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2:44 p.m. - 2005-06-22
Matéria Especial: Smiths

Vinte anos depois

Passadas duas décadas, a mágica misteriosa das canções compostas por Morrissey e Johnny Marr continuam arrebatando hordas de novos fãs e tornando o grupo britânico mito da seleta galeria da música pop eterna. Fabrício Müller e Abonico R. Smith contam a trajetória deste histórico quarteto de Manchester
 
Rourke, Morrissey, Marr e Joyce: sem sexo e drogas mas com muito rock'n'roll

Por mais que seus detratores neguem esta possibilidade, parece cada vez mais claro que a melhor música pop é eterna. Casos como o Black Sabbath da fase Ozzy Osbourne – sucesso de público e fracasso de crítica nos anos 70 e seminal para o principal movimento do rock feito nos anos 90, o grunge – e, principalmente, o Velvet Underground – praticamente ignorado quando na ativa, no final dos anos 60 e início dos 70 e fundamental influência para grande parte do rock feito nas décadas seguintes – estão aí mesmo para comprovar que o bom rock é perene. (Isto sem contar os Beatles, campeões de vendagem – e de crítica – até hoje.)

E é com a perspectiva de permanência no tempo que se comemora, em 2003, os vinte anos da fundação da banda inglesa Smiths. Existem indicações de que o grupo de Morrissey e Marr é um daqueles que ainda serão ouvidos e respeitados daqui a três séculos, como Bach ainda é ouvido e respeitado 250 anos após a sua morte. A cada dia o legado da banda parece mais solidificado, mais cristalino. Não à toa que o semanário New Musical Express declarou, em 2002, que o Smiths é “a banda mais influente da História” – à frente dos Beatles, que ficaram em segundo lugar).

Ao contrário dos já citados Velvet Underground e Black Sabbath, os Smiths, desde seu início, gozaram do entusiasmo de grande parte da crítica – mais semelhantes, neste ponto, aos vizinhos de Liverpool. Em um ponto, porém, o grupo de Manchester foi único: da famosa tríade sexo, drogas e rock'n roll, os Smiths só tinham mesmo o rock'n roll. O letrista e líder da banda, Morrissey, declarava que não fazia sexo e que não usava drogas, em uma espécie de trangressão ao estereótipo do "roqueiro". Suas letras, extremamente complexas, têm qualidade tão superior à média do restante da música pop que hoje em dia são estudadas em universidades inglesas – o jornal inglês The Guardian chegou a declará-lo “o maior inglês vivo”. Tudo isto pontuado pela guitarra brilhante de Johnny Marr, autor das melodias da banda.

Encontro prosaico
Se os Smiths tornaram-se um mito da música pop mundial, a origem da banda, por si só, é outro grande mito. Tanto nas palavras de Marr quanto nas de Morrissey o encontro definitivo entre os dois – que selou a criação do quarteto –, sempre foi descrito de forma grandiloqüente, com detalhes para lá de prosaicos. Em um dia qualquer de maio de 1982, Marr estava assistindo a uma entrevista de Jerry Lieber e Mike Stoller, dupla de produtores e hitmakers dos anos 50 e 60, que compuseram “Twist And Shout” e muitos outros sucessos de Elvis Presley, Coasters e Righteous Brothers. “Um deles sabia onde encontrar o outro, bateu na porta de sua casa e disse ‘hey, vamos escrever músicas juntos’. Isso pareceu um tanto idealista, mas me impressionou. E foi exatamente o que eu fiz”, declarou, omitindo o fato de que precisou estar acompanhado de um amigo em comum para precisar ser apresentado a Moz e obter aprovação quase imediata dele.

Morrissey reforçou a história, acrescentando que este era um fato pelo qual ele estava esperando “desde a infância”. “O Tempo estava passando. Eu tinha 22 anos, Johnny era mais novo. Este evento mágico, místico, era algo pelo qual eu esperava ansiosa e inconscientemente por muito tempo – o que de fato acabou ocorrendo. Tinha um feeling afiado de que algo fora do comum aconteceria comigo e interpretei isso como alguma magnitude de fama”. Se um dia chegou a declarar que ele chegaria ao ponto de colocar um fim de sua vida se Marr não houvesse batido à sua porta, o vocalista também confessou que desde o começo daquele ano ele alimentava o sonho de estar em cima de um palco. “É algo muito estranho, porque per um bom tempo eu persegui esta idéia e daí decidi que nunca mais iria tentar. Então algo aconteceu. Foi muito esquisito”.

Logo Marr, Morrissey e Stephen Promfet (o tal amigo que apresentou um ao outro) começaram a ensaiar. Promfet logo abandonou o barco e a dupla seguiu compondo enquanto pocurava novos companheiros. Em setembro veio o baterista Mike Joyce, convencido pelo guitarrista a trocar de banda. Em dezembro, o baixista Andy Rourke, companheiro de adolescência de Marr, ocupou a última vaga. Em 6 de janeiro de 1983, essa formação dez seu primeiro show em Manchester, abrindo rapidamente várias outras portas na cidade que já havia gerado ao mundo Buzzcocks, Joy Division e New Order.

Em abril, o persuasivo Johnny Marr convenceu Geoff Travis, proprietário do selo independente Rough Trade a ouvir a gravação de “Hand In Glove”, realizada semanas antes. Imediatamente após a audição, Travis propôs a assinatura de contrato com a banda, lançando o primeiro single logo nos primeiros dias de maio. A partir de então, as entrevistas (e capas) de NMEs e Melody Makers, as sessões nos estúdios da BBC (sobretudo no programa do lendário John Peel), os shows por toda a Grã-Bretanha, dois álbuns (The Smiths, de 1984, e Meat Is Murder, de 1985), uma coletânea de singles (Hatful Of Hollow, de 1984) e a conquista meteórica de hordas de fãs por toda a ilha (Europa e overseas) foi um pulo – os álbuns gravados pelos Smiths vêm dissecados logo abaixo.

Rainha morta
Histeria coletiva foi algo que acompanhou os Smiths em seus quatro fugazes anos de carreira – ressuscitando um comportamento só visto anteriormente no auge da beatlemania. O ápice ocorreu em 1986, quando um álbum de capa verde (as capas dos discos eram quase sempre monocromáticas; os singles flagravam atores e atrizes preferidos de Morrissey) chega às lojas em junho de 1986. Nas linhas e entrelinhas, recados diretos contra a família real e à então primeira-ministra britânica, a conservadora e “dama-de-ferro” Margaret Thatcher. Singles como “The Boy With The Thorn In His Side” e “Bigmouth Strikes Again” (mais as belíssimas faixas “I Know It’s Over” e “There Is A Light That Never Goes Out”) não tardaram a se transformar em grandes hits – galeria esta reforçada no segundo semestre, com o lançamento de “Ask” e “Panic”, ambas não incluídas no álbum, como A-sides de novos compactos.

(Há até quem ouse traçar altas teorias envolvendo referências “secretas” espalhadas em versos e encarte de The Queen Is Dead com a morte de Lady Di, ocorrida onze anos depois do lançamento do álbum. Morrissey teria recheado o disco com pistas sobre a tragédia que matou a única personalidade da Família Real que conseguiu ofuscar o brilho da Família Real propriamente dita.)

Nesta altura, o grupo já tinha Craig Gannon (ex-Aztec Camera) oficializado como segundo guitarrista. Avessos a videoclipes, o grupo “encomendou” ao cineasta gay Derek Jarman um curta-metragem composto por videoclipes (“Panic”, “The Queen Is Dead”, “There Is A Light...”) tão provocantes quanto criativos – sem a aparição dos músicos. Enquanto isso cresciam os rumores de que a expansão do pequeno grande grupo de Manchester fora tão grande a ponto de haver uma troca da indie Rough Trade pela toda-poderosa e corporativa EMI.

Embora estivesse fazendo a felicidade de fãs espalhados pelo mundo inteiro, a parceria entre Morrissey e Marr dava sérios sinais de desgaste em 1987. Guitarrista e vocalista começavam a apontar para rumos diferentes pessoal e musicalmente. Um novo single (“Shoplifters Of The World”), duas compilações (The World Won’t Listen e Louder Than Bombs) e a saída de Gannon antecederam as gravações para o novo álbum, já pela EMI. As conturbadas sessões – Marr teria largado tudo no meio para viajar aos Estados Unidos, causando repulsa e reprovação em Morrissey – contribuíram para a crescente especulação da imprensa britânica a respeito do futuro do grupo a partir de 1º de agosto. Uma semana depois, Marr tornou pública sua decisão de deixar os Smiths, dois dias antes do lançamento do compacto que antecedia o novo disco. No momento em “Girlfriend In A Coma” chegava às lojas, Moz anunciava que manteria o nome da banda, mesmo com Roddy Frame (frontman do Aztec Camera) tendo recusado a ocupar o posto de guitarrista.

Desconfortáveis com a situação, Joyce e Rourke decidiram não tocar mais com um outro guitarrista nos Smiths e, então, o NME anunciou em 12 de setembro que a banda fora dissolvida por Morrissey – que optou por lançar-se em carreira solo mantendo o produtor de Strangeways, Here We Come, Stephen Street (o que explica uma grande semelhança sonora com a estréia do vocalista, Viva Hate). Todas estas turbulências internas e o fato de Strangeways ter sido lançado duas semanas após o fim da banda contribuíram para o álbum não repetir a mesma performance bem-sucedida do antecessor The Queen Is Dead nas paradas e no gosto da crítica – leia mais sobre o injustiçado disco logo abaixo.

O melancólico encerramento das atividades de uma banda que encantou o planeta exatamente pela melancolia extrema de muitos de seus versos não impediu, contudo, que o mito dos Smiths continuasse em um crescendo sem-fim. Hoje, vinte anos depois, o grupo arrebata diariamente novos fãs – a maioria adolescentes, alguns nem nascidos quando o primeiro álbum, The Smiths saiu. Clássicos como “Ask”, “Bigmouth Strikes Again” e “The Boy With The Thorn In His Side” provocam frisson nas pistas de dança da Euopa, Estados Unidos e Brasil. Muitas regravações e discos-tributo se espalham pelos quatro cantos com velocidade impressionante. “How Soon Is Now?” ganhou até o status de tema de abertura de uma das mais populares séries de TV dos últimos anos (Charmed).

Morrissey e Marr podem não estar mais juntos há uma década e meia, mas só precisaram de quatro anos para inscrever seus nomes na história. E a música dos Smiths desde o seu nascimento ganhou a eternidade.



Todos os álbuns

The Smiths (1983): O disco de estréia, apesar de ainda soar um pouco estranho por causa da baixa qualidade de gravação, obteve impacto enorme – não à toa que a imediatista imprensa inglesa até hoje procura desesperadamente por novos Smiths. As duas melhores músicas são a aterrorizante "Suffer Little Children" e a canção de ninar "The Hand That Rocks The Cradle". Ainda tem mais: "Hand In Glove", "Reel Around The Fountain", "What Difference Does It Make?" tornaram-se clássicos.

Meat Is Murder (1984): O primeiro grande sucesso comercial do grupo é um disco ao mesmo tempo mais leve e mais político que o anterior. A melhor música é "Well I Wonder". E, mesmo não sendo vegetariano, você vai se emocionar com "Meat Is Murder" – que Morrissey cantou em grande parte dos shows das recentes turnês.

Hatful Of Hollow (1985): Misto de sobras de estúdio e novos lançamentos, este disco inicia uma das manias recorrentes em toda a carreira de Morrissey: a inserção de faixas que já haviam sido lançadas em álbuns e compactos anteriores. Os destaques são dois riffs inesquecíveis de Johnny Marr: "How Soon Is Now?" (provavelmente a música mais pesada da história dos Smiths) e "This Charming Man". Grandes destaques também são a belíssima "Please Please Let Me Get What I Want" e a complexa"Girl Afraid".

The Queen Is Dead (1986): Considerado por muita gente um dos melhores discos de todos os tempos, este é um álbum exuberante, virulento e debochado. As principais faixas são a pungente "I Know It's Over", as emocionantes "There Is A Light That Never Goes Out" e "The Boy With The Thorn In His Side" mais a irônica "Bighmouth Strikes Again".

The World Won't Listen (1987): Coletânea com muitas músicas que aparecem em outros álbuns. A única realmente inédita é a instrumental "Money Changes Everything". Aqui estão dois singles de sucesso recente: “Ask” e “Panic”.

Louder Than Bombs (1987): Feita para o mercado americano, esta coletânea é quase uma cópia de Hatful Of Hollow e The World Won't Listen, mas tem mais músicas que ambos. Da beleza da trinca "Half a Person", "Rubber Ring" e "Asleep" à alegria de "Sheila Take A Bow", passando pelo deboche de "Sweet And Tender Hooligan", este é o melhor conjunto de músicas em disco dos Smiths.

Strangeways, Here We Come (1987): O último álbum dos Smiths tem uma sonoridade completamente diferente dos anteriores. É mais parecido com a carreira solo de Morrissey (tem até o mesmo produtor, Stephen Street). Esta edição do Bacana tem mais informações sobre ele.

Rank (1988): Disco ao vivo lançado depois do fim dos Smiths, com algumas canções executadas com bem mais peso que nas versões de estúdio.

The Best Of Smiths - Vol. 1 e 2 (1992): Estas duas compilações ainda podem ser encontradas em praticamente qualquer loja de discos no Brasil. A seleção, ao que parece, foi feita pelo próprio Morrissey.

Singles (1995): Traz todos os lados A dos singles dos Smiths. A quantidade e a extensão da compilação (18 músicas de todas as fases do grupo) é ideal para dar de presente para alguém que ainda não conheça a banda.

The Very Best Of Smiths (2001): Coletânea caça-níqueis lançada pela gravadora. Tanto a capa ridícula (que tenta ter o estilo das dos Smiths mas não consegue) quanto os erros primários na impressão da contracapa fizeram com que o próprio Morrissey recomendasse aos fãs que não comprassem o disco.



Estranhas ligações

José Augusto Lemos, em uma crítica na revista Bizz, disse que os Smiths, para serem perfeitos, precisariam ter acabado antes de Strangeways, Here We Come. Para citar outro exemplo conhecido no meio indie (nunca imaginei que iria usar este termo aqui) brasileiro, o jornalista Alvaro Pereira Junior, quando da vinda do cantor britânico ao Brasil, escreveu que o que era importante mesmo nas carreiras, tanto de Morrissey quanto de Marr, eram os quatro primeiros discos dos Smiths – eliminando também deste contexto, portanto, Strangeways, Here We Come (eu nem preciso comentar que discordo totalmente da afirmação do Alvaro, já que gosto tanto da carreira solo do Morrissey quanto da dos Smiths – mas o assunto desta vez não é exatamente este).

Que eu lembre, a única vez que li alguém comparar favoravelmente o último disco dos Smiths com relação aos demais foi em um texto do Jardel Sebba, que escreveu que, segundo suas "muito particulares teorias", os Smiths "terminaram ao perceber que nunca mais conseguiriam fazer nada parecido com seu álbum derradeiro, Strangeways, Here We Come". Achei estranho quando li esta opinião: apesar deste disco nunca ter me desagradado, ele me parecia mais simples que os anteriores. Morrissey deseja um infeliz aniversário a alguém que o deixou, diz que não vai dividir a pessoa amada, conta as histórias de uma namorada em coma e da morte de uma dançarina de discoteca. Os recados são muito diretos, raramente deixavam aquela sensação de insegurança angustiante (um pouco irônica, é verdade) dos discos anteriores.

Mas não foi por causa da crítica do Jardel que eu vim a me dar conta da real grandeza de Strangeways. Foi, sim, em um episódio do seriado Dawson's Creek que eu percebi isto. Em uma dada cena, resumida aqui pelo jornalista Lucio Ribeiro, Girlfriend In A Coma toca durante vários minutos seguidos. Um música, que eu conhecia há mais de dez anos, de um momento para outro transformou-se em uma das mais belas das canções que já tinha tido oportunidade de ouvir. (É interessante como, às vezes, multiplica-se em nós o efeito de uma belíssima música – mesmo que conhecida – quando esta nos pega desprevinidos, conforme eu já tinha comentado aqui.) Depois disto voltei a escutar com mais atenção Strangeways, Here We Come. E é com outra grande banda inglesa, os Beatles – na fase madura – que creio caber aqui uma comparação.

Antes de iniciar minha "muito particular teoria", parafraseando o Sebba, vou reproduzir um trecho de uma entrevista de Johnny Marr falando sobre o disco (Revista Bizz – novembro de 1987): "Em relação ao último LP, o clima é menos pesado e uso menos guitarras – mais definidas, porém – ao contrário daquele entrelaçamento de guitarras e violões que havia antes. A música que compus pedia isso, esse clima pesado a que me referi é muito mais direto. (...) Em termos de instrumentação, sim, é muito mais variado, estou tocando muito mais teclados, como pianos e órgãos. Mas as canções em si continuam canções de rock angustiadas, graças a Deus, e é como gosto delas."

Então é isto. O entrelaçamento de guitarras, técnica que era uma das grandes originalidades dos Smiths, desapareceu, dando lugar a um pop mais direto – como os Beatles faziam, eu poderia acresentar . Neste disco existem também novos instrumentos, mais teclados – o experimentalismo na utilização de instrumentos é outra característica da banda de Liverpool dos últimos discos. Outra característica que eu citaria aqui, também, é a alternância de climas no disco – existem baladas lentíssimas como “Last Night I Dreamt That Somebody Loved M”e, canções um pouco mais pesadas como “Stop Me If You Think You've Heard This One Before” e outras absolutamente densas como “Death Of Disco Dancer”. E alternância de climas em um álbum era uma característica essencial dos Beatles da última fase.

Mas posso não ter convencido ninguém com os meus argumentos até aqui. "Experimentalismo, pop direto, alternância de climas? Posso te citar vários álbuns (bons e ruins) com estas mesmas características!", poderão argumentar.

Concordo em parte com esta objeção. Na verdade, e aí é que fica difícil explicar o porquê, Strangeways, Here We Come se parece com os Beatles, além do que já foi exposto acima, em um aspecto meio movediço e de difícil definição: o terreno da “música pop perfeita”. O que eu quero dizer é que Strangeways é cintilante ao modo de um disco da fase madura dos Beatles – pela semelhança de estilo, é como se fossem primos em segundo grau. E o mais interessante é que pouca gente diria que o último disco da banda de Morrissey e Marr parece Beatles da mesma maneira como se diz que o Oasis parece Beatles.

Por fim, é preciso que se diga: Strangeways, Here We Come nem é o melhor disco dos Smiths. [FM]



Livro minucioso

The Smiths – Songs That Saved Your Life (Os Smiths – Canções que Salvaram Sua Vida) é um livro lançado recentemente na Inglaterra, de autoria de Simon Goddard. Suas cerca de 260 páginas descrevem com grande detalhe a produção de virtualmente todas as canções dos Smiths.

Segundo resenha publicada no site MorrisseyTour, o livro é minucioso ao extremo, chegando a dar informações sobre tonalidades empregadas pelos músicos da banda em diferentes versões de estúdio ou ao vivo. Angela, a autora da resenha, chega a uma refinada ironia quando critica o detalhismo do livro: "quanta informação você realmente necessita a respeito de “Golden Lights”? Você realmente necessita saber que Twinkle (autor da canção) tinha nome de batismo Lynn Ripley? Este tipo de informação muda sua vida? Espero que não”.

Outro ponto falho do livro, segundo a resenhista, é a falta de ênfase em análises das letras de Morrissey, "ao contrário do ocorre no site It May All End Tomorrow". Mas Angela elogia a profundidade e a seriedade do trabalho de Goddard – segundo ela, o autor de The Smiths – Songs That Saved Your Life em nenhum momento descambou para a fofoca ou para críticas pessoais.

Também ao MorrisseyTour Simon Goddard concedeu uma longa entrevista, na qual fala, entre outras coisas, da sua paixão pelos Smiths, da ajuda dada a ele pelo ex-baterista da banda na execução do livro, do seu método de trabalho. Como é comum nestes casos, Morrissey não deu ajuda nenhuma a Goddard, não quis mesmo saber de qualquer contato com ele. Tudo o que o cantor fez foi lhe enviar quatro palavras por um intermediário: "Let Lying Dogs Sleep" (algo como deixe os cães mentirosos dormirem).

"Faz parte do seu enigma", justifica Goddard, que acha que "as ações de Morrissey, se algumas histórias sobre seu comportamento forem críveis, freqüentemente parecem ser bizarras e irracionais". Mas faltou acrescentar que ele é amado por seus fãs como poucos cantores o são.



Mike Joyce x Morrissey e Marr

“Devido à quantidade de mensagens ofensivas enviadas por uma minoria nos fóruns de mensagens e de perguntas, ambos foram suspensos até segunda ordem – desculpem amigos.

Quando se abre o site oficial de Mike Joyce, ex-baterista dos Smiths, surge uma página com um curto comunicado, iniciado com a frase acima. Mesmo sem ter lido o teor dessas "mensagens ofensivas", é com pequena margem de erro que se pode deduzir a sua causa: o rumoroso processo movido por Joyce contra o vocalista da banda, Morrissey, e o guitarrista, Johnny Marr, envolvendo o espólio dos Smiths.

Tudo começou em 1996, quando Joyce, que recebia 10% dos direitos de execução das músicas dos Smiths, entrou na justiça inglesa requerendo que esta porcentagem subisse para 25% (isto, só de direitos atrasados, significava 1,25 milhão de libras para Morrissey e Marr, cada um, pagarem a Mike Joyce). O baterista alegava que ele era tão responsável pela execução das músicas quanto Morrissey e Marr, que recebiam 40% destes direitos cada (o baixista Andy Rourke também recebe, até hoje, 10%). O fato de Mike não ter, jamais, assinado qualquer contrato a respeito foi um incentivo a mais para que ele entrasse na justiça.

Do outro lado, Morrissey e Marr alegavam que a importância de Joyce e Rourke na banda era praticamente inexistente – e que ambos poderiam facilmente ser substituídos por músicos de estúdio. Além disso, Morrissey idealizava as capas dos discos e, em uma entrevista recente, disse que ele e Marr ficavam sempre horas a mais no estúdio, se dedicando totalmente à banda – enquanto Mike e Andy faziam o mínimo necessário e voltavam para casa.

(Independente de quem tenha realmente razão no assunto, é inegável que pouquíssimas pessoas compraram algum disco dos Smiths por causa de Mike Joyce ou Andy Rourke – o foco sempre vai para as letras e a voz original de Morrissey, ou para a guitarra luminosa de Marr. Todas as composições dos Smiths, inclusive, são de parceria destes dois: Morrissey fazendo a letra e Marr, a música. Os direitos de composição, inclusive, nunca foram contestados por quem quer que seja.)

Morrissey e Marr perderam em primeira instância. Marr não recorreu, pagando a Joyce o que ele pedia. Morrissey, ao contrário, continuou recorrendo em todas as instâncias possíveis. No presente momento o vocalista – que já perdeu na suprema corte inglesa – está recorrendo no tribunal da Comunidade Européia. O juiz que inicialmente condenou Moz chamou-o de “isolado, truculento e auto-suficiente”.

Em entrevistas recentes, Morrissey criticou ferinamente este juiz. É possível também que a canção “Trouble Will Come To You In The End” (algo como "o pior vai te acontecer no final") tenha sido composta por Morrissey contra Joyce. Quanto a Marr, ele recentemente declarou que “Morrissey continua lutando e lutando e as conseqüências disto me afetam até hoje. O baterista decidiu que, já que Morrissey não vai pagar, ele pode exercitar seu direito legal de me fazer pagar a dívida de Morrissey. É uma luta para eu manter-me positivo com todos estes problemas”. E, finalmente, existem rumores recentes de que Andy Rourke também processaria os dois ex-colegas.

É neste pé que está o relacionamento atual dos integrantes da banda mais influente de todos os tempos segundo a New Musical Express...



Carreiras solo

Dos quatro ex-membros dos Smiths (não contando aí o guitarrista Craig Gannon, cuja passagem pela banda fora meteórica), o que teve mais sucesso após o fim da banda foi Morrissey. Desde 1987 ele lançou dez discos, sendo que dois (Viva Hate e Vauxhall And I) chegaram em primeiro lugar na parada inglesa. Ele costuma lotar teatros e ginásios, e, mesmo sem gravadora desde 1997 (após o lançamento do álbum Maladjusted, o selo ao qual pertencia seu passe, a A&M, faliu), arrastou milhões de fãs em sua turnê mundial no ano passado. A internet dá uma boa mostra da vitalidade de Moz: existem milhares de sites dedicados ao cantor e o quase-oficial www.morrissey-solo.com (um dos melhores do mundo no estilo) é uma espécie de "centro nervoso" do culto a ele, com uma média de em torno de um milhão de visitas por ano.

A carreira de Johnny Marr, em termos de sucesso comercial, é de menor proporção. O principal acontecimento de sua fase pós-Smiths foi o Electronic, que ele formou com o vocalista do New Order, Bernard Sumner. A dupla lançou três álbuns ao longo da década 90 e está, atualmente, em aparente estado de coma. Para o dia 4 de fevereiro está previsto o lançamento do primeiro CD de novo grupo do guitarrista, Johnny Marr and The Healers. Em paralelo a estas duas bandas, desde o fim dos Smiths Marr tocou com Beth Orton, Oasis, Pretenders, The The e Pet Shop Boys, entre outros.

As carreiras pós-Smiths dos dois outros membros da banda são mais modestas ainda. Mike Joyce chegou a tocar com os Buzzcocks e o Public Image Ltd, do sex pistol John Lydon. Joyce e Andy Rourke estão desde 1998 juntos em uma banda chamada Aziz, além de terem tocado, em 2001, no Moondog One, projeto de Paul "Bonehead" Arthurs, ex-Oasis. Os dois também tocaram, poucos anos após o início da carreira solo de Morrissey, duas músicas com o ex-vocalista dos Smiths: “The Last Of International Playboys” e “Interesting Drug”.



As inéditas de Moz

Desde 1997 sem lançar músicas inéditas, finalmente Morrissey, para alegria (parcial, afinal de contas não foi lançado nenhum álbum) de seus fãs, cantou músicas novas em sua turnê de 2002. Graças à internet, mesmo os fãs que não assistiram a nenhum show puderam obter os mp3 e as letras das canções no site Ambitious Outsiders. Este site, infelizmente, parece não ter mais este material (é possível obter as mp3 seguindo as instruções apresentadas aqui e as letras estão reproduzidas diretamente aqui). As novas canções mostram que Morrissey continua em grande forma. Todas elas têm melodias marcantes e luminosas, além de ótimas letras. A cada vez que escuto uma delas entendo melhor por que poucas vezes me animo com qualquer coisa do chamado britpop: neste gênero (se é que ele faz parte mesmo dele) Morrissey está muito na frente dos outros. De todo o modo, é importante ter em mente que as gravações – pelo menos aquelas a que consegui ter acesso – são ao vivo, e um bom (ou mau) arranjo na hora de gravar no estúdio pode fazer uma grande diferença.

Enquanto o novo álbum não sai – há alguns dias surgiu a notícia de que Moz finalmente teria assinado contrato com um selo, o pequeno Sanctuary (representado no Brasil pelo conglomerado Globo-Jive-Zomba) – você pode saber um pouco mais sobre as novas músicas aqui no Bacana.

“Mexico”: Espécie de homenagem à grande comunidade de fãs latinos, esta lenta canção é pungente ao extremo. A letra, menos simples do que parece, mostra o cantor indo para o México para tomar ar puro – mas mesmo lá ele sente a poluição química americana. Se você acha que basta ser rico e branco para ser feliz, Morrissey te explica que a realidade é diferente: no México ele deitou na grama e chorou, sentindo falta do seu amor.


“The First Of The Gang To Die”: De certa forma, esta também é uma homenagem à comunidade latina fã do cantor. A letra conta a história de Hector, o primeiro da gangue com um revólver na mão e o primeiro da gangue a morrer – que rapaz bobo. Em um belo jogo de palavras, Morrissey conta que "ele roubou do rico e do pobre, e do não muito rico e do muito pobre" (he stole from the rich and the poor and the not very rich and the very poor). Em final contraditório, onde as verdades mostradas anteriormente não se apresentam assim tão definitivas, Morrissey, que havia criticado Hector, conclui que ele levou nossos corações embora. Apesar de contar a história do primeiro da gangue a morrer, a música é bem animada. Como acontecia freqüentemente com os Smiths, onde letras aparentemente tristes eram embaladas por melodias muito alegres.


“I Like You”: Mais uma canção de melodia luminosa, e letra aparentemente quase infantil. O título (“Eu gosto de você”) já é uma declaração de amor. Então ele vai descrevendo, apaixonadamente, como ele vê esta pessoa amada: ele e ela pensam na mesma linha; ninguém que ele conheceu ou conversou sequer se parece com ela; os magistrados hipócritas olham para ela e a inveja os faz chorar. Mesmo com todas estas qualidades, ele tem vergonha de amar esta pessoa. Afinal de contas, ela parece ter deixado dele: como você pôde me deixar depois das coisas que você falou para mim? A maneira com que Morrissey descreve o seu amor em “I Like You” mostra extremamente bem a paixão de uma pessoa insegura – e que não conhecia realmente bem, pelo visto, o objeto do seu amor.


“The World Is Full Of Crashing Bores”: O mundo está cheio de pessoas terrivelmente chatas, canta Morrissey em mais uma canção admirável. Mas ele também deve ser um deles porque ninguém pede para tomar-lhe em seus braços, completa, novamente contraditório e inseguro. O que há na minha cabeça? Poderia ser o mar – com o destino movendo-se atrás de mim. Não, na verdade são apenas mais popstars doentes, mais grossos que bosta de porco, com nada para transmitir, canta, lá pelas tantas, o bardo de Manchester. Em um documentário sobre os Smiths uma grande amiga da época da adolescência de Morrissey disse que ele escrevia letras sob pontos de vista de outras pessoas. Parece ser o caso aqui – como também, quem sabe, seja o caso na canção anterior.


“Irish Blood, English Heart”: O melhor fica para o fim. Uma canção poderosa, extraordinária em todos os sentidos, “Irish Blood, English Heart” ("sangue irlandês, coração inglês" – referência ao fato de Morrissey ser inglês descendente de irlandeses) é um desabafo cantado com raiva. Repetida e injustificadamente acusado, no início dos anos 90, pela NME por racismo e por usar a bandeira britânica em shows (mais tarde outros fizeram a mesma coisa, sem qualquer reação por parte da imprensa especializada), Moz responde que sonha com o tempo quando ser inglês não será pernicioso, quando segurar a bandeira não fará ninguém se sentir envergonhado, racista ou racial. Ele canta que sonha com um tempo em que os ingleses estarão com o saco cheio dos trabalhistas e conservadores, cuspirão no nome de Oliver Cromwell e denunciarão esta família real. Com um extraordinário crescendo e clima épico, “Irish Blood, English Heart” possui melodia quase tão bela e impactante quanto sua letra.



Novas letras

”Irish Blood, English Heart”
(Morrissey/Whyte)


Irish blood, English heart
This I’m made of
There is no one on earth I’m afraid of
And no regime can buy or sell me
I’ve been dreaming of a time
When to be English is not to be baneful
To be standing by the flag, not feeling shameful
Racist or racial?
Irish blood, English heart
This I’m made of
There is no one on earth I’m afraid of
And I will die with both of my hands untied
I’ve been dreaming of a time
When the English are sick to death
Of Labour, and Tories
And spit upon the name Oliver Cromwell
And denounce this royal line that still salutes him
And will salute him
Forever...


“I Like You”
(Morrissey/Boorer)


Something in you caused me to take a new tact with you
I was going through something
You had just about scraped through
Why'd you think I let you get away with the things you say to me
Could it be? I like you
So shameful of me, I like you
No one I ever knew or have spoken to resembles you.
This is good and bad all depending on my general view
Why'd you think I let you get away with all the things you say to me?
Could it be? I like you
So shameful of me, I like you.
Magistrates who spend their lives hiding their mistakes
They look at you and I and envy makes them cry
Envy makes them cry.
Forces of containment, they shove their fat faces into mine
You and I just smile because we're thinking the same line.
Why'd you think I let you get away with all the things you say to me?
Could it be? I like you
So shameful of me, I like you
You're not right in the head, and nor am I, and this is why
You're not right in the head, and nor am I, and this is why
This is why I like you, I like you, I like you
This is why I like you, I like you, I like you
You're not right in the head, and nor am I, and this is why
You're not right in the head, and nor am I, and this is why
This is why I like you, I like you, I like you...


"Mexico"
(Morrissey/Boorer/Day)


In Mexico
I went for a walk to inhale the tranquil cool lovers air
But I could taste a trace of American chemical waste
And a small voice said "what can we do?"
In Mexico
I went for a walk to inhale the tranquil cool lovers lair
But I could sense the hate from the lonestar state
And a small voice said "what can we do?"
It seems if you're rich and you're white you'll be alright
I just don't see why this should be so....
If you're rich and you're white you'll be alright
I just don't see why this should be so....
In Mexico
I laid on the grass and I cried my heart out for want of my love
Oh, for want of my love
Oh, for want of my love ..oh
It seems if you're rich and you're white, you think you're so right
I just don't see why this should be so...
If you're rich and you're white then you'll be okay
I just don't see why this should be so...
In Mexico
I lay on the grass and I cried my heart out for want of my love
For want of my love
For want of my love
For want of my love


"The World Is Full of Crashing Bores"
(Morrissey/Boorer)


You must be wondering how, the boy next door turned out
Have a care, but don't stare because he's still there.
Demented policemen, policemen, silly willy taxmen, uniformed whores
They who wish to hurt you, they work within the law,
This world is full of, so full of crashing bores
And I must be one cos no one ever turns to me to say take me in your arms
Take me in your arms, and love me
You must be wondering how, the boy next door turned out,
Have a care and say a prayer because he's still there
Demented policemen policemen, silly willy taxmen, uniformed whores
Educated criminals represent the law
This world is full, so full of crashing bores
And I must be one cos no one ever turns to me to say take me in your arms
Take me in your arms and love me
And love me
What really lies beyond the constraints of my mind
Could it be the sea - with fate moving back at me
No it's just more lockjaw popstars
Thicker than pig shit, nothing to convey
They're so scared to show intelligence, it might smear a lovely career
This world, I am afraid is designed for crashing bores
I am not one, I am not one
You don't understand, you don't understand
And yet you can take me in your arms and love me, love me, and love me
Take me in your arms and love me...
Love me, oh love me
Take me in your arms and love me...
Take me in your arms and love me, what you do, what you do, what you say...


"The First Of The Gang To Die"
(Morrissey/Whyte)


You have never been in love until you've seen the stars reflect in the reservoirs
And you have never been in love
Until you've seen the dawn rise behind the home for the blind
We are the pretty petty thieves, and you're standing on our streets
Where Hector was the first of the gang with a gun in his hand
And the first to do time
The first of the gang to die, such a silly boy
Hector was the first of the gang with a gun in his hand
And the first to do time
The first of the gang to die, oh my...
You have never been in love
Until you've seen the sunlight thrown over smashed human bones
We are the pretty petty thieves, and you're standing on our streets?
Where Hector was the first of the gang with a gun in his hand
And the first to do time
The first of the gang to die, oh my...
Hector was the first of the gang with a gun in his hand
And a bullet in his gullet
And the first lost lad, under the sod
And he stole from the rich and the poor and the not very rich and the very poor
And he stole our heart away, he stole our hearts away
He stole our hearts away, ahey ahey ahey, ahey ahey
He stole our hearts away...

 

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