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7:01 p.m. - 2005-06-22
Tradução de entrevistas: Morrissey - 1a. parte
Língua afiada

Depois de sete anos sem lançar um álbum de inéditas, Morrissey voltou a ser falado pela imprensa. Mas o lançamento de You Are The Quarry acabou sendo comprovado que o cantor é, de fato, o ídolo supremo de milhões espalhados por todo o mundo. Moz não só esteve na capa de quase todas as principais revistas especializadas em música pop, como também foi objeto de matéria em jornais e outras publicações de língua inglesa. O Bacana compila aqui uma parte das principais entrevistas concedidas pelo ex-vocalista dos Smiths [p.s.: e tem mais na próxima edição].
 
Entrevista para a Spin rendeu capa e dez páginas internas para Morrissey
Reprodução

Playboy

E qual sua impressão sobre Los Angeles?
Bem, é claro que é exatamente o que todo o mundo diz. É um lugar insano, mas é um lugar bonito. Eu acho que as paisagens são belíssimas. A arquitetura é linda. E as pessoas estão tentando ser bonitas.

Do jeito que você trabalha, as redondezas influenciam a maneira que sua música vai soar? Faria alguma diferença se você estivesse em LA, França ou qualquer outro lugar?
Bem, as pessoas me dizem que isto influenciaria, mas não estou muito certo. Se as redondezas e seu quarto forem calmos, não importa se você estiver em Winnipeg ou Toledo.

Você está falando como alguém que nunca esteve em Toledo
Eu nasci em Toledo.

Toledo, Ohio?
Sim.

Mesmo?
Não, estou brincando... (risos)

Bem, tendo estado em Toledo, você não pode ficar muito tempo lá sem ser influenciado. Eu acho que é um lugar horrível.
É parecido com Kalamazoo?

É realmente parecido com Kalamazoo.
Bem, é uma questão de gosto, porque eu realmente gosto de Kalamazoo.

Você tem escrito músicas o tempo todo ou a maioria das músicas foi feita recentemente?
É “50/50”, mas as melhores músicas foram aquelas feitas recentemente. Há bastante o que dizer, eu acho, por causa da pressão de fazer o disco. Às vezes, muito tempo ocioso não é o melhor para você escrever músicas. Às vezes é melhor estar contra a parede.

Você percebe alguma diferença entre as músicas que foram escritas mais recentemente e aquelas feitas há muito tempo?
Eu percebo, mas quem sabe outras pessoas não. Eu percebo um avanço, mas não sei se isso é por que eu não sou tão jovem como costumava ser - mas quem é tão jovem como costumava ser? Há algo a dizer por estar por aí, digamos, por um certo número de anos. Eu me mataria antes de mencionar a palavra "maturidade".

Uma das novas canções se chama "I'm Not Sorry" ("Eu não me arrependo"). Parece que poderia ser o título de sua autobiografia.
(risos)... Bem, deveria ser?

Eu não sei, e acho que essa é a questão. Foi pensado dessa forma ou não tem nenhuma relação com sua maneira de ver a vida?
É uma grande canção bubblegum.

É bom ver que uma subcultura inteira, a dos latinos emigrados para os EUA, adota sua música de sob um ponto de vista cultural completamente diferente do que acontecia na Inglaterra nos anos 80?
Sim, eu acho que minha música sempre sofreu por ser considerada "alternativa", "independente" e assim por diante. Ela nunca foi isso. Ela sempre foi muito mais ampla. Eu sempre fui preso nesta categoria e a gravadora em que estava na maior parte dos anos 90, a Sire/Reprise, sempre a trabalhou como se ela fosse alternativa/independente, o que ela nunca foi. Ela sempre foi muito mais acessível. Nunca fui alternativo. Alternativo a quê?

Você se preocupa que fazer um álbum solo possa trazer intrusões à sua vida?
Eu espero que sim.

Eu estarei sendo negligente se eu não te der a oportunidade de aniquilar os rumores de uma reconciliação com Johnny Marr e uma reunião dos Smiths.
Eu acabei de fazer o melhor disco da minha carreira. Por que eu estaria pensando nos Smiths? Por quê? Você pode pensar em alguma razão?

Você está orgulhoso do legado da banda, pelo menos?
Estou orgulhoso das músicas e envergonhado de tudo mais. Isto é, os vídeos, as roupas.

Você acha que está feliz ultimamente? Bem, pelo menos mais feliz que há 10 ou 15 anos?
Eu sei que estou mais feliz ultimamente.

Por quê? Porque eu tenho sorte.

De que modo?
(risos)... Eu tenho sorte de estar mais feliz hoje do que eu era naquela época. Trivialidades à parte, eu me sinto bem feliz e estável ultimamente. Para ser honesto, isto é uma coisa que eu nunca pensei que acharia um dia. A vida é cheia de surpresas.



Sunday Times

"A maioria das pessoas não consegue explicar suas vidas, e o porquê de músicos terem que saber fazer isto é um completo mistério".



The Guardian


O que Morrissey sente quando olha no espelho?
(refletindo)... Relutância extrema.

Você precisa fazer música para se sentir feliz?
Bem, sim, por que se você não estiver fazer música o que você é? Quer dizer, o que sou eu, de qualquer maneira? Eu não sei o que eu sou. Eu estive tentando por 30 anos. Eu me sinto indefinido realmente.

[comentários do jornalista sobre as entrevistas de Morrissey:] Às vezes quando eu acho que ele está sendo sério ele diz que está brincando, e vive-versa. Ele contradiz coisas que alegadamente tinham sido ditas em entrevistas anteriores, e argumenta que nunca tinha falado nada daquilo. Ele brinca com as palavras das perguntas ou subitamente me interroga sobre minha vida privada. Mesmo agora ele teima a respeito de coisas que ele tinha dito anos atrás, como quando ele falou à NME que "reggae é vil (vile)", mesmo ele sendo um fã de reggae. "Eu tinha dito que reggae é quente [trocadilho intraduzível com vile e wild, quente em inglês].
Mas amizades não são feitas necessariamente para durar. As pessoas vêm e vão. Você não acha?
Não, Não ainda.
Espere mais algumas poucas semanas.

A respeito de uma frase de “Let Me Kiss You”: "Mas então você abre os olhos e vê alguém que você despreza fisicamente". Você realmente se vê deste jeito ou é apenas sua persona literária, o eterno perdedor que se odeia?
Ah, ok. Você acha então que eu sento e digo para mim mesmo: "Eu vou escrever uma música de Morrissey esta noite, então eu vou pegar meus discos velhos para ver como soa uma música de Morrissey. Não, de jeito nenhum...



Esquire

Eu acho que [You Are The Quarry] é incendiário. Quando você termina um álbum, você acha que ele vai mudar o universo, mas... Agora eu realmente acredito que este é realmente forte.

Você nunca pensou em se aposentar?
Outras pessoas pensaram isto por mim.

Você pensou em fazer alguma outra coisa? Escrever sua autobiografia, por exemplo?
Vai ser uma coisa gigantesca. Tão gigantesca, na verdade, que eu não acho que jamais será impresso, pois quando as provas forem distribuídas eu serei provavelmente assassinado.

Processos não serão suficientes contra você?
Pfff! Eu não acho que as pessoas se incomodem ainda com processos. Assassinato é a única resposta efetiva, eu acho.

Então, como você vai lidar com isto?
Bem, digamos que eu não esteja com muita pressa. Você iria lê-la?

Sim.
Eu vou tentar fazer e me apressar, então.

Você acha que [Tony Blair] é assim tão mau?
Eu acho que ele é pior. Ele é pior que os momentos mais horrendos de Thatcher. Eu não sou bobo. E se eu tiver que olhar aqueles dentes por mais quatro anos... Eu acho que ele é atroz para a Inglaterra e remotamente acreditável. Eu acho que ele é um mentiroso flagrante. Mas, pior que isso, quando você considera quão pouco inteligente Bush é quando você pondera o fato de que Blair timidamente o segue de perto... Quer dizer, o que você pode dizer a respeito de Blair?

Qual foi o último bom filme ao qual você assistiu?
Apenas bons? Você vê, como os padrões caíram ultimamente... "Rocco e seus irmãos", o qual eu não tinha visto por anos e anos e anos. Mas você quer dizer um filme moderno, não é mesmo? Bem, eu lamento, mas basta eu ter um vislumbre distante dos dentes de Jim Carrey que sinto agonia. Eu nunca vou ao cinema; eu não tolero o som.

Em uma canção de You Are The Quarry você canta "Você abre os olhos/ E vê alguém que você fisicamente despreza." É você?
Sim. No contexto daquela canção.

E o que dizer de "A mulher dos meus sonhos, nunca houve uma"? Suas músicas são endereçadas a uma pessoa?
Sim

Você escreve canções de amor, então?
Eu acho que escrevo.

E você tem uma pessoa específica em mente quando escreve uma canção de amor?
Às vezes, sim. O que sei que não te ajuda muito. Mas esta é a sua resposta.

A música "How Could Anybody Possibly Know How I Feel?":.. Isto tem alguma coisa a ver com uma ocasião em que você recebeu um conselho sobre sua carreira dado por Steven Tyler do Aerosmith?
Não, de jeito nenhum. Mas ele me pareceu ser realmente uma ótima pessoa. Ocasionalmente, infelizmente, você fica cara-a-cara com alguém em um aeroporto e as brincadeiras começam... E você odeia a música deles, e você acredita que os despreza por causa da imagem pública deles. E então você vê que eles podem ser muito compreensivos, gentis que, dane-se o resto, estão dando o melhor de si.

Isto é o suficiente?
Não, não é. Música pop deveria ser A-R-T-E, e você não pode simplesmente entrar e tentar fazer o melhor. O que eu quero dizer é que qualquer um pode pegar um violino e fazer seu melhor, mas não deve esperar muitos aplausos simplesmente por que pegou um violino. Quer dizer, você pode imaginar Yehudi Menuhin se dirigindo ao público do Olympia em Paris dizendo: "Desculpem, eu estou fazendo meu melhor"? Eu não penso assim... Pense só, eu não sei sobre o que estou falando, então tenha isso em mente. Você provavelmente vai sair e escrever sobre os Smiths, flores e celibato, de qualquer maneira.



NME

Você teve problemas com a lei?
Ano passado eu fiquei numa cela em Los Angeles, por três horas. Eu fui colocado no processo inteiro de identificação e procura, exame de itens pessoais e assim por diante. Foi angustiante.

"All The Lazy Dykes" é sobre a comunidade lésbica?
M: Não, é sobre uma mulher em um casamento convencional e eu – eu, pessoalmente – estou tentando convencê-la a ir ao nightclub The Palms, que fica no Santa Monica Boulevard.

Ah, então é um lugar real? Sim, é. E eu estou tentando convencê-la a juntar-se com as pessoas com as quais ela realmente deveria estar. E se ela for até lá, permitir-se ser ela mesma e simplesmente deixar-se levar, ela se sentirá viva novamente.

Você já esteve pessoalmente neste nightclub?
Não, não estive.

E o que vem a seguir?
Como, para você?

No mundo de Morrissey. Ou para mim, se você prefere.
Bem, você realmente quer saber disto? Eu estou apenas indo para baixo, na queda da vida. Ou as pessoas vão pegar este álbum e vão realmente gostar dele, e isto será emocionante para mim, ou não vão. E assim é. Mas isto é como está acontecendo agora. O que é espantoso, levando-se em conta que eu estive por aí por cinqüenta anos. Um esplendor tardio. Eu sou uma antiga cotovia cantando.



Spin


Você está consciente do movimento emo? [levantando uma sobrancelha] Não, eu nasci ontem.

E o que você acha de bandas de nü metal, como o Deftones, citando também os Smiths como influência?
Eu acho que certamente é uma tendência moderna expor as emoções, mais do que jamais antes. E se isto é tão amplo que atinge grupos como Deftones ou System Of A Down, todo o mundo está "se expondo", e não digo isto pelo lado sexual. Eu estou falando em termos de expor suas emoções. Eles não necessariamente atingem seus objetivos, mas eles sabem o que querem dizer (sobre isto).

[falando sobre o sucesso e a idade] Nos anos 60 e 70 a música pop na Inglaterra era feita para todos e a lista dos mais vendidos era para todos. Seus pais compravam pop music. Havia pessoas de meia idade entre os mais vendidos, e eles atingiam o número 1. Eu acho que a música [dos Smiths e da minha carreira solo] sempre foi um tanto agressiva, mas eu não acho que eu seja uma pessoa rock and roll. Eu sempre estive mais próximo de pessoas que se consideravam crooners, como Matt Monro (mais conhecido por cantar a música título do filme Moscou Contra 007) e, em um degrau menor, pessoas como Doris Day – pessoas que realmente conseguiam fazer um número emocional. Eu nunca me senti próximo de cantores de rock'n'roll, fora David Johansen, do New York Dolls. Sempre foi a geração mais velha de crooners majestosos que me atraíram.

Você acha que alguns de seus fãs irão lhe permitir ser uma pessoa real?
Eu não acho isso porque a imagem que eles têm em suas mentes é tão fixa. Muitos deles percebem que eu mudo, caminho e envelheço, mas eles não vão me deixar fazer isto sem me criticar severamente.

Por exemplo, você não pode vestir uma camiseta havaiana ou um chapéu de palha.
Eu posso fazer qualquer coisa, mas tenho que estar pronto para os tomates podres.

Como você acha que está envelhecendo?
Bem, é difícil sob um aspecto: como você é fotografado repetidamente, as pessoas estão constantemente comentando como você está. Se você for um motorista de ônibus ou um lenhador, então as pessoas não comentam constantemente sua aparência. Mas se você está sob o olhar público, parece aceitável para as pessoas dizer se você está com uma aparência ótima ou péssima. Eu já li diversas vezes que eu obviamente pinto meu cabelo. O que é bem divertido para mim, já que eu não faço isso desde meus doze anos.
Eu não acho que jamais tenha me apresentado como uma perfeição física ou humana. Se você olhar nas primeiras seções de fotos, eu estava simplesmente saturado com manchas. A dieta que eu tinha naquele tempo consistia apenas em chocolate e batatas fritas. E eu estava completamente emancipado naqueles dias.



Entertainment Weekly


Uma música neste novo CD, "The First Of The Gang To Die", cita sua enorme massa de fãs latinos. Como você explica este fenômeno?
Eu não sei, realmente. Quando isto começou, há mais ou menos 15 anos, eu fiquei absolutamente encantado. E isto continua. Exatamente o porquê eu não sei.

Quanto tempo você vai continuar nisso? Quando você vê Jagger e Bowie ainda na ativa, o que passa pela sua cabeça?
Completo e absoluto horror. Por um instante eu achava que Bowie era o protótipo de uma carreira fantástica. Agora ele é o protótipo do oposto. Eu acho que o público – na Inglaterra, certamente – apaixonou-se por Ziggy Stardust. Mas não tenho certeza se ele se apaixonou por David Bowie.

O que passa pela sua cabeça quando você ouve o público cantar com você as músicas mais depressivas?
Eu me sinto absolutamente inebriado. Porque eu vivo sozinho com estas canções, e elas vieram do extremo absoluto do meu emocional. Quando a multidão canta algo que realmente significa alguma coisa... Para mim é excitante. Não, não é excitante. Não há palavras. É só colocar aquilo para fora. E mesmo se isto é apenas por um momento quando você está com seu público naquela noite, você não está sozinho.



Tradução de Fabricio Muller

 

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