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7:02 p.m. - 2005-06-22
Matéria: Marlon Brando
Sem o selvagem

O cinema ficou mais triste e pobre depois da divulgação da morte de Marlon Brando, na manhã de 2 de julho de 2004, aos 80 anos, em um hospital de Los Angeles. Representante da clássica escola do Actor’s Studio e construtor de personagens célebres da história da sétima arte, Brando ainda entrou para a história como um dos grandes responsáveis pela consolidação de toda uma cultura músico-comportamental que a partir da década de 50 viria a ser conhecida como rock’n’roll. O Bacana rende suas homenagens, em texto escrito por Fabrício Muller.
 
Marlon Brando no clássico O Selvagem
Reprodução

Considerado por muitos o maior ator da história do cinema, Marlon Brando nasceu em 3 de abril de 1924, na cidade de Omaha, no estado norte-americano de Nebraska. Tanto seu pai quanto sua mãe eram alcoólatras e relapsos na educação dos filhos, o que causou um trauma que Brando, de certa forma, levou pelo resto da vida.

Começou a estudar teatro em 1943, em Nova York. Quatro anos depois, o diretor Elia Kazan lhe convidou para o seu primeiro grande papel, como o rude Stanley Kowalski de Um Bonde Chamado Desejo, clássica obra de Tennessee Williams. Nesta peça, Brando já mostrava seu talento estupendo e seu vestuário em cena, chocante para a época – jeans apertados e camiseta rasgada – foi inspirado em pedreiros que ele via trabalhando nas construções.

Depois de recusar vários convites de Hollywood, Brando finalmente fez a sua estréia no cinema em 1950, com Espíritos Indômitos, de Fred Zinemmann. Em 1951 ele, novamente com Kazan, filmou Uma Rua Chamada Pecado (a versão cinematográfica de Um Bonde Chamado Desejo) e conseguiu sua primeira indicação para o Oscar. Novas indicações vieram por seus filmes subseqüentes: Viva Zapata (também de Kazan) e Júlio César (de Joseph Mankiewicz).

Em 1954, Brando viveu o personagem principal de O Selvagem, de Lazlo Benedek. Ele era um motoqueiro revoltado, vestindo sempre sua jaqueta de couro. O filme, graças principalmente ao ator, foi um verdadeiro marco cultural da chamada “juventude transviada”, influenciando decisivamente os costumes de uma época marcada pela repressão (os ecos deste filme se fazem sentir até mesmo no surgimento do rock and roll).

Também em 1954 ele recebeu seu primeiro Oscar de melhor ator, pelo papel de Terry Malloy de O Sindicato de Ladrões, novamente com a direção de Elia Kazan. Sua fala quase chorando, quando conclui que poderia ter sido grande e que não conseguiu sê-lo, é um momento sempre lembrado entre os mais impressionantes do cinema.

Brando rodou mais alguns filmes e em 1957 recebeu mais uma indicação para o Oscar, por Sayonara, de Joshua Logan. Em 1958, trabalhou em Os Deuses Vencidos, de Edward Dmytryk; em 1960, Vidas em Fuga, de Sydney Lumet. Em 1961 toma A Face Oculta de Stanley Kubrick no meio das filmagens e resolve ele mesmo dirigir o filme – este estranho e soturno western, apesar do sucesso comercial alcançado, foi o único dirigido pelo ator.

Queda e nova ascensão
Os anos 60 representaram uma longa decadência para Marlon Brando: fez muitos filmes irregulares e, no início da década seguinte, já era um veneno de bilheteria tão grande que teve de fazer um teste com Francis Ford Coppola para obter o papel de Vito Corleone em O Poderoso Chefão (lançado em 1972). Neste teste ele alterou a voz e colocou algodões nas bochechas, criando então um tipo inesquecível - o que acabou convencendo os produtores do filme, que não o queriam, a aceitá-lo. Foi a volta do sucesso paraBrando, que recebeu novamente um Oscar por sua atuação. Desta vez, contudo, ele mandou à cerimônia uma atriz fantasiada de índia para receber o prêmio em seu lugar – e ainda a orientou para ler, no lugar do agradecimento, um discurso sobre a situação dos índios americanos.

Em 1973 recebeu nova indicação para o Oscar, por A Última Noite em Paris, de Bernardo Bertolucci. Aqui interpretou o papel de um norte-americano em Paris. Atormentado pelo suicídio da mulher, ele tem um conturbado caso de amor com a personagem vivida por Maria Schneider. De 1979 é Apocalipse Now, também de Francis Ford Coppola (baseado no livro O Coração das Trevas, de Joseph Conrad), onde Brando construiu seu último grande personagem. Ele era o Coronel Walter E. Kurtz, um militar americano que ensandece no Vietnã e torna-se ditador de uma comunidade local.

Nos últimos anos de sua vida Brando passou a cobrar fortunas por personagens que pouco apareciam nos filmes – chegando a concorrer a um Oscar de melhor ator coadjuvante por A Dry White Season, de Euzhan Paulcy, de 1988. Entre suas marcantes participações estão os poucos minutos minutos como Jor-El, pai do Hmem de Aço, no clássico Super-Homem – O Filme, de 1978, com Christopher Reeve no papel do herói que veio de Krypton.

Os anos 90 foram de grande sofrimento pessoal para o ator. Seu filho Christian, filho da primeira mulher de Brando, foi condenado a dez anos de prisão por matar o namorado da meia-irmã Cheyenne, filha da terceira mulher, depois de saber que ele a teria violentado. Cinco anos depois da condenação, Cheyenne se matou. O próprio Brando reconheceu, no julgamento de Christian, que não fora um bom pai. Esta tragédia fez o grande ator passar os últimos anos de sua vida praticamente recluso. Segundo uma biografia não-autorizada a ser publicada proximamente, o ator também estaria falido por causa dos excessos de gastos, e também pelas custas dos advogados, morando em um bangalô e vivendo de uma aposentadoria do Estado.

Fora das convenções
Marlon Brando estudou no Actor’s Studio, escola que segue o método de Stanislavski – tenta fazer com que os atores busquem dentro das próprias experiências soluções para os problemas colocados pelas personagens. Uma professora de teatro, porém, disse que Brando nunca precisou aprender a atuar, pois seu talento era inato. Na mesma linha, Paulo Francis dizia que os outros atores precisavam anos de treino para tentar fazer o que ele fazia naturalmente – só que Brando, mesmo assim, sempre tinha melhores resultados. Sua presença em cena era carismática e hipnotizante. Além disso, ele era mestre em fazer papéis bastante diferentes dele próprio: fez, por exemplo, um mexicano em Viva Zapata!i e um japonês em Casa de Chá do Luar de Agosto.

Era exigente e independente. Costumava não dar bola para convenções sociais. Ficava, inclusive, grandes períodos de tempo sem tomar banho. Foi um dos homens mais bonitos do seu tempo no começo da carreira e, mesmo obeso no final da vida, tinha um enorme charme que atraía as mulheres – casou pelo menos três vezes e teve cerca de oito filhos, com as esposas e com outras mulheres (segundo ele próprio, seu desejo sexual era excessivo). Preocupava-se muito e de maneira constante, também, com causas sociais como o problema indígena. Visitou, inclusive, os índios da Amazônia – e bem antes de Sting.

Descanse em paz, Marlon Brando. O mundo vai ficar mais chato sem você.

 

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