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2:52 p.m. - 2005-06-22
Show: Curitiba Pop Festival 2003 (com Abonico)
Ao Vivo 7
Curitiba Pop Festival Ópera de Arame (Curitiba)
- 02.05.03 |
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Em seu primeiro e único show no Brasil, o
Breeders de Kim Deal montou um set inesquecível |
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O atraso no vôo que trouxe a trupe das gêmeas Deal
de Buenos Aires a Curitiba proporcionou uma cena insólita na tarde do
segundo e derradeiro dia do CPF. Pela primeira vez na história da cidade,
um show internacional deu de presente ao público um “ensaio aberto”. A
passagem de som começou enquanto uma fila enorme já era formada do lado da
fora da Ópera de Arame. Aos poucos, o público ia entrando e se somando aos
jornalistas e credenciados que já presenciavam o pequeno deleite de ter
Kim, Kelley e os Breeders no palco, a apenas alguns metros de distância.
“Cannonball”, o maior hit do hoje quinteto, provocou a maxi-aceleração de
muitos corações antes mesmo de começar oficialmente a escalação daquele
sábado.
E coube aos curitibanos do Criaturas a tarefa de
“inaugurar” a metade final do CPF. Duas belas vocalistas (irmãs, diga-se
de passagem), som extremamente melodioso, um quê do mod sixtie
misturado aos arranjos psicodélicos da primeira fase dos Mutantes. Com boa
presença de palco, adquirida por freqüentes shows na noite da capital
paranaense, o grupo promete alçar vôos mais altos. Basta lançar logo seu
primeiro disco.
“Melissa”, logo de cara, para chacoalhar. Logo em
seguida, sem qualquer tempo para respirar, a versão em português de “Buddy
Holly”, hit do Weezer. Continuando o massacre, o novo hit “Microondas”,
grudado na seqüência. Foi assim, com um repertório poderoso e muito bem
costurado, que o Bidê Ou Balde botou para quebrar puxando a
escalação das bandas gaúchas do dia. Show ensaiadíssimo, vocalistas
extremamente carismáticos, performances individuais de encher os olhos. Se
com dois discos o grupo já fez o indie rock verde-e-amarelo avançar
a passos largos, o futuro é bastante promissor. Com mais um punhado de
músicas fortes (“Cores Bonitas”, “Matelassê”, “Bromélias”),
profissionalismo ao extremo em cima do palco e muita garra nas veias, a
Bidê arrasou. Muita gente ficou um bom tempo sem qualquer palavra.
Um problema particular com um dos integrantes fez o trip Os
Catalépticos adiantar sua apresentação. O psychobilly dos
infernos ganhou o palco da Ópera de Arame e não fez feio em proporções
maiores – prova de que o gênero cresce longe de seu público habitual.
Contudo, havia um notório clima de tensão interno, que prejudicou o
resulatdo final. Foi muito bom, mas poderia ter sido tão devastador quanto
de costume nos buracos de Curitiba e do exterior.
Responsáveis
pelo primeiro ti-ti-ti da noite, os Faichecleres não tiveram o
menor pudor de se despirem na frente de três mil pessoas. Subiram ao
palco, livraram-se das roupas, ficando apenas de sapatos, gravatas e
fraldões geriátricos. Apoiado em versos que flutuam entre o pueril e o
pornográfico e arranjos power pop, o trio – comandado pela
frenética bateria de Tuba, que volta e meia não respeitava a continuidade
dos BPMs – não precisou fazer muito para conquistar a platéia estrangeira
(era maciça a presença de gente de outros estados entre as 3 mil pessoas).
Toda a timidez que faltou nos Faichecleres acabou sobrando na
atração seguinte. Mesmo com dois discos poderosos lançados nos últimos
anos, o Walverdes acabou não trazendo para Curitiba toda a força já
conhecida dos estúdios. O power trio gaúcho tocou quietinho, Mini
se contentou em ficar meio escondido no canto esquerdo do palco, mesmo com
toda a potência de sua guitarra e vocais. Não fez feio, mas também ficou
longe de fazer jus às expectativas que cercavam a vinda da banda.
Cabelos compridos, piercings à mostra, guitarras furiosas e
lama na cara e no corpo todo. Este foi o jeito que o Primal...
escolheu para lançar seu primeiro álbum, um disco conceitual que projeta
personagens mitológicos em uma Curitiba esquisita, com traços do passado,
presente e futuro. Talvez pela invasão indie na platéia, o metal
afiado do grupo (com direito a truque de iluminação com faíscas obtidas em
esmeril) soou deslocado. Quem gosta, entretanto, curtiu o heavy lento e
poderoso dos caras.
Fabrício Nobre, histriônico frontman do
MQN protagonizou o segundo grande momento do dia. Na maior
cara-de-pau, começou a provocar o público com dizeres nada gentis. Obteve
em troca esboços alguns xingamentos. A temperatura esquentou. Enquanto a
banda goiana cuspia sua mistura ruidosa de garage com stoner
rock, Nobre aumentava o ritmo sua metralhadora verborrágica e virava
alvo de objetos disparados da platéia. Ao fim do último acorde, uma sonora
vaia tomou conta da Ópera de Arame. Com um sorriso estampado entre as
orelhas, o falador vocalista gargalhava ao voltar a se misturar à
multidão. “Eu sou poser para caralho”, confidenciou ao editor deste
site. E precisava?
Porrada, porrada O grande
momento, porém, não tardaria a vir. Com visual inspirado nos Beatles do
filme Os Reis do Iê-Iê-Iê e arsenal sonoro na riqueza de gêneros e
bandas dos anos 60, o Cachorro Grande provou que Porto Alegre é a
cidade mais visceral do rock brasileiro. Durante o show, o público
acompanhava os versos grudentos cantados por Beto Bruno e delirava com os
solos e riffs do baixo de Jerônimo Bocudo e da guitarra de Marcelo Gross.
E o gran finale conseguiu superar toda e qualquer previsão para o
festival.
Na última música, Gross ficou sozinho no palco para
finalizar seu solo. Acabou arrancando microfonias de arrepiar os cabelos.
Não satisfeito, começou a maltratar sua guitarra, esfregando-a sem piedade
nos pedestais e nas caixas. Dirigiu-se ao fundo, onde um pano preto
sustentava no alto o logotipo circular do festival. Ao atirar o
instrumento contra o logo, acabou produzindo um espetacular efeito
sonoro-visual e arrancou muitos aplausos. Sob passos lentos, encaminhou-se
para o miolo, olhou fixamente para a bateria e revelou para todo mundo seu
pensamento.
As pessoas esperavam ansiosamente a destruição final,
mas um dos técnicos de som – que, segundo consta, era o proprietário da
bateria alugada para o evento – entrou em cena para co-protagonizar uma
cena tão memorável quanto lastimável. Evitou o arremesso da guitarra e
passou a se atracar com Gross. Os colegas de banda voltaram rapidamente
para intervir. Muitos seguranças também invadiram o palco e passaram a
trocar sopapos com os músicos. O produtor dos gaúchos, Lee Martinez, quis
separar todo mundo e foi dominado por quatro montanhas. Enquanto isso,
Bocudo preparava seu baixo para servir de taco de beisebol na cabeça de
alguém. E o técnico de som, que evitara vôo da guitarra, tropeçou e acabou
ele mesmo caindo sobre o kit da bateria.
A resposta foi imediata –
ovação e o nome da banda gritado em uníssono. Ao mesmo tempo, todas as
luzes foram apagadas e o zeloso técnico de som ligou um microfone para dar
seu recado. “Eles devem mil e quinhentos reais pela bateria, mais mil
pelos microfones”, emendou. Foi vaiado. Concluída a confusão no palco, os
quatro cachorros grandes voltaram para agradecer à platéia e receberam
mais aplausos. Pouco tempo depois, músicos da Bidê Ou Balde acabaram se
envolvendo em confusão. O baixista André ganhou um olho roxo no meio da
multidão e o guitarrista Pilla – que só queria tirar o amigo do lugar –
foi dominado por um segurança. Arrastado para um lugar distante, conheceu
toda a delicadeza do homem de preto.
Passado o furacão gaúcho,
veio a conclusão de que existem dois tipos de experimentalismo: um que não
funciona – e que normalmente só tenta dar uma roupagem séria à própria
música (por exemplo, a mistura de rock e música clássica perpretada por
grande parte dos progressivos e das bandas de metal que resolvem fazer
concertos secundados por orquestras sinfônicas) – e o outro que funciona –
quando utiliza elementos de diversos estilos para aumentar a
expressividade, combinando-os de maneira satisfatória.
A música da
Nação Zumbi pertence ao segundo caso. A percussão do maracatu é
utilizada na sua mistura com o rock de maneira sincopada e poderosa. Tanto
a guitarra distorcida da banda quanto o restante dos instrumentos são
utilizados com grande competência, aumentando enormemente o impacto do
som. O show da banda no CPF foi um caso muito sério. Nem os problemas
técnicos, que interromperam a apresentação por longos minutos ainda no
início, diminuíram o impacto. Só não levou nota 10 porque na véspera o
Rubin Steiner havia sido ainda melhor.
Bola de
canhão Enquanto o Interpol era tocado pelo DJ, o grupo
headliner se dirigiu à frente do palco. Os cinco, enfileirados, não
traziam nenhum aparato. Não háavia maquiagens ou roupas especiais (Kim,
por sinal, portava o mesmo casaco com o qual havia desembarcado em
Curitiba pela manhã). Plugados os instrumentos, a Deal mais famosa
pacientemente esperou o fade do disco do grupo nova-iorquino para
soltar a primeira nota da guitarra. Sem qualquer alarde, e com muitos
cigarros em estoque para queimarem no palco, logo começava um show para
ficar na história.
Bastaram poucos segundos para que fossem
dissipadas todas as dúvidas que ainda pairavam sobre a performance do
grupo, que passara por um longo período de inatividade e traz agora três
novos membros (o baterista Jose Medeles, o baixista Mando Lopez e o
terceiro guitarrista Richard Prestley). “Tipp City”, faixa do único disco
do Amps (projeto paralelo de Kim, montado em 1996 quando sua irmã fora
presa, acusada de tráfico de drogas), revelou tudo aquilo que o novo
Breeders viria a oferecer na próxima hora: a clássica linha burra
de baixo, guitarras simples porém furiosas e um quê de surf music
(afinal, os novos músicos vieram da Califórnia, têm pelo corpo tatuagens
de símbolos billy – como chamas saindo dos pulsos – e trazem nome e
sobrenome de origem latina). Emendada logo de cara veio uma seqüência
matadora, com “Huffer” (do disco mais recente, Title TK, do ano
passado), “Saints” (um dos hits de Last Splash, clássico de dez
anos atrás e base do repertório deste show) e “Pacer” (outra pérola do
Amps).
A partir de então parecia que o tempo não parou para o
Breeders. O mesmo jogo hipnótico das vozes de Kim e Kelley, a mesma
pegada, a mesma simplicidade... Depois de uma trinca secundária (com
canções extraídas de singles e EPs, como “Safari” e a
quase-hardcore “Head To Toe”, e a instrumental “Flipside”), chegou o
momento mais tocante do show. Dois baixos fazendo linhas contrastantes,
Kim empunhando o violão e a ausência da bateria – assim é “Off You”, outra
música do ainda desconhecido Title TK. Não houve quem resistisse a
versos enigmáticos como “I am the autumn in the scarlet/ I am the make up
on your eyes”.
Mais dois momentos de Last Splash (“I Just
Wanna Get Along” e “New Year”) e surge então a bola de canhão mais
esperada de todos os tempos. Foi só Kim se abaixaram para soltar um
abafado grito tribal que o Curitiba Pop Festival conheceu seu primeiro
êxtase coletivo do dia. Seguindo as repetitivas linhas de baixo e
guitarra, a platéia pulava sem parar, explodindo em uníssono no refrão
berrado de “Cannonball”. Só não ficou arrepiado quem não gostava de rock –
ou então o desconhece.
Tudo voltou ao normal com uma pequena
sessão do álbum de estréia Pod (“Hellbound”, “Iris” e “Happiness Is
A Warm Gun” – cover dos Beatles) e ainda uma terceira faixa de Title
TK (o billy “Full On Idle”). Mas já estava no final do show e o
público brasileiro merecia um novo orgasmo. A Ópera de Arame, então, veio
novamente abaixo quando Lopez começou a tocar o clássico riff de baixo de
“Gigantic”. Finalmente uma música dos Pixies era executada ao vivo por
aqui e ainda por um dos integrantes do grupo (diga-se de passagem, notícia
dada com exclusividade pelo Bacana, em uma entrevista concedida por
Kelley dias antes do festival).
Serviço feito, restou à graciosa
“Drivin’ On 9 (um country torto, com direito a riff de violino com
stacattos por kelley) encerrar extra-oficialmente a apresentação.
Bis garantido, os músicos voltaram para se divertir: tocaram uma do Fear
(histórico grupo punk da Los Angeles dos anos 80, com o qual Prestley e
Lopez andaram excursionando antes de se juntarem às irmãs Deal), a
música-tema do seriado de TV Buffy – The Vampire Slayer e uma
inédita. Para brindar de novo a calorosa recepção, deram outro grande
presente – o hit “Divine Hammer” – antes de voltarem aos camarins.
Depois de um grande show baseado na força de baixos e guitarras,
restou apenas render-se de vez à força de um grupo que soube enfrentar o
tempo de inatividade com garra, criatividade e muita via rock’n’roll. Já
eram duas e meia da manhã e só haviam duas opções: guardar em flashes na
memória a estréia do Breeders em solo brasileiro e esperar nos bastidores
para falar rapidamente com os integrantes desta fênix alternativa que vai
voltar a dar muito o que falar. Abonico R. Smith e Fabrício
Muller
Cinco perguntas para Kim Deal
Por que os cinco tocam em linha, todos à frente do palco e com
a bateria no centro? [Fazendo dos maços de cigarro e copos na
mesa cada um dos cinco integrantes] Porque assim fica mais fácil de
escutar todo mundo. Se a bateria estivesse lá atrás e cada um ficasse
distante do outro, eu não conseguiria ouvir todos os instrumentos da mesma
forma.
Por que o Breeders passou a tocar com três
guitarristas? Bem, nós somos muito preguiçosas às vezes... (risos)
Vocês esperavam toda esta calorosa recepção em
Curitiba? Não tínhamos muita idéia do que iríamos encontrar.
Sabíamos apenas que o pessoal gostava muito do Pixies e do Breeders.
A banda deve voltar ao Brasil ainda este ano, não? Sim,
acho que vamos fazer uma miniturnê para tocar em outras cidades, como São
Paulo.
Onde você está morando agora? O pessoal da banda
mora em Los Angeles. Eu voltei há alguns meses para a casa dos meus pais,
em Ohio. Mas já não estou mais agüentando! Eu preciso sair de lá
urgentemente... (risos) Abonico R. Smith
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