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7:05 p.m. - 2005-06-22
Livro: Aritmética, Fernanda Young
2 + 2 = 5
Um romance que atravessa décadas sendo guiado por uma
estranha obsessão: os encontros devem ter intervalos em progressão
geométrica. Enquanto isso, filhos e netos envolvem-se em triângulos
amorosos com estreitas relações entre as famílias. Este é o universo de
Aritmética, quinto livro de Fernanda Young. Fabricio
Muller fala mais sobre o que se passa entre conflitos e frustrações
dos personagens e capítulos de tamanhos e narrativas bem
distintas. |
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Novo livro de Fernanda Young flutua entre
narrativas em primeira e terceira pessoas |
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Fernanda Young ficou tristemente célebre depois de
algumas declarações bombásticas no programa Saia Justa, do canal de
TV a cabo GNT. Por isso, muitos a chamam de, simplesmente, idiota.
É justo isso? Tudo parece indicar que não. Os Normais,
seriado que ela escrevia junto com seu marido Alexandre Machado, foi um
dos maiores sucessos (de crítica e público) dos últimos tempos da tevê
Brasileira. Além disso, ela já pode ser considerada uma romancista madura.
Aritmética, lançado recentemente pela Ediouro, é o seu quinto livro
publicado.
O cerne da obra é o caso de amor obsessivo que um
grande escritor, João Dias, tem com uma mulher chamada América. O que
torna a relação especialmente opressiva é a regra que ela impõe para os
encontros entre os dois: eles devem ser espaçados em períodos de tempos
cada vez maiores, em uma progressão geométrica que acaba resultando em
intervalos que duram décadas - daí o título Aritmética.
Esta relação louca vai transformando João Dias em sujeito amargo e
pessimista. O veneno que lhe corrói a alma (e do qual ninguém suspeita da
existência, já que ele é casado com outra mulher e não conta para ninguém
sobre seu amor doentio) vai abalando as estruturas da família: incapaz de
amar qualquer pessoa que não seja América, o grande escritor torna-se uma
pessoa indiferente aos filhos, à mulher, aos netos. Eduardo, seu filho,
joga-lhe na cara que ele fora um mau pai.
Eduardo é também
escritor, mas de muito menos sucesso que João Dias. A crítica só admira um
de seus livros, que conta com todos os detalhes um caso que ele teve com
Elisa, uma jornalista depressiva casada com o fotógrafo Rigel, uma espécie
de J.R. Duran da ficção, especializado em tirar fotos de mulheres nuas.
Este, farto das crises da esposa, tem um caso com uma mulher solteira,
Mariana, a qual está escrevendo um livro sobre seu “avô”, João Dias.
Para completar o encadeamento de triângulos amorosos e relações
familiares descritos em Aritmética, o livro dá a entender – mas não
de forma definitiva – que Mariana, cuja mãe se matou, fora criada pela
avó, América.
Antes de mais nada, é preciso dizer que Fernanda
Young domina com maestria o seu ofício. Consegue apresentar os sentimentos
ou pensamentos das personagens de forma convincente, tem estilo de escrita
fluente e utiliza muito bem algumas técnicas diferentes no decorrer do
livro (por exemplo, escrita em primeira e terceira pessoas, capítulos
longos ou formados apenas por uma frase, capítulos em forma de poema – e
até mesmo um trecho escrito de trás para frente).
As personagens
de Aritmética, porém, não são muito marcantes. A impressão que às
vezes passa é a de que todas elas simplesmente se deixam levar pelos
acontecimentos, nunca sabendo bem o porquê de suas próprias atitudes. A
felicidade, aliás, parece quase não existir no universo de Fernanda.
Outro problema do livro é o próprio motivo da angústia permanente
de João Dias. Parece pouco consistente basear um romance em um caso
amoroso no qual os amantes se encontram a intervalos geometricamente cada
vez maiores no tempo.
Quem sabe o segredo da obra esteja no
desabafo final de Mariana, quando descobre o estranho relacionamento
amoroso do “avô” escritor: "esta América é uma escrota, uma doente, tão
doente quanto João Dias!”. Ela acaba concluindo que a família toda acabou
amaldiçoada por causa desta praga.
Um grito desesperado de
sanidade neste universo esquizofrênico apresentado em Aritmética.
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