantosa – é só ouvir alguns temas de flauta
(?!) aqui e ali para saber do que eu estou falando. O melhor é a
maravilhosa seqüência das primeiras oito músicas – mas as faixas 14
(“Stranded On Death Row”) e 16 (“Bitches Ain't Shit”) estão no mesmo nível
daquelas. E ninguém me tira da cabeça que o melhor rap de todos os tempos
é “Nuthin' But a G Thang”, dueto (quase uma conversa) entre Snoop Doggy
Dogg e Dr. Dre.
O segundo melhor título do pacote (seria também o
segundo melhor disco de rap de todos os tempos?) é o primeiro álbum solo
de Snoop Doggy Dogg, Doggystyle (1993), com produção de Dr. Dre.
Como The Chronic, este também é uma festa alucinante de ritmos. Os
maiores destaques são a espetacular “Gin And Juice”, “Tha Shiznit”, a
sombria “Murder Was The Case” (que certamente inspirou os Racionais MCs em
“Estou Ouvindo Alguém Me Chamar”), a divertida “Who I Am (What's My
Name)?” e as hipnóticas “Gz And Hustlas” e “Pump Pump”.
Se alguém
achava que Snoop Doggy Dogg (que aqui eu comparo com Zeca Pagodinho e com
o grande bluesman Lightnin' Hopkins) devesse seu talento a Dr. Dre,
outro disco, Tha Doggfather (1996) era a prova definitiva de que o
rapper podia andar com suas próprias pernas. Com músicas poderosas (“Gold
Rush”, “Vapors”) e outras deliciosas (“Snoop's Upside Ya Head”), Tha
Doggfather é um disco estupendo, mais uma mostra do extraordinário
suingue de Snoop Doggy Dogg.
Se Dr. Dre é o mago dos ritmos e
Snoop Doggy Dogg se destaca pela originalidade do timbre da voz e pelo
balanço, 2Pac Shakur era o sujeito que cantava com mais emoção. Compensava
seu timbre seco com uma grande precisão rítmica e energia . Graças a toda
esta intensidade, ele continua idolatrado por uma multidão de fãs mundo
afora, muitos anos após sua morte trágica.
Ele foi assassinado em
setembro de 1996, em circunstâncias até hoje controversas, poucos meses
depois de ter lançado o maior sucesso da história da Death Row Records, o
álbum duplo (o primeiro da história do rap a conter somente material
inédito) All Eyez On Me, que também está sendo resgatado pela
Trama. É impressionante como a qualidade do álbum se mantém praticamente
intacta por 27 faixas. Alguns entre os muitos pontos altos: as tocantes
“Holla At Me”, “Only God Can Judge Me” e “Picture Me Rollin”; o delicioso
dueto com Snoop Doggy Dogg, “2 Of Americaz Most Wanted”, que é uma das
melhores gravações de todos os tempos no rap; e a maravilhosa “Life Goes
On”.
Makaveli é um apelido que 2Pac adotou para si mesmo em seu
primeiro disco póstumo, Don Killuminatti: The 7th Day Theory,
lançado apenas dois meses após sua morte [Nota do Editor: teorias da
conspiração pululam aqui e ali dizendo que 2Pac não teria morrido e
inventou toda esta história, cheia de pistas e códigos cifradas, para
indicar que está vivo, em algum canto do planeta]. O álbum parece
mesmo um produto mal-acabado, já fica sempre a sensação de estar faltando
algo. Só isto para justificar que Don Killuminatti.... seja tão
inferior a All Eyez On Me, lançado menos de um ano antes. Neste
álbum pos-mortem praticamente só se salvam três faixas: a pungente
“Me And My Girlfriend”, a hipnótica “Hail Mary” e a suingada “Toss It Up”.
O último título a sair por aqui é outro álbum duplo, a coletânea
Death Row Greatest Hits. Apenas uma rápida olhada na relação das
músicas mostra quem era realmente importante no elenco: nada menos de 23
das 33 músicas são cantadas por Dre, Snoop Doggy Dogg ou 2Pac. Apesar de
contar, no primeiro dos dois álbuns, com uma seqüência extraordinária dos
grandes sucessos da gravadora (e a primeira música deste álbum é “Nuthin'
But a G Thang”, mostra de que bem mais gente deve achar esta uma música
especial), no segundo CD o caldo acaba entornando um pouco. Vem uma longa
seqüência de remixes meio sem sentido de faoxas de Dre e Snoop e outras
músicas apenas razoáveis cantados por nomes menos badalados da Death Row,
como Jewell, Jodeci e Danny Boy. Bom para deixar por último na lista de
compras deste pacote, que mostra todas as cartas e limpa a mesa quando
assunto é a importância do rap na década de 90. |
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