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7:08 p.m. - 2005-06-22
Livro: Crimes à moda antiga, de Valêncio Xavier (com entrevista)
Histórias reais
Novo livro de Valêncio Xavier promove um mergulho nos
becos mais obscuros da alma humana ao resgatar tragédias do Século 20
ocorridas por motivos mais ou menos insignicantes. Crimes à Moda
Antiga, recém-lançado pela Publifolha, mostra em oito contos o pouco
apreço pela vida alheia, em estilo próximo à literatura e jornalismo
policias. Fabrício Muller embrenhou-se pelas histórias escabrosas
desse angustiante mundo paralelo revelado pelo escritor. |
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Diferentes técnicas narrativas causam
sensação de estranheza ao leitor do novo livro de Valêncio
Xavier |
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Crimes à Moda Antiga (Publifolha), o mais
recente livro do paulista radicado em Curitiba Valêncio Xavier, é composto
por oito contos que descrevem crimes que aconteceram no Brasil do início
do século 20.
O livro é um mergulho nos becos mais obscuros da
alma humana. Em muitos dos contos, os assassinos matam por motivos mais ou
menos insignificantes, mostrando o pouco apreço que têm pela vida alheia.
Assim são os crimes causados pela cobiça dos ladrões em “Os
Estranguladores da Fé em Deus” e “Gângsteres Num País Tropical”; pelo
ciúme em “O Outro Crime da Mala”; pela honra ultrajada e orgulho ferido em
“A Noiva Não Manchada de Sangue”; pela certeza de impunidade dada pela
riqueza em “O Crime de Cravinhos”.
Além disso, duas histórias de
Crimes à Moda Antiga se destacam pela violência extrema. Em “O
Crime do Tenente Galinha”, tanto os assassinos quanto o assassinado (o tal
Tenente Galinha) chegam a níveis absurdos de maldade e agressividade. “Aí
Vem o Febrônio” é uma impressionante descrição da mente de um psicopata
com delírios religiosos.
Cada conto tem, em média, vinte páginas e
é dividido em vários pequenos capítulos de mais ou menos uma página cada
um. A narrativa é ágil e rápida – e exige bastante atenção por parte do
leitor, dada a grande quantidade de detalhes apresentados em cada
história. Já o aspecto visual de Crimes à Moda Antiga é importante
mas não fundamental. As interessantíssimas ilustrações – feitas por Sérgio
Niculitcheff e pelo próprio Valêncio Xavier, ao modo daquelas do início do
século passado – servem mais como complemento do que como parte
indispensável à compreensão das histórias - ao contrário do que ocorria em
obras anteriores do autor, como O Mêz da Grippe, Maciste no
Inferno e O Minotauro (in: O Mêz da Grippe e Outros
Livros, Companhia das Letras, 1998).
O estilo de Valêncio é
impessoal, próximo da literatura e do jornalismo policiais –utilizando
também, com maestria, diferentes técnicas descritivas. “Os Estranguladores
da Fé em Deus”, por exemplo, apresenta, de maneira extensiva, os
depoimentos judiciais (sempre entre aspas) dos criminosos para a descrição
de seus próprios crimes. Um trecho de “A Noiva Não Manchada de Sangue” é
composto apenas pelas falas da criminosa (entre aspas) e pelas reflexões
do delegado (em negrito). Em alguns contos, as frases mostrando os
pensamentos ou falas dos personagens surgem sem apresentação – e de
maneira intermitente – no meio da descrição fria dos crimes. Assim
aparecem em itálico raciocínios do suspeito em “A Mala Sinistra” e os
delírios do assassino em “Aí Vem o Febrônio”, além das declarações em
negrito do assassino José Pistone em “O Outro Crime da Mala”.
A
mistura de histórias escabrosas, narrador impessoal – que raramente julga
seus personagens – e diferentes técnicas narrativas dá uma sensação de
estranheza no leitor. É como se Valêncio Xavier nos transportasse para um
angustiante universo paralelo, onde crimes estúpidos fossem a coisa mais
normal do mundo.
Bate-papo com Valêncio Xavier
As histórias de Crimes à Moda Antiga são
reais? São sim. Para me informar a respeito fui diversas vezes a
São Paulo, para visitar tanto o Arquivo Oficial do Estado quanto a
Biblioteca Pública de lá. Eu não podia inventar nada, pois sempre há o
risco de ser processado. Para pesquisar sobre o crime ocorrido em Curitiba
(do conto “Gângsteres Num País Tropical”) fui na Biblioteca Pública daqui.
Algumas histórias são realmente escabrosas... Sim, a
Sinhazinha Junqueira de “O Crime de Cravinhos ou da Rainha do Café”, por
exemplo, era uma mulher muito rica, fazendeira de imensas posses. Ela
comprava quem queria. Espantosa também foi a história de “Aí Vem o
Febrônio”...
Para mim, a história deste assassino psicopata com
delírios religiosos é a mais impressionante de todas. Realmente,
esta é assustadora. Fiz até um livro sobre este caso.
Pode-se
encontrar este livro nas livrarias? Não, está fora de catálogo há
muito tempo já.
Um fato que sempre é salientado é a preocupação
com a parte gráfica de seus livros. Com certeza. Tudo o que você vê
em Crimes à Moda Antiga – como desenhos, ilustrações e formatos de
letras (negrito, itálico, etc) – já sai pronto daqui para a editora. Eles
não mudam nada.
São muito interessantes as ilustrações do
livro. Eu fiz algumas ilustrações, conforme mostra o encarte. Mas a
maioria foi feita pelo meu sobrinho, Sérgio Niculitcheff. E a técnica que
ele mais usou foi desenho a partir de fotos de jornal.
A
maioria dessas ilustrações é baseada na realidade? Sim, a maioria
é. O desenho da cama que aparece na primeira ilustração do conto “A Morte
do Tenente Galinha”, por exemplo, é baseado totalmente na cama em que ele
realmente morreu.
E os símiles de jornais que aparecem em “O
Outro Crime da Mala”? São reais, então? Sim. Tudo obtido em minhas
viagens a São Paulo. (FM) |
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