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6:46 p.m. - 2005-06-22
Matéria: Morrissey na imprensa
Conversando com o
ex-inimigo
Às vésperas do novo
disco, Morrissey faz as pazes com a New Musical Express e aparece
em duas capas do periódico britânico. Depois de ser (injustamente) acusado
de racismo por parte da NME, Moz foi destaque da edição da semana passada.
Em 19 de maio, ele volta à capa, desta vez ao lado da banda escocesa Franz
Ferdinand. E outras publicações também vão na esteira do período de
pré-lançamento do esperadíssimo You Are The Quarry. Fabrício
Muller conta mais sobre isso. |
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Morrissey volta a ser capa da NME depois
de 12 anos sem falar ao periódico |
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Aproveitando o período de pré-lançamento do seu
disco You Are The Quarry várias revistas (entre elas a Mojo, a Time
Out, a I-D e a NME) colocarão Morrissey na capa nos próximos meses. É
interessante como o mancuniano desperta a atenção de revistas voltadas
para públicos diferentes: se a Mojo, por exemplo, é mais voltada para o
rock clássico, a New Musical Express aposta quase sempre nas novidades
como principal destaque de suas edições. [Mas é preciso dizer que nem
sempre foi assim: até há uns cinco anos, quando foi extinta, a Melody
Maker era lançada pela mesma editora da NME, e a divisão de funções era
razoavelmente clara: a primeira ficava com as bandas novas e a segunda com
os artistas mais clássicos – a NME chegou a dar uma capa para Elton John
no início dos anos 90 (?!)].
A história da New Musical Express com
Morrissey é um caso à parte: a revista foi uma das principais divulgadoras
dos Smiths desde os anos 80. A coisa foi tão forte que durante muito tempo
a NME procurou (em vão) a banda que seria "os novos Smiths". E a maior
mostra da importância da banda de Manchester para a revista foi a eleição
da "banda mais influente de todos os tempos", feita há alguns anos –
diferentemente do que seria esperado, os Beatles ficaram em em segundo,
perdendo para a banda de Moz.
Com a carreira solo de Morrissey a
coisa foi muito diferente. Não satisfeita em criticar negativamente a
maioria de seus discos, a NME ainda cismou (sem provas) na primeira metade
dos anos 90, que o cantor era racista. Os principais alvos eram faixas
como “Asian Rut”, “Bengali In Platforms” e “National Front Disco”. Além
disso Morrissey era violentamente criticado por uma certa atração pelo
visual skinhead (presente no clipe de “Our Frank”, por exemplo).
Até atos como carregar a bandeira britânica em shows foram considerados
racistas. O engraçado é que, mais tarde, bandas como Oasis fizeram a mesma
coisa e ninguém deu um pio.
Morrissey nunca respondeu a estas
acusações – a única coisa que disse, mais tarde, foi: "mas por que diabos
eu seria racista?". Aliás, como disse o líder do Oasis, Noel Gallagher, no
documentário The Importance Of Being Morrissey (resenhado no
Bacana # 26 – clique aqui): "mas por que ele
deveria responder a estas afirmações absurdas? Nem havia motivo para
isto!"
Agora a situação mudou de figura: mesmo muito mais
preocupada atualmente em hypar novidades, a NME voltou a afirmar a
importância de Morrissey. E de maneira contundente. A revista tem dado
tanto destaque para o cantor inglês que pequenas notas sobre shows
confirmados ou mesmo cartas de leitores (?!) renderam chamadas na capa de
edições recentes.
Após doze anos de relações cortadas, o cantor
falou novamente com a revista. A primeira das duas capas previstas
Morrissey saiu na semana passada (com ele sozinho), no dia 13 de abril. Na
segunda, em 19 de maio (semana de lançamento mundial de You Are The
Quarry), vem junto com o grande destaque recente do periódico, a banda
escocesa Franz Ferdinand.
Seria um sinal da perenidade de
Morrissey? Afinal, ele, mesmo sem lançar discos há sete anos, continou
lotando seus shows neste meio-tempo...
Reprodução de
trechos da primeira parte da entrevista de Morrissey para a
NME
Como você se sente envelhecendo? “Bem, as
pessoas sempre me perguntam isso como se eu fosse pre-histórico, eu não
sei porquê. Qual a razão? Eu sou um ancião?”
Não, mas você tem
estado por aí há muito tempo. “Assim como você”
[Sobre a campanha da NME no início dos anos 90, que o
acusava de racismo] A situação poderia ter se acalmado se você tivesse
dito alguma coisa? “(Enfaticamente) Não. Realmente não,
porque eu fui tão fortemente atacado. Você realmente não pode confiar
neles para se encontrar, falar e se explicar. Por que então eles vão
falar: ‘bem, nós o encontramos e ele explicou que realmente é racista’.
Eles não vão falar nada agradável a seu respeito se o odeiam tanto.”
Você ficou surpreso quando a NME chamou os Smiths de “maior
show de todos os tempos? “Maior show? Deus, foi só um show! Bem,
claro. Quer dizer, eu não poderia acreditar que a gente pudesse ganhar do
Abba.
[Os Libertines] São ainda mais românticos a respeito da
Inglaterra que você. “Bem, isto é muito difícil de acreditar, mas
eu vou aceitar o que você está dizendo.”
Viver nos EUA sob Bush
é o mesmo que viver na Inglaterra sob Thatcher? “Bem, sob Blair, eu
diria. Eu acho que as pessoas gostavam de Blair no começo mas, no fim,
aqueles dentes... Eu acho que Blair é só um idiota atrapalhado, além de
mentiroso. Bem, mas ele com certeza está condenado. As pessoas não vão
votar nele de novo.”
Quem mais existe por aí para ser
votado? “Não interessa! Popeye, alguém... Mickey Mouse.”
O que você não gosta na vida em Los Angeles? “Bem, eu
sinto falta da televisão britânica. Você tem de ser um pouco abobado ou
desequilibrado para ver qualquer coisa na televisão americana. Está há
anos-luz da realidade.”
Falando de TV, você viu John Lydon em
Eu sou uma celebridade, me tire daqui [reality show só de
famosos]? “Não, mas eu lhe perdoaria qualquer coisa. Ele
poderia aparecer no The Sooty Show e eu o perdoaria.”
Já que
nós não falamos com você nos últimos doze anos, qual sua banda favorita
dos anos 90? “(...) Você já ouviu "Born To Quit"? É do Smoking
Popes. Eu achei este álbum extraordinário. Mas normalmente eu não penso em
ninguém que realmente eu gostasse demais. E você?”
Eu acho que
o Nirvana foi o maior acontecimento. “Eu realmente não sabia muito
a respeito deles até que a morte aumentou o impacto deles. Achava que eles
eram só hippies no começo.”
Kurt Cobain é uma espécie de James
Dean agora. “Só por que ele morreu. A morte é uma fantástica
ferramenta promocional.”
Você costuma ver Courtney
Love? “Sim.”
Como você se dá com
ela? “(risos) Bem, eu não sei se as pessoas se relacionam
com ela. Acho que elas simplesmente têm de ouvi-la e entretê-la um pouco,
o que é um entretenimento em si legal.”
Você gosta dos
Strokes? “Bem, gostava deles antes de terem gravado. Eu os vi
algumas vezes e eles eram realmente, realmente especiais. Mas... Tem
sempre um mas, não é? E tem sempre um final bunda [trocadilho
intraduzível entre but = mas e butt = bunda]. Hmmm... (suspiro)
Eu não sou louco por seu trabalho gráfico. E eu acho que arte gráfica é
tão importante...”
O que você acha do White
Stripes? “Comentário: não.”
O que você achou de Jack
White ter se envolvido em uma briga de bar? “Comentário: não.”
O que você acha de Eminem? “Eu acho que ele é
interessante, ma não gosto da forma da música que ele toca. Será que ele
só foi aceito por ser caucasiano?”
Eu acho que ele mesmo disse
isso “Disse? É muito interessante dizer tantas coisas perturbadoras
e vender 16 milhões de cópias de um álbum. Ele parece ser casca-grossa
[whitrash] transformado em coisa boa, o que é fascinante também. Eu
realmente gosto disso.”
O que te dá mais orgulho? “Você
terá o prazer de ouvir que eu sou orgulhoso de muitas, muitas coisas. Eu
me senti muito orgulhoso quando a Manchester Arena esgotou seus ingressos
em uma hora. Isto foi espantoso. Eu estava assustado, achando que só iria
ter eu lá e mais ninguém. E fiquei muito orgulhoso no início dos anos 90,
quando o Madison Square Guarden esgotou seus ingressos assim [estala os
dedos]. Eram 22 mil ingressos. O que eu sei que para certas pessoas
não é nada, mas para mim foi de tirar o fôlego. Mas o principal é que
tenho orgulho da maioria das músicas. É um catálogo respeitável. Não nego
que há alguns pontos fracos, mas com tudo considerado foi bem bom,
realmente...” [risos].
O que é a coisa mais importante
que um fã já disse para você? “As pessoas sempre dizem para mim:
‘você mudou minha vida’. E a coisa mais comum que elas dizem para mim:
‘quando eu era mais novo, você realmente me ajudou quando da morte do meu
hamster. Ou coisas assim... [risos] E eu sinto rubor desse
orgulho. Porque acho que é realmente alguma coisa ajudar as pessoas nas
suas horas mais difíceis...”
Você deve ter mudado várias vidas
através dos anos. “Para melhor, espero... [risos] Posso ter
destruído umas poucas dezenas neste tempo... Eu não sei.”
É
verdade que você está escrevendo sua autobiografia? “Sim. Vai
trazer à Inglaterra seus verdadeiros alicerces.”
E você está
fazendo o trabalho sozinho? [Gagueja] Sim. Eu realmente não
vou empregar um velho jornalista da Melody Maker para me ajudar a procurar
no dicionário.
Quando vai ser lançada? “Bem logo... Para
algumas pessoas.”
Quanto você gostaria de receber para reformar
os Smiths? “A quantidade que fosse, ninguém ofereceu. E eu disse
que o único jeito que nos traria juntos de novo ao mesmo estúdio seria se
fôssemos todos assassinados e alguém carregasse os corpos para dentro.”
Você falou com Johnny Marr no último verão. Foi uma experiência
prazerosa? “Ótima. Mas acho que ele não tinha vontade de fazer
isto, assim como eu também não. Porque tudo que era necessário ser dito e
feito foi dito e feito. Então qual seria a questão?
Eu
concordo, realmente. “Bem, alguém não concorda?”
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