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3:14 p.m. - 2005-06-22
Livros: Lolita Pille e 02neuronio
Vênus em fúria
De um lado, jovem francesa cria personagem inspirada nela
mesma e em sua vida fútil, de trilhardária preocupada apenas em gastar
rios de dinheiro em roupas e artigos de grifes e baladas com grandes doses
de sexo, álcool e drogas. Do outro, jornalistas lançam a terceira
compilação de artigos autobiográficos sobre relacionamentos amorosos e um
monte de coisas banais do cotidiano. Fabrício Muller analisa os
livros Hell – Paris – 75016 e Manual Para Moças em Fúria e
diz o que Lolita Pille tem em comum com o 02
Neurônio. |
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A personagem Hell, pela autora Lolita
Pille: |
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Ela é linda. Ela é riquíssima. Ela sai todas as
noites em bares e boates da moda. Ela exagera no álcool e na cocaína. Ela
troca de parceiro sexual como quem troca de roupa. Ela mesma diz que é uma
putinha, daquelas da pior espécie. O seu nome é Ella. Ou Elle. Mas ela
prefere mesmo ser chamada de Hell (inferno, em inglês).
Hell é a
personagem-título de Hell – Paris – 75016, da francesa Lolita
Pille (tradução de Julio Bandeira, Editora Intrínseca, 207 páginas),
que tinha 18 anos quando o compôs, em 2000 (foi publicado no ano
seguinte). Escrito na primeira pessoa, o livro é quase que totalmente
autobiográfico. Ele descreve o dia a dia de pessoas como ela: milionárias,
que gastam em uma noite o equivalente ao salário de grande parte das
pessoas da classe média, que julgam seus semelhantes apenas e tão somente
pelas grifes que ostentam, que não têm outro objetivo na vida senão se
divertir muito com muito sexo, muita cocaína, muito álcool.
O
livro tem seu valor quando apresenta, sem retoques, a mentalidade do grupo
a que Hell pertence. Arrogantes, sentindo-se sempre superiores ao restante
da humanidade, paranóicos pelo uso excessivo do pó (ou simplesmente pela
falta atenção dos pais), os jovens ricaços não causam praticamente nenhuma
simpatia aos leitores "comuns" (embora possam chocar as pessoas com vida
mais – desculpem o termo – "regrada") e nem fazem a menor questão disso.
Suas vidas são um desfile de marcas famosas de carros, de relógios, de
roupas, de sapatos, tudo misturado com muita fofoca sobre a vida alheia
("mas fulano não está quebrado? Como ele mantém este estilo de vida?") e
comportamento totalmente desregrado.
Se Hell – Paris –
75016 pode encontrar um eco distante em Balzac pelo retrato de um
grupo social, o mesmo não se pode dizer da penetração psicológica das
personagens principais. Hell não se parece muito com alguém de
carne-e-osso. Ela não é muito convincente, por exemplo, quando tenta
mostrar que a vacuidade da sua vida também traz sofrimento – no contexto
do livro, frases como "se os ricos não são felizes é porque a felicidade
não existe" e "a humanidade sofre e eu sofro com ela" parecem mais coisas
de uma adolescente mimada preocupada em dar um estofo existencialista para
a sua história.
Um tanto forçada, também, é a descrição da pessoa
pela qual Hell se apaixona, o ricaço Andrea. Ele tem o objetivo de
desmascarar a hipocrisia e imbecilidade de seu grupo social, mas acaba
tendo o mesmo comportamento daqueles que critica. O romance entre os dois
personagens mal compostos acaba, como não poderia deixar de ser, parecendo
exagerado e forçado – a própria Lolita Pille, em uma entrevista, descreve
este caso de amor como sendo "meio água-com-açúcar".
***
Assim como Hell – Paris – 75016, o terceiro livro das
jornalistas do grupo 02 Neurônio, Jô Hallack, Nina Lemos e Raq
Affonso. Almanaque 02 Neurônio –- Manual Para Moças em Fúria
(Editora Record, 144 páginas), também é autobiográfico e – forçando um
pouco a barra – pode ser visto como um retrato de um certo grupo social. O
livro é apresentado na forma de pequenos artigos (muitos anteriormente
publicados no site delas), de três ou quatro páginas no máximo. O
objetivo delas é fazer rir mas quando se lê o Manual Para Moças em
Fúria de uma sentada o livro acaba funcionando como se fosse um grande
blog – por mais bem escrito e divertido que ele realmente seja.
As
três autoras são solteironas convictas, contrárias à "babaquice" de grande
parte dos casais de classe média. São freqüentadoras assíduas de festas
noturnas (as "baladas"), se acalmam quando fazem compras, estão muitas
vezes às voltas com problemas de dinheiro, não têm paciência com reuniões
de condomínio, querem que seus filhos cresçam vendo gays se beijando. Mas
o que realmente interessa a elas são os pretês (neologismo criado pelas
próprias, que significa “aquele” rapaz que elas estão paquerando). Elas
analisam com profundidade qual deles vale a pena, qual não vale, quando
eles ligam ou não no dia seguinte, qual é o pretê burguês disfarçado, qual
vale R$1,99 e assim por diante.
O maior segredo do 02 Neurônio é a
despretensão e a auto-ironia: elas definitivamente não fazem o papel de
mulheres-sofredoras-vítimas-de-uma-cruel-sociedade-machista. Além disso,
recusam-se terminantemente a se anular para agradar seus companheiros –
conselho muito comum dado por revistas femininas por aí. O tipo de vida
que elas escolheram ter, por outro lado, lhes traz um pouco de melancolia
às vezes. Mas quem realmente pode dizer que esteja totalmente imune a
isso?
Almanaque 02 Neurônio – Manual Para Moças em Fúria é
conscientemente despretensioso, quer divertir e atinge plenamente seus
objetivos, embora o livro às vezes canse um pouco. Isto posto, é preciso
dizer que pelo menos uma crônica do livro tem um valor literário inegável:
Tristezas: Tenho Três. Troco Por Algo do Meu Interesse, na qual Jô
Hallack analisa os classificados de uma publicação carioca chamada Balcão.
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