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6:45 p.m. - 2005-06-22
Disco: Zigurate
Preto nada básico

Depois de quase uma década de batalha no underground curitibano, o Zigurate lança seu álbum de estréia. Batizado com o mesmo nome da banda, o disco não é um trabalho de fácil deglutição. Traz arranjos complexos, vocais funcionando como um outro instrumento, versos sensoriais, muita herança das bandas góticas britânicas dos anos 80 e um necessário peso espalhado em algumas faixas. Fabrício Muller conta porque tudo isso ganha mais sentido através de fones de ouvido.
 
Álbum de estréia resume sete anos de experiência do grupo nos porões de Curitiba

Confesso que não gostei muito da minha primeira audição (eu estava no carro) de Zigurate (Clínica Pro Music), álbum de estréia da banda paranaense de mesmo nome. Tudo ali parecia meio fora de lugar: os arranjos esquisitos, a voz um tanto puxada para o "etéreo", as letras para lá de pretensiosas. Tudo estranho e desengonçado.

A verdade é que o álbum (Clínica Pro Music) não de deglutição fácil, daqueles que você ouve enquanto está preparando comida para a tartaruga. Digo isto por que bastou que eu colocasse os fones de ouvido e prestasse mais atenção para que o disco parecesse outro, completamente diferente. Se não ausente de defeitos, definitivamente muito melhor e mais interessante.

Assim acabei percebendo, aos poucos, a grande complexidade dos arranjos, assinados, aliás, pelos próprios membros da banda. O dedilhado do violão em “Adeus”; uma guitarra mais distorcida aqui, outra menos ali; e o teclado psicodélico presente em algumas faixas, são alguns exemplos do grande cuidado na gravação da estréia fonográfica, que chega depois de quase dez anos de resistência do underground curitibano.

Quanto ao estilo, este é baseado em bandas góticas britânicas dos anos 80 como Siouxsie And The Banshees, Cure, Systers Of Mercy e Cocteau Twins – e principalmente esta, até porque a voz de Patricia Bauducko lembra um pouco a de Liz Fraser. Isto, claro, está longe de esgotar a fórmula da banda, que também chega a ser bem pesada em algumas faixas.

São muitos os destaques de Zigurate, o disco, como o tema hipnótico de “Entre o Escuro e o Claro”; a levada gótica de “Pedra”; o belo refrão de “Como Será” (música em compasso 6 x 4); as sensacionais mudanças de clima de “Nada Dura Pra Sempre”; o já citado dedilhado em “Adeus”(que lembra coisas recentes do grupo português Madredeus); o inesperado hardcore depois do início jazzístico de “Velocidade Inconstante”. E a melhor faixa provavelmente seja “Cosmos”, com suas alucinantes alternâncias entre a psicodelia e o heavy metal.

E o fone de ouvido acabou dando sentido a tudo o que eu não tinha apreciado antes. A cada nova audição, fui percebendo como o Zigurate utiliza o vocal quase como se fosse um outro instrumento. Além disso, os versos são antes poéticos do que pretensiosos, muito distantes das frases de efeito de tantos letristas brasileiros contemporâneos – a banda tem no apelo visual e sensorial seu ponto mais forte: "As veias da gente/ Ouro, prata e pingente" (“Nada Dura Para Sempre”); "Portas/ De pura sensação/ Falas/ Da inconsciente razão/ Ondas/ Na minha sala/ Em minha visão" (“Cosmos”); "Escuro/ É o que me sobra ao amanhecer" (“Entre o Escuro e o Claro”); "Está em algum lugar/ O que vem nos visitar/ Ver nos decompor" (“Em Qualquer Lugar”); "Não haverá mais a pressa/ Não terá linhas retas/ Não terão mais as testas" (“Não Terão Mais as Testas”).

 

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