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12:32 a.m. - 2005-06-23
Livros: Vernon God Little, de DBC Pierre e Sujeito Oculto, de Manoel Carlos Karam
O som e o silêncio
Vencedor do Booker Prize por este livro, o australiano DBC
Pierre cira mais uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria.
Um adolescente texano é o centro das confusões do impactante Vernon
God Little, cujo brilho é exatamente uma trama confusa mas cheia
de barulho e irracionalismo. Por sua vez, o brasileiro Manoel Carlos Karam
revela como o silêncio e a discrição podem ser os maiores aliados do
trabalho de um assassino profissional. Fabricio Muller comenta
essas duas histórias de extremos. |
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Protagonista de Vernon God Little
se vê em apuros com a justiça texana |
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É difícil não se lembrar da famosa a frase de
William Shakespeare em Macbeth [“a vida é uma história contada por um
idiota, cheia de som e fúria”] quando se lê Vernon God Little,
do australiano – que viveu a maior parte da vida no México – DBC Pierre
(Editora Record, 384 páginas). O romance, ganhador do Booker Prize de
2003, é contado em primeira pessoa pelo personagem principal, Vernon
Gregory Little. Ele é o melhor amigo de Jesus, rapaz de origem hispânica
que certo dia resolve atirar em vários colegas de escola e depois se
suicidar.
Esse é um trauma horroroso para Martirio [pequena e
imaginária cidade no Estado do Texas, Estados Unidos] e o começo de
uma série inacreditável de problemas seriíssimos na vida do adolescente
Vern. Se apenas indícios muito fracos sugeriam que ele fora cúmplice de
Jesus no dia dos crimes, graças ao sensacionalismo da imprensa – e também
à própria incapacidade intelectual do rapaz – foi armado um escândalo de
proporções gigantescas, que acabam por levá-lo à prisão. Vernon é
libertado mas seu processo vai ficando cada vez mais complicado à medida
em que o tempo passa. Antes de ir para a cadeia de novo, ele foge para o
México . E lá seus problemas só aumentam.
No desenrolar da
história, a sordidez das demais personagens parece não ter limites. A mãe
de Vernon [viúva do pai do garoto] é uma pessoa de uma futilidade
inacreditável, que se preocupa mais com o que as vizinhas vão pensar de
sua geladeira nova do que com a terrível sorte que se abateu sobre o
filho. Lally, o namorado dela, é um trambiqueiro em tempo integral que faz
pontas como repórter e é literalmente capaz de qualquer coisa para
aparecer na televisão – inclusive arranjar provas falsas para incriminar
Vernon. As amigas da mãe do garoto são tão fúteis quanto ela. O primeiro
advogado do rapaz é de uma incompetência atroz. Na verdade, raros são
aqueles, em Vernon God Little, com algum resquício de caráter.
Vernon, uma das poucas pessoas que “prestam” no livro, mal consegue
entender o que está acontecendo ao seu redor. Ainda por cima, para
proteger outras pessoas durante o processo, ele omite informações
valiosíssimas e que poderiam deixá-lo em liberdade.
Por ser
contado em primeira pessoa por uma personagem de poucos recursos
intelectuais, a leitura de Vernon God Little é bastante atravancada
em muitos pontos. Exemplo disto é a entrada de diversos personagens na
história totalmente de supetão, sem qualquer apresentação prévia. Este
estilo literário confuso é totalmente coerente com o tipo que Vernon é e a
história, paradoxalmente, ganha muito com isto.
Mesmo que a
maioria das personagens pareça caricatural demais, Vernon God
Little é um livro cínico, ácido, de grande impacto. E altamente
recomendado.
É interessante comparar o livro “cheio de som e de
fúria, contado por um idiota” que é Vernon God Little, com o frio,
racional e cruel Sujeito Oculto, do catarinense radicado em
Curitiba Manoel Carlos Karam (Editora Barcarolla, 140 páginas). Assim como
no longo A Construção, de Franz Kafka, o livro de Karam se resume
na descrição em primeira pessoa, detalhista, obsessiva e racional do modo
de viver da personagem principal. Se no conto do grande escritor tcheco
esta personagem era um animal que vivia embaixo da terra, em Sujeito
Oculto quem descreve o seu dia-a-dia é um assassino profissional.
O personagem de Karam trata o seu "serviço", o tempo todo, como
"trabalho". Para se dar bem na profissão, a sua primeira obsessão é
manter-se sempre oculto das pessoas – nunca olhar nos olhos dos outros,
camuflar-se e passar desapercebido são cuidados que ele se obriga a ter em
todos os momentos. Além disso, ele mora sozinho, não tem amigos nem
conhecidos. Nem ficamos sabendo o seu nome. Ele pratica seu trabalho em
silêncio, oculto, na calada da noite. Jamais tem problemas de consciência
e, durante o desenrolar do livro pelo menos, consegue evitar problemas com
a Justiça.
Se Vernon God Little é pleno de barulho, fúria e
irracionalismo, por outro lado, Sujeito Ocultoé feito de
racionalidade fria e de um silêncio assustador.
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