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8:45 p.m. - 2005-06-22
Tradução de entrevistas: Morrissey - 5a.parte
"Por que todos deveriam seguir as regras do
jogo?"
O Bacana publica a
quinta e última parte das principais entrevistas concedidas por
Morrissey por ocasião do lançamento do álbum You Are The
Quarry. Abaixo você vê o cantor falando para três revistas: a
americana GQ, a sueca Sonic e a francesa Les Inrockuptibles. Entre os
assuntos das conversas estão o trabalho com o produtor Jerry Finn no novo
disco, a vida em Los Angeles, Tony Blair e a guerra e, claro, o fim dos
Smiths. |
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Moz: "quanto maisvelho fico, melhor me
sinto" |
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GQ [EUA]
[Sobre a formação dos
Smiths] Eu não tinha absolutamente mais nada. E também era um
chamado, porque instantaneamente teve sucesso e não requisitou um grande
esforço. Preparação sim, esforço não.
[Sobre o fim dos
Smiths] Era um compromisso, porque para mim foi um enorme
investimento, e então Johnny [Marr, guitarrista e parceiro de Morrissey
nas composições] simplesmente disse: "Acabou-se". E não acho que ele
entendeu o tamanho do investimento que fiz.
[Sobre a volta
dos Smiths] Eu estou cansado de perguntas sobre a volta dos
Smiths, porque só existe uma maneira de responder a uma dada questão e eu
sinto que dei a resposta há 112 anos. Mas as pessoas ainda me perguntam –
e não entendo o porquê.
[Sobre envelhecer] Eu
simplesmente adoro isto. Quanto mais velho fico, melhor me sinto. Eu sou
fascinado por pessoas com 80, 90 anos. Especialmente por aqueles que ainda
estão criando e vivendo de uma maneira interessante.
[Sobre
David Bowie] Ele não é mais a pessoa que era. Ele não é mais
David Bowie de jeito nenhum. Hoje ele dá às pessoas o que ele acha que as
vai fazer felizes, o que faz com que elas bocejem. E, fazendo isto, ela
não é relevante. Ele só foi relevante por acidente.
Sonic [Suécia]
[comentários do
jornalista] (...) Não há nenhum artista que é amado de uma maneira tão
sem reservas por seus fãs, nenhum outro artista que seja tão intimamente
definido pelo ouvinte. Eu não sou um deles. Mas é fácil entendê-los.
A relação de Morrissey com a música pop sempre foi seríssima. Com
13 anos, sempre que os New York Dolls, T.Rex ou David Bowie passavam por
Manchester, ele costumava chegar muito mais cedo do que qualquer outra
pessoa até mesmo imaginasse em chegar, para estar o mais próximo possível
do palco. Tendo chegado ali, ele agarrava o cercado tão firmemente que
"mesmo um guindaste industrial não poderia me mover". Ele se sentava para
assistir a Top Of The Pops toda semana, escrevia quilos de cartas a todas
as publicações que simplesmente não iriam entender nada, construiu seu
próprio reino onde as principais figuras seriam Oscar Wilde, James Dean e
Johnny Thunders. Todo seu enorme amor pela música pop foi canalizada para
sua própria música. Deste modo, o primeiro single dos Smiths, "Hand
In Glove", soa como um ultrajante ataque a um mundo que simplesmente não
vai entender, utilizando a música como sua arma ("Eu vou lutar até a
morte/ Se eles ousarem tocar em um fio de cabelo seu").
Morrissey
nunca deixa de acentuar o fato de que ele é o último outsider. Ele
parece se sentir terrivelmente bem – mas ele não vai, jamais, fazer parte
do mesmo mundo que nós: "Minha posição nunca parece se modificar. Eu
pareço existir em algum planeta solitário, no meu mundo privado. Eu não
sou parte de nada. Eu não pareço ter os mesmos interesses de outros
letristas, eu não invado o território alheio e ninguém invade o meu."
Você está testando seus fãs trabalhando com Jerry
Finn? Não, provavelmente eles não vão ver isto como uma boa idéia.
Mas no fim das contas isto é problema meu. Se eu for tomar constantemente
as idéias alheias em consideração, eu nunca faria mais nada. As pessoas
sempre dizem: "Não, você não pode fazer isto", mas você não pode ouvir o
que as outras pessoas dizem. E você não pode, definitivamente, ouvir seu
próprio público, porque quando você faz isto você simplesmente se torna um
deles. Eu não rezo a Deus para que eles apreciem o que eu faço... Na maior
parte do tempo eles não gostam mesmo. Bem, pelo menos eles fingem que não
gostam. Eles sempre querem parecer tão superiores e intelectuais.
Nada diz melhor "que se estrepe a NME" que um longo solo de
flauta. Você acha que isso soa ridículo? Todos deveriam seguir as
regras do jogo? E uma flauta sempre é progressiva? Alguns diriam que não.
[comentários do jornalista] Quando a imprensa britânica
estava acusando Morrissey mais do que nunca, ele se encheu e se mudou para
os Estados Unidos. E Los Angeles foi aonde ele teve a maior audiência da
sua vida. Em 1992, ele bateu o recorde dos Beatles, esgotando os ingressos
do Hollywood Bowl no menor tempo já registrado. Ele foi, estranhamente,
acolhido pela audiência dos chicanos dos EUA – audiência que adora el
Moz com a mesma intensidade que os pálidos britânicos tinham tido dez
anos antes. Quem sabe eles sejam apenas apaixonados pelos topetes
rockabilly ou quem sabe eles apenas encontraram um cantor pop que
canta sobre chorar sobre o travesseiro da mesma maneira que os cantores de
baladas mexicanas fazem. Mas é provável que o principal é que as letras de
Morrissey sobre ser um outsider são universais.
Quão
bem você se adaptou aos Estados Unidos, realmente? Existem tantas
coisas que são muito importunas e as pessoas geralmente são muito
importunas. Mas a paisagem é fabulosa; eu costumava dar uma volta com meu
Jaguar e aproveitar a linda paisagem. Além disso, eu não tenho que ver uma
única pessoa por milhares de milhas – o que, é claro, é muito prazeroso.
As letras são muito diretas, pelo menos em "America Is Not The
World" Sim, sem nuances, sem ambigüidade nenhuma. Eu não me
importei muito em ser sutil agora. Simplesmente não há tempo para isto. E
os Estados Unidos da América não é o mundo. Se você se opuser a isto você
vai aparecer apenas idiota.
Qual o objetivo em cantar sobre
coisas óbvias? Bem, ao menos você não corre o risco de que eles não
entendam o que você está cantando.
Como nós podemos interpretar
todas as suas referências a "andar ao léu" no álbum? É algo em que você
está engajado? Ah sim. É realmente uma grande parte da minha vida,
um hobby sem par. É algo que eu não posso deixar de fazer,
especialmente quando estou num hotel. Aqui está o título do seu artigo:
"Morrissey, eu amo andar ao léu", em negrito.
Você já cantou,
há vinte anos, que você "gostaria de deixar suas calças para a rainha", em
“Nowhere Fast”, do álbum Meat Is Murder. Mmm... é verdade...
Ela nem soube disso, eu temo.
Os concertos de Morrissey
usualmente tendem a ser revivals, onde a audiência tenta subir no
palco apenas para tocar seu salvador. Não há surpresa que você não queira
dividir esta experiência com stage divers fãs de Linkin
Park. Eu acho que é tempo dos fãs ficarem chocados, será bom para
eles. Pode ser difícil de acreditar, mas a explicação simples do porquê eu
não participava de festivais antes deste ano é que esta é a primeira vez
que me oferecem esta oportunidade. Minha experiência em festivais é
extremamente limitada, eu não tenho idéia do que esperar. É tão mau como
você diz? E este festival sueco... Tem uma boa reputação?
Muitos fãs acham que não devem dividir você com pessoas que
simplesmente não sabem nada sobre você. Não, mas eles podem começar
a aprender. Seria bom ter mais fãs.
Você está tentando
converter pessoas? Sim, eu gostaria, qualquer um é OK. Eu ouvi
tantas histórias estranhas sobre pessoas que eram fanáticas por metal e
então foram do metal para mim. É muito fascinante.
No novo
álbum você canta "os adolescentes que te amam/ Vão acordar/ Bocejar e te
matar". É este o tipo de fãs que você quer? Eu os entendo em parte.
Mas sim, eu os quero, eles são muito críticos e me mantém alerta. Tantas
pessoas me rejeitaram de novo e de novo. E ainda – depois de tanto tempo –
existem tantas pessoas que querem falar comigo. Tudo se move em
círculos... Ao menos quando você tem sorte. Alguma coisa definitivamente
mudou nos últimos cinco anos e provavelmente isto dependeu do quão
horrível a música pop tem sido. "Ídolos pop" têm estado em todos os
lugares e um dia as pessoas ficam cansadas de música que não significa
nada.
Você acha que seus fãs querem que você atraia milhões de
novos ouvintes? Agora eles querem. Porque os anos recentes foram
tão frustrantes para eles quanto para mim. Eu espero e acredito que agora
é tempo para vingança. Não, bem, não vingança... E sim para algo bem mais
sério que vingança.
O que é mais sério que
vingança? Assassinato, ha ha ha! Eu acho que eles me querem
assassinado pela polícia.
[comentários do jornalista]
Ter uma audiência tão extática pode ser algo de uma natureza dúbia.
Morrissey é, é claro, o último fracasso do mercado. Quanto menos fãs ele
tem, o mais difícil é para quem é de fora ser igualmente aficionado – o
número de pessoas que escreve seu nome com um "S" chegou a um nível
criticamente baixo. Sempre há alguém (com um nariz grande) [nota:
referência à letra de “Cemetry Gates”] que sabe mais sobre Morrissey
do que você jamais saberá. Para as pessoas como eu, cuja vida foi salva
por Moz em apenas poucas ocasiões, não se admite camaradagem. Bem, a maior
parte das pessoas nunca salvou qualquer vida, então uma vez em um longo
período já é um bom placar.
Eu nunca me sinto tão sozinho
quanto quando escuto Smiths junto com pessoas que são fãs extremamente
dedicados dos Smiths. Isto é muito interessante de ouvir. Você
gosta desta sensação?
Eu me sinto como se eu não pertencesse
àquelas pessoas que não pertencem a lugar nenhum. Mas o negócio é
que música é uma coisa muito privada. Eu posso escutar música pop boba e
isto tem seu lugar na minha vida. Mas música que é privada é intensamente
privada.
Quando a música se transformou em algo tão importante
na sua vida? Isto começou há muito tempo. Quando criança eu não
tinha nada mais e quando adulto também não. Isto nunca foi realmente
trocado por nada. Todos os meus momentos felizes foram quando eu vi bandas
ao vivo, ou comprando discos.
[comentários do
jornalista] É difícil não falar em justiça Bíblica no fato de que o
mundo está pronto para se atirar aos pés do Morrissey 2004 em um tempo em
que as gravadoras gastaram todo o seu dinheiro em grupos de um só sucesso
e pálidas cópias de coisas que ouvimos muito tempo atrás. Cada novo álbum
de Morrissey, cada show com ingressos esgotados, cada capa de revista
mostrando este homem é uma pequena vitória para todos aqueles que
acreditam que a música pop pode mudar vidas. Mark Simpson, que recusou-se
a ser entrevistado neste artigo dizendo que "Morrissey é um deus
ciumento", escreveu em sua intrigante biografia "Saint Morrissey" que
houve um erro no sistema, uma frágil abertura nos anos 80 que foi
transpassada pelo último fã de música pop, transformando-o no último ídolo
pop. Isto pode soar uma supersimplificação, mas não existe necessidade em
se analisar o mais analisado ícone pop na Terra mais do que isso – o
restante o próprio Morrissey deve explicar em sua autobiografia a ser
publicada.
Você lê livros sobre você? Não! Eu nunca
os leio, mas às vezes chego a ler alguns pequenos trechos. Todos estes
livros foram escritos por pessoas que nunca me encontraram, então o que
eles podem saber?
E neste momento você está ocupado em escrever
sua autobiografia... Ela vai ser longa? Hahaha... Vai ser
vulcânica! Escrever tem sido tão excitante quanto fazer música neste
momento. Há tantas coisas que necessitam ser corrigidas, eu tenho estado
nas mãos da imprensa e tantas coisas absurdas sobre mim têm sido aceitas
como verdade. Esta é a minha vez. Você deve esperar nomes, fotos e
impressões digitais. Tudo deve ser revelado.
Les
Inrockuptibles [França]
Como você se sente a respeito do
fato de que Tony Blair tem dado medalhas aos músicos ingleses? Eu
me lembro do modo como Mick Jagger mudou o mundo, o que ele representou
para uma geração lutando contra as instituições, a polícia, a justiça...
Como ele pode ser condecorado cavalheiro 30 anos depois? David Bowie teve
a dignidade de recusar isto – o que me surpreende, vindo de alguém que
quer ser adorado por todo o mundo. Eu duvido que algum dia a rainha me
convide para tomar chá. No que me concerne, o que me pediram – e eu
aceitei – foi organizar o festival Meltdown. Uma oportunidade de colocar
juntos de novo os últimos três New York Dolls e convidar Sparks, Sacha
Distel, Jane Birkin, Nancy Sinatra, Franz Ferdinand, Ordinary Boys,
Linder, James Maker, Loudon Wainwright III, Buffy Sainte-Marie, Damien
Dempsey, Libertines, o ator Alan Bennett. As outras honras não são para
mim. Eu sou e vou continuar sendo um pária.
Você mora em Los
Angeles. A Inglaterra foi te matando aos poucos? Alguém na
Inglaterra teria me matado, certamente. Além do mais, a Inglaterra que eu
amava tanto, sobre a qual eu cantei tanto, mesmo quando estava decaindo,
começou a desaparecer. Poderia ter sido Gibraltar ou Marrocos, mas foi Los
Angeles, uma cidade pela qual eu não sinto um amor louco. Eu pensei que eu
ficaria lá um ano, de maneira a acalmar as coisas no Inglaterra. Mas já se
passaram seis anos. É incrível como o tempo passa rápido quando você está
adormecido... (risos]
No que você se transformaria, se
estivesse na Inglaterra? Um pária. Eu seria enterrado mais e mais.
Eu tinha crescido com a imprensa musical, formado pelos singles
pop, mas se tornou impossível para mim abrir os jornais ou ligar o rádio.
Em 1992 você subiu ao palco com a bandeira inglesa e foi
imediatamente acusado de racismo. Anos mais tarde, a mesma bandeira se
transformou no emblema do britpop... Se tudo isto não
tivesse sido tão deprimente e sério, poderia ter achado esta situação
irônica. Eu fui vítima de ataques cruéis demais para achar graça disto.
Recusei, naquele tempo, a entrar no debate, por que isto me pareceu
odioso. Porque, anos mais tarde, as pessoas só precisavam mostrar esta
bandeira para ter sucesso imediato nos jornais... Um geração inteira de
bandas sem canções e sem experiência de shows automaticamente virou
hits. Então senti que a máquina ficou louca, que o nível era baixo,
que a música pop tinha perdido suas defesas e estava aceitando qualquer
pessoa.
Você cresceu com vinil. Como você se sente com a
desmaterialização da música? Eu nunca baixei uma canção da
internet. Foi-me oferecido um iPod, e eu não consegui nem abrir a caixa.
Acho isto chato: música merece esforço. Como alguém pode amar um disco que
chega assim tão fácil? Quando eu era garoto, acessar a música que eu amava
era difícil: não estava no rádio nem na TV... Mesmo que a música fosse meu
único amor, era uma luta permanente tê-la entre as mãos. Sem os discos e
seus mistérios, eu jamais seria a pessoa que sou hoje. Eles me moldaram,
cada single que eu tenho é ligado a um sentimento especial. Eu os
tocava por horas, olhando para o diamante aterrissando no disco com
fascinação. Eu ia para o subúrbio de ônibus, e, uma vez nele, olhava as
capas, decorando-as... Eu passava tardes nas lojas de discos olhando os
créditos de cada álbum. Tudo é muito fácil agora: escutar música, criar
música, tornar-se uma estrela... Qualquer criança de 12 anos com um
computador é capaz de criar música – tecnicamente, pelo menos. Programas
como Pop Idol [Nota do editor: o equivalente britânico ao ianque
American Idol e ao brasileiro Fama] têm só um objetivo: humilhar a
música, mostrando-a como uma coisa frívola, inepta, inofensiva.
Se você tivesse ficado na Inglaterra, você teria se tornado
prisioneiro da persona Morrissey? Mesmo em Bangkok eu seria
Morrissey. Eu não posso fazer nada a respeito, eu não atuo. Nunca me senti
prisioneiro de qualquer caricatura, eu me sinto livre. A Califórnia me
permitiu descobrir como é a vida lá fora. Eu me tornei mais expansivo
graças ao sol, mais "físico" também. Na Inglaterra, o clima me força a
ficar sozinho, entre quatro paredes. Enquanto que na Califórnia eu posso
surfar com meu gato... [risos] Por exemplo, eu descobri o prazer de
dirigir. Na Inglaterra, andar sem direção não existe: você tem de andar de
um ponto até outro, deve existir um destino. E não é muito prazeroso
dirigir sob a chuva. Na Califórnia, eu posso sair sem um objetivo, visitar
o México, ficar horas seguindo a costa, passear pelos bairros latinos.
Dirigir transformou-se, para mim, em uma paixão real, eu escuto música
enquanto limpo minha mente todos os dias. No momento, ando em um Jaguar.
Você escuta rádio? Eu não sou capaz disso, porque cada
vez que eu escuto uma música que eu não gosto – o que acontece
freqüentemente – eu tenho de mudar a estação. Seja na vida ou em uma
música, eu não posso me forçar a ter mais sofrimento... [risos] Por
exemplo, o hip hop permanece para mim um completo mistério. Eu
sonho com explicações.
Quando você sente falta da
Inglaterra? Eu gostaria de andar, como quando eu estava em
Manchester ou Londres, mas é uma coisa suspeita para se fazer em LA. Não
se espera encontrar pessoas nas ruas. Eu sinto falta dos pubs,
supermercados, até mesmo do pão; é bem difícil encontrar as comidas
vegetarianas que eu gosto tanto. Graças a Deus, eu moro perto de uma
livraria, Book Soup, onde eu posso sentir o cheiro gostoso da cultura.
Exceto por isto, eu realmente não saio. Não conheço meus vizinhos
[Johnny Depp por exemplo]. Não posso entrar em conversas simples
sobre chuva ou tempo bom. As coisas não mudaram: sempre me sinto sozinho,
isolado. Até mesmo me sinto mais assim com 44 anos do que quando eu tinha
20 ou 30. Aprendi a cuidar de mim, a apreciar minha própria companhia.
Entendi que não tem assim tanta gente interessante aí fora, então eu
prefiro ficar em casa, comigo... [risos]... Eu sou meu melhor
amigo. Eu vou para cama comigo, eu acordo comigo, eu e eu mesmo [a
quase intraduzível expressão me and myself] nunca vamos nos
divorciar e temos bons momentos juntos. Tenho sorte. Eu,
espiritualmente, odeio tudo o que me coloca longe de mim mesmo, do que eu
sempre senti. Mas eu tento ser um artista. Poderia, sem dúvida,
simplificar minha vida, mas eu tento ser um artista. E ser um não é um
trabalho de tempo parcial: eu tenho de ser um artista 24 horas por dia.
Sacrifiquei tudo por isto: prazer, amor... Minha vida é só um ritual de
sacrifício: eu vivo no fogo... [risos]
Sim, mas você
mantém uma linha direita, muito razoável. Você nunca deseja ter sexo,
drogas e álcool sem limites? Eu gostaria às vezes de ficar louco,
sair de mim mesmo. Mas tenho muitos princípios, sou obcecado com minha
integridade, minhas reações... Nunca achei muito elegante cair no chão
vomitando... Cuido da minha saúde. Em "I'm Not Sorry" eu digo: "Tem um
homem selvagem na minha cabeça". Eu entendo este homem selvagem. Mas,
irremediavelmente, eu vou para cama cedo todos os dias sem nenhuma
história. Esta é a minha danação.
Totalmente
sozinho? Sou mortalmente chato. Eu nunca precisei de sexo e hoje
ainda menos do que quando tinha 20 anos. Não sei que tipo de brincadeira é
esta. Na minha idade... Quem sabe isto me venha mais tarde, quando estiver
enrugado e acabado, mas eu tenho de tentar isto. E não tenho de esconder
nada: não sou um cara que esconde uma vida sexual secreta. Ela não existe,
é tudo. Tampouco não recebo qualquer proposta.
Você nunca
mencionou a homossexualidade mais claramente – especialmente as lésbicas –
do que em “All The Lazy Dykes”... Quem sabe isto seja porque eu
seja lésbica... Esta música é um hino para as lésbicas que não sabem que o
são, um chamado a todas as mulheres presas em seus casamentos, em seus
hábitos. Digo a elas para ir ao Palms, um clube lésbico em Santa Monica
Boulevard, um lugar bacana, onde elas poderiam ser felizes. Quando eu era
mais jovem em Manchester, havia também clubes gays, como Berlin ou
Legends, lugares extremamente glam-rock... Nunca me preocupei em ir
lá. Meu negócio são os concertos...
Quando você era mais novo,
você era o tipo do rapaz que ficava próximo da pista de danças, fazendo
piadas cruéis sobre quem estava dançando, mas secretamente querendo ser um
deles? Sim, eu era, morria de ciúmes. Queria desesperadamente
dançar, ser como os outros. Mas não podia me liberar, era consciente
demais da minha falta de jeito. Eu me olhava enquanto dançava. Deveria ter
bebido para esquecer tudo isto. Mas estaria gordo hoje.
Como os
Smiths funcionavam? Durante as turnês, os outros procuravam por mulheres
ou drogas? Pode parecer estranho para você, mas eu, honestamente,
nunca vi drogas em camarins. Soube de tudo isto pela imprensa. O que é bem
desagradável para mim. Eles poderiam ter oferecido para mim, seria legal
juntar-se ao clube... [risos] Eles deviam pensar que eu era frágil
demais para isto, ficavam atentos para não falar nada na minha frente...
Bem, eu estava ocupado, queimando minhas asas. Eu tinha de ficar sóbrio e
consciente, para manter a unidade dos Smiths, para defender orgulhosamente
nossa diferença.
Você deu tudo para criar e manter os Smiths.
Esta banda era a sua última chance? Exato. Por isto eu fiquei
obcecado com os Smiths. Porque eu abandonei tudo por causa disto, dei tudo
o que eu tinha, toda minha energia e alma. Era isto ou nada.
[Sobre a longa época sem contrato com gravadoras entre o
lançamento de Maladjusted e You Are The Quarry] Você
achou que era o fim? Durante aqueles sete horríveis anos que se
seguiram a Maladjusted, eu sempre mantive um pouco de esperança.
Passei por situações humilhantes durante este tempo. Encontros nos quais
as pessoas diziam: "nós gostamos de sua voz, mas sua banda é péssima" ou
"nós tivemos uma grande idéia: você vai gravar com o Radiohead". Logo
percebi que Hollywood é só uma fábrica onde as promessas não são sérias.
Eu me transformei em uma espécie de troféu que era interessante de ser
mostrado em restaurantes da moda, mas só. Eu freqüentemente chegava em
casa com uma depressão profunda. Mas eu tive sorte quando achei uma
pequena gravadora, a Sanctuary. Quando assinei o contrato, eles me
ofereceram uma guitarra que pertenceu a Johnny Thunders quando ele estava
nos New York Dolls: a Vox Teardrop branca. Quando comecei a gravar, me
mandaram uma incrível cesta de frutas. Pela primeira vez, uma gravadora
queria ser legal comigo.
Você vai publicar um livro um
dia? Eu já me sinto um escritor. Apenas um escritor cantando suas
histórias. O que é difícil, já que uma parte inteira da vida tem de caber
em uma canção de três minutos. Estou condenado a não escrever demais. Para
isto, vai existir minha autobiografia... Cada canção conta uma história. E
eu escrevi centenas delas. Nunca me senti preso por este modo de escrever.
Eu me sentiria assim se fosse um entregador de leite.
Tradução:
Fabrício Muller |
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