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6:37 p.m. - 2005-06-22
Filme: Paixão de Cristo, de Mel Gibson
Assim no filme como no
Evangelho
Entre acusações de
anti-semitismo e exploração “pornográfica” de violência (cenas fortes de
abuso físico contra o Filho de Deus comovem muita gente dentro das salas
de cinema), filme dirigido por Mel Gibson segue carreira nos cinemas
procurando ser uma obra de cristão para cristãos. Com o ator Jim Caviezel
como protagonista e todo falado em latim e aramaico, A Paixão de
Cristo revela, no entanto, que padecer na cruz para pagar os pecados
da Humanidade é a verdadeira mensagem do longa, que não inventa muita
coisa fora do Evangelho. Por Fabrico Muller. |
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Violência exacerbada durante a via-crúcis
é uma das grandes polêmicas de A Paixão de
Cristo |
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Dirigido por Mel Gibson, falado em latim e aramaico
e com o ator Jim Caviezel no papel principal, A Paixão de Cristo
conta a história das doze últimas horas do fundador do Cristianismo. O
filme começa quando Jesus, angustiado e tentado pelo demônio (uma figura
andrógina que o acompanha durante praticamente toda a projeção), pede a
seus discípulos, no Getsêmani, que velem por ele – o que eles não
conseguem fazer, pois pegam no sono. Logo chegam os guardas judeus que vão
prendê-lo, e começa o martírio: os guardas amarram-no e dão diversos socos
e golpes de correntes. Quando Cristo chega diante do sacerdote Caifás, uma
de suas vistas já está estourada e ele enxerga apenas com a outra – que
fica aberta, arregalada, até o final do filme, como bem notou Luiz Carlos
Merten no Estadão. Os sacerdotes fazem um julgamento sumário: bastou Jesus
reconhecer que era o Filho de Deus para que fosse proclamada a blasfêmia.
Ele recomeça a apanhar.
Os sacerdotes judeus queriam a cruz, mas
suas leis não previam pena de morte. Eles foram, então, pedi-la a Pilatos,
o dirigente romano na Judéia, que se recusa e pede aos judeus que levem
Jesus ao rei deles, Herodes. Este, que está tão alucinado, envolto por
seus asseclas, que não quer nem saber do assunto. Os sacerdotes trazem o
Filho de Deus de volta a Pilatos, que continua não vendo nenhum crime
nele. O romano pede um acordo aos sacerdotes e ao povo reunido na praça:
os judeus deveriam escolher um preso para ser libertado, Cristo ou um
ladrão vulgar – Barrabás, que é o escolhido. Pilatos não se conforma, diz
que não vai mandar matar Jesus, vai apenas dar-lhe um castigo.
As
surras dadas pelos judeus em Jesus até aqui não são nada perto do que os
romanos fazem a partir de então. Cristo é açoitado um número interminável
de vezes com varas flexíveis e de ferro, e também com chicotes com metais
de diversas formas nas pontas. Ele apanha e sangra por todas as partes do
corpo – além dos ferimentos usuais dos golpes, as partes metálicas dos
instrumentos de tortura tiram pedaços enormes de Sua pele. Cristo volta à
presença de Pilatos, dos sacerdotes e do povo reunido na praça. O
dirigente romano, diante de um Jesus totalmente arrebentado, pergunta aos
judeus se não está suficiente. Não está. Eles querem a cruz. Pilatos lava
as mãos, dizendo que não tem nada a ver com aquele crime.
Os
romanos trazem a cruz a Cristo, que a carrega com grande dificuldade,
enquanto é chicoteado o tempo todo pelos romanos. Sua caminhada no Gólgota
é indescritivelmente sofrida, assim como a Sua posterior subida à cruz.
Mel Gibson não poupa um detalhe: são mostrados – de maneira chocante –
socos, quedas, chicotadas, além do martelar de enormes pregos nas mãos e
nos pés. Quando Ele finalmente expira, o céu escurece e a terra treme -
quando então o Templo, conforme profetizado, é destruído (para o enorme
arrependimento do sumo sacerdote judeu).
A Paixão de Cristo
é um filme duro de assistir, de tão violento. É angustiante e traz
sofrimento para o público. Boa parte das pessoas chora – nas cenas mais
pesadas são ouvidos soluços e mais soluços nas salas de projeção.
Para que este sofrimento todo? Muitos dos críticos acharam que
esta exploração da violência é pornográfica, coisa de uma mente sádica e
cruel – e mesmo mercantilista. Outra queixa recorrente é de que o filme
não se concentra na mensagem de Cristo, apenas no seu sofrimento –
realmente, apenas em durante alguns flashbacks durante Seu horrendo
sofrimento, Sua mensagem aparece na tela.
Penso que estes são
questionamentos deslocados, que não atingem a real intenção de A Paixão
de Cristo. O filme de Mel Gibson é, na verdade, o de um cristão para
cristãos. O fato de Jesus ter padecido na cruz para pagar os pecados da
Humanidade é, praticamente, o que existe de mais fundamental na doutrina
Cristã – afinal de contas, para o crente, quanto maior o Seu sofrimento,
maior o Seu amor por nós.
P.S.: Anti-semitismo? Se A Paixão de
Cristão é anti-semita, os Evangelhos também o são – já que a película
não inventa muita coisa fora deles. Além disso, quem tinha mais prazer ao
fazer Cristo sofrer no filme eram os romanos, não os judeus. Isto sem
contar o fato de que o próprio Cristo, sua Mãe e seus seguidores também
eram judeus... |
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